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Netflix estreia ‘S&X’ a 20 de agosto: um consultório japonês onde o tratamento é falar

Veronica Loop

Há uma sala onde quase ninguém se senta, e não é o quarto. É aquela onde alguém diz por fim, em voz alta, o que nunca confessou sobre o seu próprio desejo. ‘S&X’ ergue todo o seu mundo dentro dessa sala e afirma que o difícil nunca foi desejar, mas dizê-lo.

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Kento Nakajima dá corpo a Ichito Shimotori, um terapeuta sexual que gere uma pequena clínica onde os pacientes chegam com aquilo que não conseguem confidenciar ao companheiro nem ao médico. A série da Netflix retoma uma velha tradição da televisão japonesa: uma profissão invulgar torna-se lente sobre vidas comuns, um caso por semana. O que está em jogo é a distância entre sentir um desejo e ter as palavras para o nomear.

A escolha do protagonista é a decisão mais ruidosa da produção e lê-se como estratégia. Nakajima é um ídolo popular, um rosto em que o público confia, e essa confiança é dirigida a um tema que a televisão japonesa costuma manter fora de campo. O realizador Shogo Kusano afasta-o da sedução rumo à contenção: este Ichito escuta mais do que representa. A contenção é a tese.

A estrutura é uma máquina de confissões. Cada episódio acolhe um paciente sem vocabulário para o seu problema e termina quando ele o encontra. Sob os casos semanais corre a verdadeira pergunta da temporada: o terapeuta que distribui aos outros uma linguagem do desejo esconde uma ferida própria, e a série pergunta se alguma vez saberá aplicar a si o que prescreve.

O material vem de uma banda desenhada de Kisei Tada, publicada na revista Morning, da Kodansha, com uma mensagem invulgarmente direta: ninguém tem de carregar sozinho estas inquietações, e há sítios onde pedir ajuda. Não é provocação, mas uma frase de saúde pública disfarçada de drama. E chega a um país que surge, inquérito após inquérito, entre os menos ativos sexualmente do mundo desenvolvido.

É aqui que o drama japonês se torna uma aposta da Netflix. A plataforma passou de licenciar títulos japoneses a produzir originais pensados para viajar. O true crime viaja, o romance viaja; falta provar se um drama sobre aquilo que as pessoas não conseguem dizer atravessa fronteiras, sustentado por um rosto conhecido e por um silêncio que, afinal, não é japonês, mas quase universal.

S&X
Photo: Kumiko Tsuchiya/Netflix

O elenco procura credibilidade e não espetáculo: Yuko Araki, Ryota Miura, Sawako Fujima, Aoi Nakamura e Rinka Kumada rodeiam o consultório, enquanto os veteranos Sayaka Yamaguchi, Yusuke Santamaria e Shiro Sano trazem o registo mais adulto. A composição da série é de Tomoko Yoshida. O que ‘S&X’ não resolve é precisamente o que a torna valiosa: encontrar as palavras não garante ser compreendido, e quem as distribui talvez nunca diga as suas.

‘S&X’ estreia na Netflix em todo o mundo a 20 de agosto de 2026, em japonês legendado, adaptada da banda desenhada de Kisei Tada e realizada por Shogo Kusano a partir de uma composição de Tomoko Yoshida. Que o mundo se sente nessa sala é a aposta da plataforma.

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