Análise

A canção que a Inglaterra não precisava de escolher — e que por isso não consegue parar de cantar

Molly Se-kyung

O momento aconteceu em Dallas. A Inglaterra acabara de vencer a Croácia por 4-2 no jogo de abertura do Mundial 2026, e enquanto os jogadores caminhavam em direcção aos adeptos deslocados para os aplaudir, algo inesperado encheu o estádio. Não um hino ensaiado, não os acordes familiares de Three Lions, mas Wonderwall dos Oasis — trinta anos de idade, composta por Noel Gallagher sobre um amigo imaginário, e agora transformando inexplicavelmente 3.000 adeptos ingleses numa única e oscilante congregação.

Jude Bellingham acompanhava a letra em silêncio. Harry Kane descreveria mais tarde o momento como um dos seus favoritos com a camisola inglesa. Declan Rice foi mais sucinto: «Estar em Dallas, a cantar Wonderwall. Não há nada igual à primeira vez.» A tradição repetiu-se após cada vitória inglesa — Panamá, República Democrática do Congo, e finalmente após o 3-2 sobre o México nos oitavos de final no Azteca, onde Kane ficou sem voz a cantar com os adeptos. Wonderwall funciona não porque foi escolhida sabiamente, mas porque nunca foi realmente escolhida. Os melhores hinos são acidentes. Os fabricados são aqueles de que ninguém se recorda.

A história inglesa da música oficial nos Mundiais é, dependendo da tolerância ao kitsch nacionalista, divertida ou discretamente dolorosa. Como o Euronews noticiou, a Federação Inglesa incluiu a canção na sua lista oficial para os estádios da FIFA juntamente com Sweet Caroline e Hey Jude. Mas o momento em que a tradição se consolidou foi espontâneo: o DJ tocou-a após a vitória sobre a Croácia, a multidão aderiu, e os jogadores levantaram os olhos e reconheceram que algo havia sucedido entre eles e os 3.000 adeptos nas bancadas.

As propriedades específicas da canção são relevantes. PJ Harrison, biógrafo dos Oasis, observou que Wonderwall funciona como material de bancada precisamente pela sua ambiguidade lírica: «pode ser o que eu quiser que seja.» O próprio Noel Gallagher descreveu a canção como sendo sobre um amigo imaginário que nos salva de nós próprios — o que soa levemente absurdo até ser aplicado a um estádio cheio de adeptos ingleses a ver os Three Lions tentarem ganhar um Mundial.

Russell Osborne, apresentador do podcast Three Lions, disse à LBC que a canção representa «um momento de tempo e lugar para aqueles rapazes nos Estados Unidos». O Spotify registou um aumento de 50% nos streams no Reino Unido após o jogo com a Croácia. Como o GiveMeSport relatou, quatro jogadores do conjunto inglês militam no Manchester City, onde Wonderwall é há muito uma constante após os jogos no Etihad Stadium. O defesa John Stones seria próximo de Noel Gallagher. Gallagher enviou uma mensagem a um apresentador de rádio dizendo que Wonderwall «pertence ao povo» e classificou as celebrações de «um momento brilhante». Jordan Pickford declarou: «Adoramo-la todos. Motiva-nos a todos.»

O argumento mais sólido contra Wonderwall como hino vem de quem sustenta que a Inglaterra já tem uma canção mundialista definitiva, e essa canção é Three Lions. A colaboração de 1996 entre Baddiel, Skinner e os Lightning Seeds tem uma especificidade que Wonderwall não possui: nomeia as desilusões da Inglaterra, enquadra o futebol de torneio como continuação de uma história que começou com Geoff Hurst, e é uma canção que só pode ser sobre o futebol inglês. O aviso de Osborne à LBC tem peso: «empatando 0-0, com metade do estádio já a caminho de casa», a magia evaporaria.

Este argumento está correcto sobre Three Lions e errado no que demonstra. As canções cumprem funções diferentes em momentos diferentes. Three Lions é a proclamação pré-jogo da Inglaterra — o hino da resistência. Wonderwall é a comunhão pós-jogo, o momento em que 3.000 pessoas precisam de converter emoção em som em conjunto. Não são hinos em competição. São hinos sequenciais.

Uma canção de amor sobre um amigo imaginário revela-se um veículo mais eficiente para a comunhão pós-jogo do que uma canção escrita para esse efeito, precisamente porque a canção deliberadamente composta já carrega um significado atribuído. A ambiguidade de Wonderwall é o que a torna utilizável. Cada pessoa que canta o refrão insere o seu próprio sujeito — o jogo, o torneio, a noite, a equipa, o próprio sentimento. É exactamente assim que a identidade desportiva colectiva funciona quando funciona verdadeiramente.

A digressão de reunião dos Oasis em 2025 terminou antes do início do Mundial. A banda está novamente inacessível, a digressão já é memória, e Wonderwall flutua livre da sua origem. Não é uma entrada de catálogo, mas um som que 3.000 pessoas no Azteca converteram em algo completamente diferente. Essa conversão é o que merece ser examinado. Não a canção. A conversão.

O que é conhecido: A Inglaterra venceu a Croácia 4-2, o Panamá 2-0, a RDC 2-1 e o México 3-2 no Mundial 2026; Wonderwall estava na playlist oficial da FA; Kane, Bellingham, Rice e Pickford participaram nos cânticos; Gallagher aprovou publicamente; Spotify registou +50% de streams no UK; a digressão Oasis Live ’25 reuniu mais de dois milhões de pessoas.

O que está em debate: Se a tradição foi genuinamente espontânea ou parcialmente orquestrada; se manterá a sua força emocional se a Inglaterra empatar ou perder; se constitui um rival genuíno de Three Lions ou ocupa uma função emocional diferente; se a reunião dos Oasis preparou um momento cultural único ou se a canção teria chegado lá de qualquer forma.

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