Críticas

A Sede do Mal continua a ser o noir mais audacioso e inclemente de toda a história do cinema

Obra-prima de Orson Welles de 1958, um retrato implacável do poder corrupto e dos seus limites morais.
Martha O'Hara

O plano-sequência de abertura de Touch of Evil é um dos mais audaciosos já filmados: uma câmara que serpenteia por ruas sujas, entre corpos e carros, até ao estalido de uma bomba. Orson Welles não apenas abre o filme com um golpe de mestre técnico — estabelece de imediato a sua visão de um mundo corrupto, onde o mal se esconde em cada canto.

Dirigido e escrito por Welles, Touch of Evil (1958) é um thriller noir que segue o investigador mexicano Miguel Vargas (Charlton Heston), cujo honeymoon com a esposa americana Susie (Janet Leigh) é interrompido por uma explosão na fronteira. A trama mergulha rapidamente na podridão da cidade, centrada no detetive Hank Quinlan (Welles), um alcoólico racista que planta provas para condenar inocentes. O filme desafia o espectador com temas como corrupção, preconceito e justiça, tudo enquadrado num estilo visual ousado.

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Onde Touch of Evil mais brilha é na sua direção. Welles utiliza planos longos e ângulos incomuns para criar tensão, como a sequência noturna em que Susie vagueia por um motel iluminado apenas por néon. A fotografia preta-e-branca de Russell Metty, com os seus contrastes profundos e sombras ameaçadoras, é essencial para o tom do filme. E a banda sonora de Henry Mancini — particularmente o tema principal, uma valsa perturbante que ecoa como um presságio — reforça a sensação de paranoia.

Mas nem tudo funciona tão bem. O ritmo arrasta-se em momentos cruciais, especialmente quando o filme se desvia para subtramas como a relação entre Quinlan e o seu assistente Menzies (Joseph Calleia). Estas cenas, embora cheias de diálogos afiados, interrompem a narrativa principal sem adicionar muito valor. E enquanto Heston é convincente como Vargas, o papel de Leigh é subutilizado — ela passa mais tempo a gritar por ajuda do que a contribuir para a trama.

O maior problema, no entanto, é a estrutura. O filme tenta abraçar demasiado: corrupção policial, crime organizado, racismo, e até um enredo de sequestro. A tentativa de Welles de ligar tudo isso numa narrativa coesa falha em alguns pontos, deixando buracos lógicos e cenas que parecem desnecessárias.

Touch of Evil é um filme imperfeito, mas fascinante. Welles assume riscos visuais e temáticos que poucos diretores da época ousariam, resultando num thriller que continua a desafiar e a entretener décadas depois.

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