Críticas

Birds of Prey (E a Fantabulástica Emancipação de uma Harley Quinn) é uma ruptura caótica, aos murros e deliciosa

Cathy Yan realiza em 2020 um spin-off berrante e irregular, carregado por Margot Robbie.
Martha O'Hara
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Harley Quinn atira um camião contra a fábrica da Ace Chemicals, e Birds of Prey (E a Fantabulástica Emancipação de uma Harley Quinn) apresenta-se sem pedir licença: caótico, colorido e sôfrego de energia. O Guardian fala de um camião-cisterna de gasolina e de uma Harley que salta no último instante; a Empire resume o gesto como uma atualização pública do estado da relação, depois de o Joker a ter largado. Realizado por Cathy Yan e escrito por Christina Hodson, o filme é uma derivação de Suicide Squad, título que o Guardian classifica como pouco amado, e tenta visivelmente sair dessa sombra.

A energia, porém, nem sempre se converte em coesão. O Guardian descreve uma narrativa nervosa e fragmentada, que corre em todas as direções atrás de um diamante valiosíssimo, e a Empire resume o conjunto como berrante, confuso e quase sempre divertido. Birds of Prey quer ser comédia frenética, policial e história de libertação ao mesmo tempo, e o equilíbrio nem sempre se aguenta. A estrutura não linear pareceu-me, por vezes, forçada, como se os saltos temporais servissem para disfarçar a fragilidade do enredo. O The Movie Elite discorda e defende que o filme vai e volta no tempo sem nunca se tornar confuso. Admito que a fragmentação tem uma justificação: quem narra é Harley, e a Empire repara que a história se desfaz com a lógica que se espera da cabeça dela.

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Robbie é o ponto mais alto. Além de protagonista, é produtora e foi ela quem levou a ideia à Warner Bros. em 2015. O Guardian elogia a sua capacidade para sorrisos de olhos esbugalhados, de ciborgue louca, e o The Movie Elite, que confessa preferir Harley com o Joker por perto, concede que é difícil não sorrir com as tiradas e o comportamento desvairado da atriz. A voz off de Harley, que o Guardian descreve como insistente, diverte no início e cansa depois, quando o filme já nos explicou aquilo que queria explicar.

O elenco secundário rende de forma desigual. Rosie Perez dá vida a Renee Montoya, uma detetive menosprezada no trabalho e viciada nos lugares-comuns das séries policiais dos anos 80, segundo a Empire; o Guardian reconhece aqui a influência de Shane Black, sobretudo no momento em que lhe mandam entregar a arma e o crachá, e na frase de Harley de que nenhum polícia faz coisa alguma até ser suspenso. Jurnee Smollett-Bell canta no clube de Roman Sionis como Dinah Lance, a Black Canary, capaz de estilhaçar copos de martíni com a voz (Empire), e o The Movie Elite acha-a uma Black Canary decente. Mary Elizabeth Winstead, como Helena Bertinelli, a herdeira de mafiosos que se tornou assassina de besta, fica, segundo o mesmo crítico, com algumas das melhores falas. Ella Jay Basco é Cassandra Cain, a carteirista que a Empire descreve como o eixo da história.

Ewan McGregor, por seu lado, não convence como ameaça. O Roman Sionis dele é exuberante e de humor negro, como diz o The Movie Elite, que esperava um Joe Pesci de Goodfellas, alguém cuja presença paralisa os subordinados, e encontrou um vilão que tortura, mas nunca mete medo a sério. O Guardian junta-lhe um traço de caricatura: o dono do clube é também um colecionador de arte africana sem qualquer sensibilidade cultural. Chris Messina, como o braço direito sádico Victor Zsasz, completa a dupla, mas o filme nunca decide se quer que nos riamos deles ou que os temamos.

A realização de Yan tem ideias claras e algum excesso. O Guardian vê um empréstimo descarado a Kill Bill, com vilões apresentados em imagem congelada e legenda, e a Empire compara a festa de Harley, filmada num plano longo, a um 1917 movido a cocaína. São referências que dão ao filme uma personalidade visual, mas a ânsia de espetáculo sobrecarrega cenas que beneficiariam de mais contenção.

Robbie propôs o projeto em 2015; o filme foi anunciado em maio de 2016, Hodson foi contratada em novembro e Yan assumiu a realização em abril de 2018. A rodagem decorreu de janeiro a abril de 2019, no centro de Los Angeles, no Arts District e nos estúdios da Warner em Burbank, com filmagens adicionais em setembro. A estreia mundial foi na Cidade do México, a 25 de janeiro de 2020, e a estreia nos Estados Unidos a 7 de fevereiro. A crítica foi, em geral, favorável, mas a bilheteira ficou em 205,5 milhões de dólares, abaixo do ponto de equilíbrio estimado entre 250 e 300 milhões.

O título promete a emancipação de Harley, mas as cinco mulheres do filme traçam o seu caminho por conta própria, cada uma num lado diferente da lei, como nota o Guardian. A Empire vibra quando o grupo finalmente se junta, e com razão: é aí que o filme respira. Na minha leitura, porém, o tema fica mais enunciado do que explorado, porque Montoya, Dinah e Helena giram em torno de Harley em intrigas separadas, e os percursos de cada uma ficam por aprofundar.

Birds of Prey entusiasma sobretudo quando as mulheres partilham o ecrã e hesita sempre que tenta ser mais do que uma comédia de pancadaria com estilo. Vale pelo carisma de Robbie, pelo humor e por algumas boas cenas de ação, não pela construção. É um filme barulhento e desigual, mas com personalidade bastante para justificar o bilhete, e a bilheteira foi mais severa com ele do que a crítica.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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