Críticas

Lowlifes: predadores transformados em presas numa história moral perversa

Martin Cid
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A cena de abertura de «Lowlifes» é brutal: a garganta de um homem é cortada e o sangue jorra em pormenor vívido. É uma introdução sem contemplações ao tom do filme, que faz esperar um thriller de terror convencional. Mas os realizadores Tesh Guttikonda e Mitch Oliver têm outras ideias.

A premissa é bastante familiar — uma família em viagem de carro vê-se obrigada a passar a noite numa propriedade rural isolada —, mas «Lowlifes» subverte as expectativas ao inverter os papéis. Keith (Matthew MacCaull) e a família — Amy (Amanda Fix), Savannah (Brenna Llewellyn) e Kathleen (Elyse Levesque) — não são as vítimas típicas de um filme de terror. São os predadores, que atraem viajantes incautos para concretizarem os seus propósitos perversos. Esta inversão é o maior trunfo do filme, permitindo-lhe explorar temas como a ambiguidade moral e a ténue fronteira entre vítima e agressor.

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As interpretações são um dos pontos altos, sobretudo a de MacCaull no papel de Keith. A sua composição de um homem cuja ideia de retidão esconde uma crueldade profunda é eficaz e arrepiante. Keith, na interpretação de MacCaull, é uma figura complexa, que acredita genuinamente estar a prestar um serviço à sociedade ao eliminar aqueles que considera a escória. Esta certeza moral torna os seus atos ainda mais perturbadores, e MacCaull dá-lhe vida com um carisma simultaneamente magnético e repulsivo.

Há uma cena, logo no início do filme, em que Keith convence Billy (Ben Sullivan), um viajante que ficou apeado, a aceitar boleia. A câmara demora-se no rosto de Keith enquanto ele fala; o sorriso nunca lhe chega aos olhos. É um momento subtil, mas poderoso, que deixa entrever a manipulação e o engano no centro da dinâmica familiar.

Amanda Fix, no papel de Amy, transmite um desconforto palpável. O conflito moral da personagem está no centro do filme, e Fix percorre esse território com destreza. Numa cena, Amy confronta Keith por causa dos atos da família, com a voz a tremer de raiva mal contida. «Não estás a matar escória», cospe, com o rosto contorcido de repulsa. «Estás apenas a matar pessoas.» É um momento poderoso, que põe em evidência a reflexão do filme sobre a cumplicidade e a resistência.

Brenna Llewellyn, como Savannah, e Elyse Levesque, como Kathleen, dão profundidade à dinâmica familiar. A cumplicidade silenciosa de Savannah é perturbadora por si só, enquanto a participação contrariada de Kathleen levanta questões interessantes sobre a capacidade de escolha e a sobrevivência. A química entre os quatro protagonistas é palpável, tornando ainda mais cativante o horror que partilham.

O cenário do filme foi deliberadamente concebido para parecer algo que já vimos inúmeras vezes: uma propriedade rural isolada, uma família na estrada. Mas são os pormenores que distinguem «Lowlifes». A propriedade não é apenas um lugar perigoso; é também uma personagem, com o ranger do soalho e os corredores mal iluminados a intensificarem a sensação de inquietação.

A direção de fotografia de Charles Cooper merece especial destaque: a luz e a sombra são usadas para criar uma atmosfera de terror palpável. Numa cena, Amy explora a propriedade sozinha, enquanto o feixe da lanterna percorre as paredes. A forma como a luz apanha as partículas de pó no ar e ilumina as teias de aranha suspensas no teto — tudo é meticulosamente trabalhado para criar uma sensação de mau presságio.

O ritmo do filme pode parecer irregular por vezes, com algumas cenas a arrastarem-se e outras a passarem a correr. Os efeitos especiais, embora impressionantes, resvalam ocasionalmente para o camp, enfraquecendo a tensão que o filme constrói com tanto cuidado. E, embora a inversão de papéis seja uma ideia inteligente, por vezes parece que o filme se esforça demasiado por ser subversivo, dando origem a momentos que soam forçados, em vez de merecidos.

O final, em particular, é uma oportunidade perdida. O confronto entre Amy e Keith é intenso, mas a resolução parece apressada e insatisfatória. É uma pena, porque a preparação para esse momento é tão bem conduzida. Uma exploração mais matizada do destino das personagens poderia ter elevado o filme de bom thriller a grande filme.

Dito isto, «Lowlifes» está longe de ser um fracasso. É um filme ousado e ambicioso, que arrisca e, na maior parte dos casos, consegue levar a sua avante. As interpretações são sólidas, a premissa é original e o cenário tem uma atmosfera própria. O filme insere-se claramente no género do thriller de terror, mas distingue-se pela premissa singular e pelas personagens complexas.

«Lowlifes» é um filme para quem gosta de terror acompanhado por uma boa dose de complexidade moral. Não é para os mais sensíveis nem para quem procura uma sucessão de sustos sem rodeios. É, antes, um thriller de combustão lenta que coloca questões difíceis sobre a moralidade, a cumplicidade e a natureza do mal. Exige um envolvimento ativo por parte do público e recompensa-o com uma reflexão estimulante sobre o lado sombrio da natureza humana.

Em muitos aspetos, «Lowlifes» faz lembrar filmes como «The Texas Chain Saw Massacre», que também subverteram os códigos tradicionais do terror ao apresentarem a família como o monstro. Mas, enquanto o clássico de Tobe Hooper recorria ao choque e ao horror visceral, «Lowlifes» adota uma abordagem mais matizada, mergulhando a fundo na psicologia das personagens.

A exploração da ambiguidade moral no filme merece especial destaque. Obriga-nos a enfrentar perguntas incómodas sobre quem devemos apoiar numa história como esta. Devemos simpatizar com Amy, que luta contra a sua cumplicidade nos crimes da família? Ou acabamos por nos sentir atraídos por Keith, apesar dos seus atos monstruosos?

É esta complexidade moral que distingue «Lowlifes» de outros filmes do género. Não é apenas um thriller: é um estudo de personagens, uma exploração da capacidade humana para o bem e para o mal. E, embora possa não ser perfeito, é um filme que merece ser visto e discutido.

No fim de contas, «Lowlifes» é um filme que permanece connosco muito depois de os créditos finais subirem. É uma exploração inquietante da moralidade e da cumplicidade, que deixa uma impressão duradoura graças às interpretações fortes e ao cenário carregado de atmosfera.

Elenco

Fotografias: The Movie Database (TMDB)

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