Críticas

Herói de Sangue recupera os soldados coloniais que o cinema francês apagou durante um século

Liv Altman

Portugal demorou décadas a olhar de frente para os seus próprios soldados coloniais — os angolanos, moçambicanos e guineenses que combateram nas guerras africanas sob a bandeira portuguesa. A França fez o mesmo com os seus Tirailleurs sénégalais, e fê-lo ainda mais tempo. Herói de Sangue (Tirailleurs no título original) é o primeiro grande filme narrativo francês a colocar um desses homens no centro da história — e a pergunta que coloca ao espectador europeu não se dirige apenas a Paris.

O senegalês Bakary Diallo (Omar Sy) alista-se voluntariamente no exército francês durante a Primeira Guerra Mundial — não por patriotismo, mas para estar ao lado do filho de 17 anos, Thierno (Alassane Diong), recrutado à força na sua aldeia. O argumento é simples, e o realizador Mathieu Vadepied não o complica desnecessariamente. O que o interessa é outra coisa: o que acontece a uma relação entre pai e filho quando a guerra os transforma a ambos, mas de formas distintas.

Omar Sy afasta-se aqui do registo que o tornou conhecido. Bakary é um homem de poucas palavras cuja autoridade se expressa no silêncio e na presença física. É uma performance de contenção — longos planos sem diálogo, sustentados pela postura e pelo olhar — e resulta porque Alassane Diong, no seu primeiro papel de relevo, lhe responde com igual precisão. A transformação de Thierno de adolescente assustado a algo mais duro escreve-se no corpo, não no texto.

A fotografia de Julien Roux constrói desde o início uma oposição visual que é também uma declaração política: a luz quente e terrosa do Senegal contra o escuro funcional das trincheiras. Vadepied recusa o espectáculo da guerra; interessa-lhe o rosto dos dois homens nesse contexto.

A secção central pode parecer lenta para quem espera a escalada dramática habitual do género. Mas essa lentidão é o argumento: a guerra não tem o ritmo que o cinema lhe emprestou. Tem o ritmo da espera, da exaustão e da mudança imperceptível que só se nota quando já aconteceu.

Herói de Sangue chega mais de cem anos depois dos eventos que retrata e ainda assim é cedo o suficiente para ser necessário. Ao lado de Indigènes de Rachid Bouchareb, forma uma peça incompleta de um puzzle que o cinema europeu ainda não terminou de montar.

Realização

Mathieu Vadepied
Photo via The Movie Database (TMDB)

Mathieu Vadepied

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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