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Lee Chang-dong quebra o seu mais longo silêncio com ‘Possible Love’: primeiro a sala, depois a Netflix

Camille Lefèvre

Há realizadores que fazem filmes, e há realizadores para quem um filme é um ajuste de contas que só chega quando tem de chegar. Lee Chang-dong pertence enfaticamente ao segundo tipo, e é por isso que a notícia de que terminou mais um soa menos como um anúncio de estreia e mais como uma mudança barométrica. Possible Love põe fim ao maior silêncio da sua carreira — um silêncio suficientemente longo para que uma geração de cinéfilos tenha crescido a conhecê-lo sobretudo através de Burning, a adaptação de combustão lenta que muitos ainda consideram a sua obra-prima.

Esse silêncio nunca foi ociosidade. Lee sempre trabalhou ao ritmo da convicção e não do comércio, lançando um filme apenas quando tem a certeza do que ele significa — para si, para o público e para o meio. A sua filmografia lê-se como um argumento moral conduzido por imagens: Peppermint Candy e Oasis no início, Secret Sunshine e Poetry depois, cada um construído sobre a duração, sobre a recusa de cortar de um rosto antes de este ter revelado a sua verdade. Possible Love chega como a próxima entrada nesse argumento, não uma interrupção.

O filme que fez é, à superfície, uma peça de câmara. Dois casais cujas vidas incompatíveis — um trabalhador descontraído e a sua esposa, uma realizadora de documentários e o seu marido — começam a intersectar-se até que o desejo se infiltra pelas fronteiras que cada um traçou. É território que Lee já explorou antes: o ordinário tornado insuportável pela atenção. E explora-o com rostos que carregam a sua própria história. Jeon Do-yeon, cuja mãe inconsolável em Secret Sunshine lhe valeu o prémio de melhor atriz em Cannes, regressa a ele; o mesmo faz Sul Kyung-gu, cujo trabalho em Peppermint Candy e Oasis ajudou a definir a visão inicial do realizador. Reuni-los é fechar um ciclo.

O que complica — e aguça — a história é a engrenagem que agora a transporta. Possible Love chega ao público como um filme da Netflix, e o seu financiamento foi, segundo relatos do setor, uma experiência de quase-morte: os apoiantes originais e o apoio público ao fundo cinematográfico desapareceram, o elenco terá reduzido os seus honorários para manter o orçamento vivo, e a plataforma de streaming surgiu como salvadora. Isso poderia ter significado uma queda silenciosa numa fila de catálogo. A decisão mais reveladora é a oposta. A plataforma está a dar ao filme uma exibição completa em salas de cinema, com elegibilidade para prémios, antes de o transmitir — uma ampla passagem por cinemas na Coreia, América do Norte, Reino Unido e Japão. Para um realizador cuja gramática é a duração e o plano longo, um ecrã que não se pode pausar não é uma cortesia. É a condição sob a qual a obra se torna legível.

O facto de o filme abrir em competição em Veneza, e depois passar por Toronto, só sublinha o ponto. Uma empresa que se contenta em tratar o cinema como uma biblioteca de conteúdos não persegue um Leão de Ouro; uma empresa que quer que o seu autor seja levado a sério, persegue. A vaga no festival é a Netflix a apostar que o nome de Lee ainda tem peso nas salas onde o cinema é julgado como arte e não como métricas — e, a julgar pelo seu historial, não é uma aposta imprudente.

O calendário de lançamento comprova a estratégia. Possible Love estreia primeiro nos cinemas coreanos a 23 de setembro, alarga-se aos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Japão a 23 de outubro, e chega à Netflix mundialmente a 6 de novembro. Dura 164 minutos — duas horas e quarenta e quatro, uma duração que o desafia a ficar imóvel.

A aposta é antiquada e precisa: que um filme paciente, com uma sala e um período de tempo, ainda consegue prender um espectador que tem todos os meios para desviar o olhar. Lee Chang-dong passou uma carreira a provar que consegue. Agora pede à empresa que mais lucra com a distração que o prove com ele.

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