Críticas

O Próprio Enterro brilha na sala do tribunal e falha a coragem onde mais contava

O drama judicial de Margaret Betts (2023) sustenta-se no duelo magnetizante entre Foxx e Jones.
Martha O'Hara
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Jeremiah O’Keefe (Tommy Lee Jones), um empresário de funerárias com o negócio em risco, aperta a mão de Willie E. Gary (Jamie Foxx), um advogado carismático e de língua afiada, num acordo que rapidamente se desmorona. Margaret Betts dirige esta adaptação solta de uma história real, transformando-a numa mistura de drama legal e sátira social, com toques de R&B dos anos 90.

O filme funciona melhor quando explora a dinâmica entre os dois protagonistas. Jones traz a sua habitual intensidade contida ao papel de O’Keefe, um homem que parece mais à vontade num funeral do que numa sala de audiências, perturbado pela ameaça que paira sobre o negócio da família. Foxx, por outro lado, domina as cenas com uma presença expansiva e a capacidade de passar do humor à seriedade num instante. As suas interações animam genuinamente o filme, especialmente quando discutem estratégias legais ou confrontam cara a cara a corrupção corporativa.

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No entanto, O Próprio Enterro não é imune a falhas. A estrutura narrativa é previsível, com momentos de tensão que chegam onde se espera, e um clímax que carece do impacto que o filme foi acumulando. As personagens secundárias, como Mame Downes (Jurnee Smollett-Bell) ou Mike Allred (Alan Ruck), são desenhadas a traços grossos, servindo principalmente para avançar a trama em vez de enriquecer o mundo do filme. A abordagem de Betts às questões raciais e de poder é importante, mas por vezes parece superficial, como se o filme hesitasse entre ser uma crítica social afiada ou um entretenimento leve.

A realização de Betts tem alguns momentos brilhantes, nomeadamente nas cenas em tribunal, onde a câmara capta a energia das declarações e os olhares trocados entre os advogados. A banda sonora, recheada com R&B dos anos 90, adiciona um tom nostálgico que funciona bem para a época retratada, criando um contraponto à frieza das salas de audiências, mas por vezes parece mais uma escolha de conveniência do que uma verdadeira declaração artística.

Inspirado num dos processos legais mais notórios da América, o filme coloca um peso adicional sobre os seus intérpretes, e eles sustentam-no. Jones constrói um homem que age por desespero tanto quanto por princípio; Foxx mantém Gary carismático sem o transformar num truque de palco. O filme oscila entre duas ambições — ser um retrato fiel dessa história e ser um espetáculo de sala acessível a toda a gente — sem nunca se comprometer inteiramente com nenhuma delas.

A representação de empreendedores negros a lutar pelo sonho americano contra estruturas corporativas hostis poderia ter sido o coração do argumento. Há uma convicção genuína nas cenas que mostram Gary a navegar um sistema construído para o excluir, e é aí que O Próprio Enterro ganha dentes. O problema surge quando Betts recua para o conforto do drama de tribunal convencional, usando esses temas como pano de fundo em vez de os pôr à prova. O potencial crítico está lá; o filme simplesmente não o aproveita até ao fim.

O que fica é um filme que se vê sem esforço, com humor suficiente para equilibrar o peso das questões em jogo, mas com a sensação persistente de que existia aqui uma história mais corajosa por contar. As falhas narrativas e a contenção temática não o afundam; apenas limitam o seu alcance. O Próprio Enterro fica-se pelo entretenimento bem feito quando tinha todos os ingredientes para ser algo mais.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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