Críticas

Eternals (Eternos) é o deslize mais belo da Marvel: Zhao sufocada por dez heróis

Realizado por Chloé Zhao em 2021, o primeiro filme do MCU a perder a crítica.
Martha O'Hara
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Em Eternals (Eternos, no título local), a ação arranca em 5000 a.C., quando dez seres superpoderosos são enviados à Terra por Arishem, um Celestial, para exterminar os Deviantes. A realizadora é Chloé Zhao, vencedora do Óscar por Nomadland, e o filme é o 26.º do Universo Cinematográfico Marvel (UCM). Gemma Chan, Richard Madden e Angelina Jolie lideram um elenco enorme. Muitos espectadores esperavam que uma cineasta independente, habituada a filmar a intimidade entre as pessoas e a paisagem, alterasse a fórmula da casa. O Hollywood Reporter lembra que seria pouco realista esperar que ela reinventasse por completo o filme de super-heróis, mas admite que o género se verga um pouco ao seu estilo. Um pouco, e não o suficiente.

A história avança até ao presente. Sersi (Gemma Chan) vive em Londres com Sprite (Lia McHugh) e namora o humano Dane Whitman, interpretado por Kit Harington. Quando um Deviante os ataca, Ikaris (Richard Madden) reaparece, e os três percorrem o mundo à procura dos antigos companheiros, para perceber porque voltaram as criaturas. É uma estrutura clássica de reunião de equipa, mas o filme tem de apresentar dez heróis em 2h37. O resultado parece um catálogo de personagens, mais do que uma trama que ganha balanço. Roger Ebert chega a uma conclusão semelhante: com um elenco tão vasto e tanto mundo para construir, o filme acaba por soar apressado e pouco satisfatório. A IGN é mais generosa e considera que, no geral, Zhao vence o desafio e dá uma boa noção do temperamento e das motivações de cada um dos dez, sem excesso de enredo. As duas leituras convivem: o filme apresenta bem, mas aprofunda pouco.

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O elenco, esse, está bem escolhido. Gemma Chan faz de Sersi o centro da história, e o The Guardian descreve-a como a mais empática do grupo. O mesmo jornal diz que Kumail Nanjiani é um exagero divertido (“hammy fun”) como Kingo, um imortal que se escondeu na Terra como membro de uma dinastia de atores de Bollywood e insiste em salvar o planeta acompanhado pelo seu criado. É o tipo de humor de que o filme precisava mais vezes. Angelina Jolie interpreta Thena, a guerreira mais exímia do grupo segundo o Guardian, e Salma Hayek Pinault é Ajak, a líder da equipa. O problema está na distribuição: a IGN nota que nem todos têm o mesmo tempo de ecrã, e a fatura chega quando o filme nos pede que nos preocupemos com os que ficaram na sombra.

É na realização que a tensão é mais visível. Zhao teve liberdade criativa para reescrever o argumento, tomou como referência os filmes de Terrence Malick e conseguiu usar mais locais de filmagem e luz natural do que os filmes anteriores da Marvel. A rodagem decorreu entre julho de 2019 e fevereiro de 2020, nos estúdios Pinewood e em locais de Inglaterra e das Ilhas Canárias, e parte desse cuidado nota-se no ecrã. O Hollywood Reporter observa que o filme parece mais vivo nos momentos tranquilos do que nos confrontos de imagem gerada por computador, que considera bastante rotineiros. O Guardian é mais severo: à parte alguns planos nostálgicos à hora dourada, pouco indica que a visão de Zhao tenha conseguido nadar contra as convenções do género. A IGN reconhece a beleza das grandes paisagens, mas admite que, num filme tão longo, os planos de natureza podem tornar-se um fardo. A cineasta dos gestos pequenos e a máquina de ação disputam o mesmo espaço do princípio ao fim, e quase sempre vence a máquina.

O argumento, assinado por Zhao com Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Kaz Firpo, tem ideias interessantes sobre a imortalidade e sobre a responsabilidade de quem vigia a humanidade sem poder interferir. Chegam, no entanto, aos bocados. O Hollywood Reporter fala de uma narrativa entrecortada, e o Guardian aponta flashbacks forçados e sentimento sintético. A IGN acerta num ponto subtil: cometem-se pecados graves ao longo da história e são depressa perdoados e esquecidos, o que tira peso ao conflito interno do grupo. Já o Screen Rant considera o romance entre Sersi e Ikaris genuinamente doce, embora apressado, com uma montagem que inclui um casamento e a primeira cena de sexo do universo Marvel a fazer quase todo o trabalho de apresentar o casal. É o coração emocional do filme, e ficou estabelecido em poucos minutos. A rapidez que o Screen Rant perdoa ao charme do par é a mesma que tira peso ao que vem depois.

Há ainda a questão da representação. A IGN classifica o elenco como o mais diverso da história dos Marvel Studios. Entre os nomes estão Lauren Ridloff, atriz surda, como Makkari, e Brian Tyree Henry como Phastos, que o Guardian descreve como o primeiro super-herói abertamente gay da Marvel. Essa escolha de elenco é um dado relevante da produção. O Guardian nota, porém, que todo o esforço posto na representação é prejudicado pela narrativa, com os seus flashbacks forçados. Ou seja, a diversidade chega ao ecrã pela escolha dos atores, mas não pela construção das personagens.

A música é de Ramin Djawadi. O filme arrecadou 402,1 milhões de dólares em todo o mundo e tornou-se o primeiro da saga a não receber críticas geralmente positivas, com a maioria das queixas dirigidas ao argumento e ao ritmo, e a sensação de que ficou aquém tanto do trabalho anterior de Zhao como dos filmes anteriores do UCM. Os temas e o aspeto visual, pelo contrário, mereceram alguns elogios.

O Hollywood Reporter resume o filme como uma variação com alma de um modelo conhecido, e a descrição serve. Quando Zhao pode olhar para os rostos, para uma paisagem ou para um silêncio, Eternals ganha vida própria. Quando tem de cumprir o protocolo, com a ameaça, a luta e as referências a Thanos e aos Vingadores, volta a ser mais um produto de linha de montagem. Vale a pena ver por Chan, por Nanjiani e pelos momentos em que Zhao consegue respirar, sabendo que o conjunto fica abaixo do talento reunido.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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