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Obsession: o desejo maldito do youtuber Curry Barker, de 750 mil a 500 milhões de dólares

Molly Se-kyung
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Curry Barker rodou a sua primeira longa-metragem para cinema em 26 dias, por um máximo de 750 mil dólares. Um ano depois da estreia em Toronto, Obsession: A Felicidade É Relativa soma cerca de 520 milhões de dólares em todo o mundo, a Focus Features tem o maior filme da sua história e o humorista de sketches do YouTube que o assina tem projetos de terror em grandes estúdios alinhados até 2027.

Obsession: A Felicidade É Relativa (Obsession, 2025), escrito, realizado e montado por Curry Barker, parte da mais pequena das apostas. Baron “Bear” Bailey (Michael Johnston) trabalha numa loja de música em dificuldades com os amigos Nikki Freeman (Inde Navarrette), Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah Harper (Megan Lawless), e nunca ganhou coragem para dizer a Nikki o que sente por ela. À procura de um presente, sai de uma loja de cristais não com o colar que lá foi buscar, mas com um One Wish Willow, um brinquedo de fantasia que supostamente concede um único desejo quando é partido. Nessa noite, depois de mais uma vez não conseguir dizer nada, parte-o e deseja que Nikki o ame mais do que a qualquer outra pessoa no mundo.

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O desejo funciona de imediato, e o filme trata do preço a pagar por ele. Nikki aparece à porta de Bear e, em poucos dias, o afeto que ele queria passa a vê-lo dormir, a selar a porta de entrada com fita-cola e a ficar imóvel no mesmo sítio o dia inteiro até ele chegar a casa. Quando Bear liga para a linha de apoio ao cliente do brinquedo na esperança de alterar as condições, quem atende, com a voz do próprio Barker, diz-lhe que o desejo não pode ser modificado e só expira quando ele morrer. A partir daí, a história avança para a violência, e este artigo fica à porta da segunda metade, onde se guarda a maior parte das surpresas.

De um canal de sketches no YouTube a uma guerra de licitações em Toronto

Curry Barker nasceu em Mobile, no Alabama, em 1999, e saiu de casa aos 18 anos para estudar representação no campus da New York Film Academy em Los Angeles. Logo na primeira semana conheceu Cooper Tomlinson, e os dois começaram a fazer vídeos juntos no YouTube como a dupla de sketches cómicos “that’s a bad idea”, que descreveram como a sua escola de cinema fora da escola de cinema. Ambos desistiram do curso, foram viver juntos e continuaram a publicar sketches e curtas-metragens enquanto Barker trabalhava no Starbucks. Em 2023 já conseguia pequenos trabalhos como ator, incluindo participações especiais em Dave e It’s Always Sunny in Philadelphia, e o canal ultrapassou entretanto 1,6 milhões de subscritores.

A viragem para o terror chegou através das curtas. Em 2023, Barker publicou The Chair, uma curta de terror que reuniu mais de dez milhões de visualizações e chamou a atenção do produtor James Harris, da Tea Shop Productions, que sugeriu transformá-la numa longa-metragem. Barker propôs antes outra coisa: um rascunho, uma sinopse de uma página e um lookbook de Obsession. Recebeu uma oferta para o realizar com um orçamento de 1 milhão de dólares e, por essa altura, recusou uma proposta de 2 milhões de dólares para reescrever o argumento de forma a que Bear se tornasse um herói. Enquanto esperava, fez Milk & Serial, uma longa-metragem de terror em found footage rodada por cerca de 800 dólares, que lançou no YouTube em agosto de 2024, depois de um ano sem conseguir distribuidora. O filme tornou-se viral e ajudou-o a assinar com uma grande agência de talentos.

Obsession nasceu como uma ideia sobre um casal obcecado um pelo outro. O desejo surgiu em julho de 2023, quando Barker, reunido com amigos para ver o seu próprio episódio de It’s Always Sunny in Philadelphia, apanhou uma reposição de “Treehouse of Horror II”, o episódio de 1991 de Os Simpsons em que Homer fica na posse de uma pata de macaco. O recurso é mais antigo do que a televisão e remonta ao conto “A Pata do Macaco”, de W. W. Jacobs, publicado em 1902, e Barker afirmou que o argumento é sobre a obsessão e não sobre o sobrenatural, com o desejo como forma de observar o modo como a fixação noutra pessoa se torna destrutiva. Escreveu-o ao longo de oito meses enquanto trabalhava num café, optou, depois de frequentar a MasterClass de argumento de Aaron Sorkin, por não desenvolver o passado de Nikki nem a mitologia do brinquedo, e desenhou o próprio One Wish Willow com a mãe, designer gráfica.

O casting de Nikki e de Bear

Inde Navarrette numa cena tensa do filme de terror Obsession
Michael Johnston e Inde Navarrette em Obsession: A Felicidade é Relativa (2026). Focus Features / Blumhouse.

Barker ponderou interpretar ele próprio Bear. Um primeiro teste de câmara da cena em que Bear formula o desejo foi filmado com Cooper Tomlinson, já escolhido para Ian, a fazer as vezes do protagonista. O filme foi financiado pela Capstone Studios depois de Harris ter passado o argumento ao fundador da empresa, Christian Mercuri, e foi Mercuri quem defendeu Inde Navarrette, que já participara em três projetos anteriores da Capstone, durante uma longa procura por uma atriz capaz de interpretar ao mesmo tempo uma jovem comum e uma presença assustadora. Barker escreveu Nikki como ameaça e vítima em simultâneo. Michael Johnston ficou com o papel de Bear depois de um teste de química com Navarrette, e o elenco secundário junta Megan Lawless como Sarah e o humorista Andy Richter como Carter, dono da loja de música e pai de Sarah.

Para Navarrette, foi o segundo filme depois de Wander Darkly (2020), após trabalhos televisivos em Por 13 Razões e Superman & Lois. Grande parte do comportamento físico de Nikki foi trabalhada entre a atriz e Barker, e os gritos, as expressões faciais e as mudanças de voz foram executados sem imagens geradas por computador nem inteligência artificial, com maquilhagem prática nas cenas em que Nikki espreita no escuro, em parte inspirada numa tendência de maquilhagem de “vale da estranheza” que se espalhou pelo TikTok em 2023. Barker pôs o elenco a ver Hereditário (2018), e Navarrette apontou Betty Gabriel em Foge, Toni Collette em Hereditário e Mia Goth em Pearl como as interpretações em que se inspirou.

Vinte e seis dias nos arredores de Los Angeles

Com tão pouco dinheiro, o planeamento era o orçamento. Barker e Taylor Clemons, responsável pela direção de fotografia, digitalizaram as localizações em 3D e reconstruíram-nas como modelos digitais para planear os planos com antecedência, reduzir a cobertura ao mínimo e resolver efeitos práticos na própria câmara, com o objetivo assumido de uma composição centrada e de um espaço extra acima das cabeças pensado para tornar as imagens desconfortáveis. A rodagem principal começou no final de outubro de 2024 e durou 26 dias no total, uma fase inicial de 20 dias mais as filmagens adicionais, a um ritmo de cinco a seis páginas de argumento por dia. A casa de Bear é uma moradia em Burbank remodelada por Vivian Gray, responsável pelo design de produção; a loja de música é a Cassell’s Music, em San Fernando, que fechou um ano depois do fim da rodagem; e as conversas dentro dos carros foram filmadas num estúdio com ecrãs LED.

As filmagens adicionais acrescentaram uma nova abertura e uma cena pensada, nas palavras de Barker, para mostrar porque é que Bear não quer resolver as coisas de imediato. Uma nova filmagem prevista da sequência da festa teve de ser abandonada porque a casa onde fora rodada ardeu nos incêndios florestais do sul da Califórnia, em janeiro de 2025. O final também mudou: Barker começou por escrever e filmar uma conclusão inspirada em Romeu e Julieta e depois, a conselho do pai, de Tomlinson e de outras pessoas, filmou um único take de uma alternativa, e é essa alternativa que está na versão exibida nas salas. Segundo o próprio, a produção inteira não custou mais de 750 mil dólares.

Barker montou ele próprio o filme no Adobe Premiere, gravando no telemóvel, no quarto, as falas da linha de apoio ao cliente do One Wish Willow e reescrevendo-as para se ajustarem à montagem. Depois da estreia no festival, uma das mortes foi encurtada no que ele descreveu como “seis ou sete pancadas”, para evitar a classificação NC-17. A banda sonora é o primeiro trabalho para longa-metragem de Rock Burwell, que conheceu Barker em 2024 através de uma canção humorística para o canal do YouTube e aponta a música de Angelo Badalamenti para Twin Peaks como influência determinante; um álbum de 18 faixas saiu em digital no dia da estreia norte-americana, e as edições em cassete, CD e vinil estão previstas pela Waxwork Records para o final de 2026.

Uma venda recorde e uma carreira nas bilheteiras que ninguém planeou

Obsession estreou na secção Midnight Madness do Toronto International Film Festival a 5 de setembro de 2025 e ficou em segundo lugar no People’s Choice Award dessa secção. Dois dias depois, a Focus Features entrou em negociações para o comprar por 14 a 15 milhões de dólares, o valor mais alto alguma vez pago por um filme de género na história do festival, ficando a Universal Pictures International com a maioria dos territórios fora dos Estados Unidos; A24, Neon e Netflix também estiveram entre os interessados. Jason Blum juntou-se como produtor executivo, através da sua chancela Blumhouse, depois da estreia, um dado só revelado em dezembro de 2025, com o primeiro teaser. Em outubro de 2025, o filme venceu o Prémio Especial do Júri da competição oficial fantástica do festival de Sitges, ex aequo com The Furious, além do prémio do público SOFC e do prémio jovem Carnet Jove.

A estreia nos Estados Unidos, a 15 de maio de 2026, foi modesta, com 17,2 milhões de dólares e um terceiro lugar atrás de Michael e de O Diabo Veste Prada 2. Depois, os números subiram em vez de descer. O segundo fim de semana rendeu 24 milhões de dólares, uma subida de 39% e o maior aumento num segundo fim de semana de que há registo para um filme em mais de 2500 salas fora da época natalícia. O terceiro trouxe 27,4 milhões de dólares, fazendo de Obsession a primeira estreia em grande circuito fora do Natal desde E.T. – O Extraterrestre (1982) a crescer durante três fins de semana consecutivos, e levando-o a ultrapassar Downton Abbey como a maior estreia doméstica da Focus Features. Ao quarto fim de semana era já o filme de maior bilheteira mundial do estúdio, e ao quinto superou O Projeto Blair Witch como a aquisição de festival com maior bilheteira de sempre.

Os marcos continuaram a suceder-se ao longo do verão. A 6 de julho ultrapassou O Dragão Ataca como o filme de maior bilheteira alguma vez feito com menos de 1 milhão de dólares, sem ajuste à inflação, e a 23 de agosto passou a barreira dos 500 milhões de dólares, o primeiro filme original em língua inglesa da década de 2020 a consegui-lo. Terminou com cerca de 263 milhões de dólares nos Estados Unidos e no Canadá e cerca de 520 milhões em todo o mundo, com os espectadores entre os 18 e os 34 anos a representar 75% dos compradores de bilhetes. The Mandalorian and Grogu, da Disney, que estreou no fim de semana seguinte, acabou com uma receita total inferior, e, a par de Backrooms, a longa-metragem da A24 do criador de YouTube Kane Parsons, Obsession abriu um debate mais amplo sobre o apetite do público por histórias originais e sobre uma linhagem de realizadores vindos do YouTube para Hollywood que já incluía David F. Sandberg.

Prémios, um processo e o próximo desejo

Os prémios seguiram o dinheiro. Nos Critics’ Choice Super Awards, em agosto de 2026, Obsession venceu na categoria de Melhor Filme de Terror e Navarrette na de Melhor Atriz num Filme de Terror, e a 25 de outubro os Fangoria Chainsaw Awards atribuíram-lhe cinco prémios, entre os quais Melhor Estreia em Grande Circuito, Melhor Realização e Melhor Argumento para Barker e Melhor Interpretação Principal para Navarrette. O filme está também nomeado para o Prémio do Público dos Gotham Independent Film Awards, que serão entregues a 30 de novembro. O êxito teve um lado menos confortável. Em junho de 2026, a diretora de arte Sally Choi afirmou publicamente que lhe pagavam 300 dólares por dia numa produção sem acordo sindical, enquanto acumulava funções de assistente de produção, decoradora de cena, designer gráfica e figurante, e que alguns membros da equipa eram voluntários pagos com dinheiro para combustível e quilometragem. Em setembro, a produtora executiva Leonora Ann Darby processou James Harris e Mark Lane, da Tea Shop Productions, alegando não ter recebido os lucros que lhe tinham sido prometidos.

Entretanto, Nikki tornou-se uma atração sazonal: este outono surgiu nas Halloween Horror Nights da Universal e no evento de Halloween do Fortnite, o que alguns espectadores e jornalistas consideraram uma forma de banalizar aquilo por que a personagem passa no filme. A agenda do próprio Barker está cheia. A sua próxima longa-metragem, Anything but Ghosts, produzida, entre outras, pela Blumhouse-Atomic Monster e pela Spooky Pictures, tem estreia prevista pela Focus Features para 7 de maio de 2027 e faz referência aos acontecimentos de Obsession através de uma reportagem noticiosa. Foi ainda anunciado como argumentista e realizador de um novo Massacre no Texas para a A24 e de um filme de terror original para a Universal, integrou a lista TIME100 Next em setembro e disse estar a ponderar uma sequela ou uma série antológica em que cada episódio acompanhe uma pessoa diferente a formular um desejo.

O que o registo documentado mostra é um mecanismo conhecido, a pata de macaco que Jacobs passou ao papel há mais de um século, reconstruído por um realizador estreante em salas de cinema, sem dinheiro, com um elenco maioritariamente jovem e um amigo da escola de cinema, e chegado num período do terror original de estúdio moldado por Barbarian e Weapons, de Zach Cregger. Se Obsession será lembrado pelo seu desejo ou pelos seus números é uma questão para mais tarde. Para já, é a prova mais clara até hoje de que um canal de YouTube pode ser uma escola de cinema e de que uma ideia de 750 mil dólares, vendida no festival certo, ainda consegue ultrapassar um franchise.

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Curry Barker
Photo via The Movie Database (TMDB)

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