Críticas

Raw é um body horror de estreia que se atreve a ter fome a sério

Julia Ducournau, 2017: praxe, desejo e transformação numa escola de veterinária.
Martha O'Hara
Adicione-nos no Google

Justine é vegetariana convicta e chega à escola de veterinária para uma primeira semana que imagina banal. Encontra um meio decadente, implacável e perigosamente sedutor. Desesperada por se integrar, abandona os seus princípios e come carne crua pela primeira vez. As consequências são terríveis e inesperadas, e é aí que “Raw”, de Julia Ducournau, deixa de ser a história de uma caloura e passa a ser outra coisa, bem mais perturbadora.

O filme abre com um carro numa estrada, não com sangue. Só mais tarde chega a carne, e chega na cantina da escola, no meio da praxe. O primeiro contacto de Justine (Garance Marillier) com ela nasce menos da curiosidade do que da vontade de não ficar de fora. Esse detalhe é a chave de tudo. Ducournau percebe que a pressão do grupo é um horror perfeitamente reconhecível antes de ser um horror de género, e constrói o filme a partir daí.

YouTube video

A realizadora usa o corpo como metáfora da passagem da adolescência à idade adulta, e fá-lo sem recorrer a sustos baratos. Identidade, sexualidade e violência surgem entrelaçadas, como se fossem a mesma pergunta feita de três maneiras: quem sou eu quando deixo de obedecer? O choque existe, claro, mas está ao serviço desse tema e não o contrário. Por isso as cenas mais duras têm peso: não servem para chocar, servem para dizer algo sobre Justine.

Marillier consegue transmitir a confusão e o desespero da personagem com uma honestidade rara. Começa discreta, quase a pedir desculpa por ocupar espaço, e vai-se tornando mais inquietante sem nunca deixar de ser frágil. A sua interpretação é crua no sentido literal e no figurado, e profundamente humana. É ela que impede o filme de se tornar um mero exercício de provocação.

É também no confronto com Alexia (Ella Rumpf), a irmã mais velha, que o filme encontra a sua tensão mais interessante. Alexia é guia, ameaça e espelho ao mesmo tempo, e Rumpf joga com essa ambiguidade sem a sublinhar. Rabah Nait Oufella, no papel de Adrien, colega de faculdade, acrescenta outro ponto de contacto de Justine com a vida social da escola e outra camada de desejo e de risco. Laurent Lucas e Joana Preiss, como os pais, e Bouli Lanners, como o camionista, completam um elenco que sabe estar ao serviço da história.

Nem tudo funciona. A primeira metade é mais lenta, centrada na vida da escola e nas interações sociais de Justine; a segunda acelera de forma brusca, com uma série de acontecimentos chocantes que se sucedem a grande velocidade. A mudança de ritmo pode desorientar. E algumas escolhas de Ducournau parecerão excessivas ou gratuitas a quem não tem o hábito do horror corporal.

O género, aqui, não é um molde, é uma conversa. “Raw” junta o horror e o drama sem pedir licença a nenhum dos dois, com um pé no realismo da vida estudantil e outro num território onde o corpo deixa de obedecer. Não é um filme de terror tradicional nem um drama adolescente comum, e talvez seja por isso que incomoda tanto: não oferece ao espectador um sítio confortável onde ficar.

O filme foi exibido em Cannes, em 2016, na Semana da Crítica, e valeu a Ducournau o prémio da crítica internacional. Justine, ao contrário do que seria habitual, nunca é apenas vítima das circunstâncias: as suas ações nascem do seu próprio desejo, mesmo quando esse desejo a assusta. É uma escolha de argumento que dá ao filme complexidade moral e que o afasta de muito do horror que o rodeia.

Há quem ache as cenas de horror corporal demasiado gráficas, e a objeção é legítima. Mas quem aceitar o desconforto sai de “Raw” com a sensação de ter visto uma cineasta a trabalhar com plena consciência do que quer provocar, e de ter acompanhado uma personagem cuja transformação custa a esquecer.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Etiquetas: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.