Críticas

The Midwife: Um testemunho doloroso da vida em plena barbárie do Holocausto

Liv Altman
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A cena de abertura de The Midwife (2020), de Maria Stachurska, é uma imagem crua e implacável: as mãos ensanguentadas e trémulas de uma mulher acolhem um recém-nascido no meio da imundície de Auschwitz-Birkenau. É Stanislawa Leszczynska, uma parteira cuja história é tão dolorosa quanto inspiradora. O filme, um documentário, não desvia o olhar da brutalidade do cenário e assenta a narrativa na sombria realidade do Holocausto, através do parto — um acto paradoxal de vida em plena morte.

A realização de Stachurska é comedida e opta por um tom sombrio, quase reverencial. Evita o sensacionalismo e deixa que o horror fale por si. O desenho de som é particularmente eficaz: os choros abafados dos recém-nascidos irrompem por entre os ecos distantes do sofrimento e criam um contraste inquietante. O ponto forte do filme está no retrato sem concessões dos horrores do Holocausto, usando a história de Leszczynska como ponto de partida para explorar temas como a resiliência, a fé e a força indomável do espírito humano.

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As narrações de Danuta Stenka e Hanna Polk são comedidas e dão gravidade ao relato sem resvalar para o dramatismo excessivo. A interpretação é precisa e evita os riscos do melodrama, que poderiam facilmente comprometer um tema tão pesado. Ainda assim, a dependência da narração, por vezes, diminui o impacto emocional das imagens. Embora seja necessária para garantir o rigor histórico, há momentos em que o filme se assemelha mais a uma aula do que a uma experiência cinematográfica.

Um dos aspectos mais cativantes do filme é a forma como aborda a fé. A crença inabalável de Leszczynska na sua missão, mesmo perante a morte, é um tema central. O filme sugere que era dessa fé que vinha a sua força, uma ideia poderosa e profundamente comovente. Esta dimensão espiritual poderá, contudo, não tocar todos os espectadores, sobretudo os que preferem uma abordagem mais secular às narrativas históricas.

Os valores de produção são sólidos, mas pouco notáveis. A fotografia é funcional e serve a narrativa sem se destacar. O desenho de som, como já foi referido, é um dos elementos mais fortes do filme e cria com eficácia uma atmosfera de tensão e desespero. No entanto, a falta de inovação visual faz com que o filme não deixe uma impressão duradoura do ponto de vista estético.

O ritmo é uma das fragilidades mais evidentes do filme. Embora o tema seja indiscutivelmente cativante, a narrativa parece muitas vezes estática e não tem o dinamismo que a tornaria mais envolvente. A ausência de imagens de arquivo ou de reconstituições limita a sensação de imediatismo e torna o relato algo distante. Isso é particularmente evidente na segunda metade do filme, quando os factos históricos começam a sobrepor-se ao seu núcleo emocional.

Os pontos fortes do filme estão no retrato sem concessões do Holocausto e na exploração da fé e do espírito humano. A obra presta homenagem à coragem e à resiliência extraordinárias de Stanislawa Leszczynska, mas tem dificuldade em ultrapassar a sua intenção pedagógica. A dependência da narração pode fazê-la parecer mais uma aula do que uma experiência cinematográfica.

É possível estabelecer comparações entre The Midwife e outros filmes que abordam o Holocausto, como Son of Saul (2015) ou The Pianist (2002). Embora estes filmes se centrem frequentemente na sobrevivência e na luta pela dignidade em condições desumanas, The Midwife distingue-se por pôr no centro o acto de criação — o parto — em plena destruição. Esta perspectiva singular oferece um novo olhar sobre o Holocausto e destaca a resiliência da vida, mesmo nos tempos mais sombrios.

Este enfoque no parto levanta, porém, questões sobre a estrutura narrativa do filme. Apesar de o tema ser indiscutivelmente cativante, o ritmo pode parecer irregular. A primeira metade é dedicada a apresentar o passado de Leszczynska e o contexto histórico da sua detenção e prisão. Esta parte é informativa, mas pode arrastar-se, sobretudo para os espectadores que já conhecem a história mais ampla do Holocausto.

Na segunda metade, o filme centra-se nas experiências de Leszczynska em Auschwitz-Birkenau, onde trabalhou como parteira em condições atrozes. Esta parte é mais envolvente, pois aprofunda os pormenores do seu trabalho e os desafios que enfrentou. Ainda assim, a dependência da narração pode fazer com que o filme se assemelhe mais a um relato histórico do que a uma experiência cinematográfica.

Os valores de produção são sólidos, mas pouco notáveis. A fotografia é funcional e serve a narrativa sem se destacar. O desenho de som, como já foi referido, é um dos elementos mais fortes do filme e cria com eficácia uma atmosfera de tensão e desespero. No entanto, a falta de inovação visual faz com que o filme não deixe uma impressão duradoura do ponto de vista estético.

Quanto ao público a que poderá interessar, The Midwife deverá encontrar eco junto de espectadores com interesse em documentários históricos, em particular nos que se debruçam sobre o Holocausto. Oferece uma perspectiva singular sobre um tema já muito explorado e constitui, por isso, um contributo valioso para o género. O ritmo mais lento e a dependência da narração poderão, contudo, afastar espectadores ocasionais à procura de uma experiência cinematográfica mais dinâmica.

Em última análise, The Midwife é um documentário comovente, mas irregular. Presta homenagem à coragem e à resiliência extraordinárias de Stanislawa Leszczynska, mas tem dificuldade em ultrapassar a sua intenção pedagógica.

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