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‘Wild Sing’ na Netflix: o regresso de um trio que o tempo desfez

Jun Satō

Três pessoas que outrora se moviam como um só corpo colocam-se em extremos opostos de uma sala de ensaios e tentam recordar a contagem. O Triangle foi um trio misto concebido para o início dos anos 2000 e desmontado por essa mesma década. Vinte anos depois, aceitam repetir a velha coreografia, e a primeira coisa que o filme repara é que os passos recordam aquilo que os corpos esqueceram.

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Essa distância entre o que um grupo foi e o que três vidas de meia-idade ainda conseguem fazer sob um foco é o motor do filme. Son Jae-gon não filma o regresso como vitória, mas como uma medição do tempo. Interessa-lhe menos se o Triangle o consegue do que aquilo que a tentativa revela.

Gang Dong-won encabeça o elenco como Hwang Hyun-woo, e a escolha é, por si só, um argumento. Um ator associado à contenção e a certa gravidade de autor canta aqui, dança e expõe-se abertamente ao público, uma mudança de registo que o filme trata como risco e não como truque. Um Tae-goo e Park Ji-hyun completam o trio, e os três conquistam os números à maneira lenta: cerca de cinco meses de treino para que as coreografias fossem executadas diante da câmara e não montadas depois.

É no ofício que o filme defende de facto a sua tese. O guarda-roupa conta duas décadas no tecido e no corte; a banda sonora carrega a informação emocional que o diálogo se recusa a dizer. Son coloca os números musicais como as cenas que sustentam o peso, e quando a superfície é assim tão pensada, a superfície torna-se substância.

Sob a comédia há um assunto local e preciso. O grupo misto de ídolos é um objeto da economia pop do início dos anos 2000, e a sua quase total extinção comercial é um pequeno luto nacional que o filme transforma em comédia sem negar a perda. É um filme sobre envelhecer dentro de uma indústria pensada em torno da juventude.

Para quem chega sem referências: o Triangle não é um grupo real e o filme não é baseado em factos verídicos, mas foi construído com material verdadeiro. Em redor do trio, Oh Jung-se e Shin Ha-kyun ocupam as margens cómicas, a mecânica de agentes e aproveitadores que mantém de pé qualquer carreira acabada.

O filme pertence a uma linhagem coreana reconhecível: o calor do reencontro de Sunny, a nostalgia pop de C’est si bon, a dança como desafio de Swing Kids. O que o distingue é uma recusa: não deixa o número final resolver tudo o que levantou. O palco devolve o aplauso, não os vinte anos.

É a pergunta que Son deixa aberta de propósito: um palco pode devolver a ovação, nunca o tempo. A última atuação comove e mesmo assim não cura aquilo que celebra, porque o que celebra são as duas décadas que tiveram de passar antes de alguém voltar a aplaudir.

Wild Sing estreou nas salas coreanas a 3 de junho de 2026 pela Lotte Entertainment e reuniu cerca de 1,3 milhões de espectadores antes da janela de streaming. Produzido pela About Film e com 107 minutos no coreano original, chega à Netflix em todo o mundo a 30 de julho de 2026 — o palco maior que os seus três protagonistas perseguem durante todo o filme.

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