Desporto

Mundial 2026: as equipas nas eliminatórias, ordenadas pelo sistema que sobrevive quando o jogo aperta

Kenji Nakamura

A fase de grupos foi uma apresentação. As eliminatórias são outro exame, e fazem uma pergunta mais estreita: quando dois bons adversários se defrontam durante noventa minutos sem empate possível, que ideia coletiva é capaz de resistir à pressão? O espaço encolhe, a bola abranda, e o jogador que desmontou três adversários numa terça-feira vai encontrar quatro à espera no domingo. O que sobrevive a essa compressão não é o plantel mais fundo nem a lista mais longa de nomes. É a ideia mais clara — uma estrutura que a equipa consegue repetir quando a inspiração está marcada.

Este não é um ranking de poder. É um ranking de resistência tática: cujo sistema se mantém quando um encontro aperta, como cada seleção lida com um bloco baixo, e se uma equipa consegue controlar um jogo em vez de simplesmente vencê-lo. Ordenar os favoritos por esse critério produz uma tabela diferente daquela que o talento puro desenharia.

1. Espanha. Nenhuma equipa em campo possui uma ideia mais repetível. A seleção de Luis de la Fuente constrói através de estrutura posicional — corredores fixos, uma defesa posicionada em bloco, a bola circulada até ao passe surgir em vez de ser forçado. Lamine Yamal e a largura esticam a linha defensiva adversária, que o meio-campo depois atravessa. A única falha é a que as eliminatórias mais penalizam: contra um bloco baixo sem espaço nas costas, Espanha pode passar sem penetrar, como uma tarde sem golos frente a Cabo Verde demonstrou. Mas uma equipa que controla a bola controla o ritmo do encontro, e é essa a posse mais segura numa eliminatória.

2. França. A imagem simétrica, quase igualmente convincente. Didier Deschamps nunca precisou da bola, e numa eliminatória isso é uma qualidade, não uma limitação. A França senta, absorve e depois ataca o espaço mais depressa do que qualquer outra seleção — Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé transformam uma perda de bola num golo antes de a defesa se reorganizar. É o perfil de eliminatória mais puro que existe: uma equipa que pode perder a posse e vencer o jogo. O risco é o inverso do espanhol — contra um adversário que recusa abrir-se, a França tem de criar em vez de contra-atacar, e essa é a versão mais difícil do seu jogo.

3. Argentina. Os atuais campeões carregam a qualidade mais subestimada neste tipo de futebol: o controlo sem que a bola seja o elemento central. A seleção de Lionel Scaloni não sofreu qualquer golo na fase de grupos, e a estrutura em torno de Lionel Messi — que igualou o recorde de Klose em golos em Campeonatos do Mundo — foi construída de modo a que as pernas do capitão sejam um luxo, não uma parede portante. A Argentina gere o ritmo de um encontro — quando pressionar, quando recuar, quando matar vinte minutos — melhor do que qualquer outra seleção aqui presente. É um hábito de campeão, e é exatamente o que as eliminatórias testam.

4. Alemanha. O teto mais alto do torneio e o chão mais exposto. O ataque de Julian Nagelsmann marcou nove golos em dois jogos sem mudar de velocidade, mas a linha defensiva sem Nico Schlotterbeck — lesionado — é uma estrutura com uma fissura: cortada com rapidez quando a pressão é batida. Numa fase de grupos, resolve-se a problema marcando mais; numa eliminatória, uma transição é um encontro. A Alemanha é perigosa para todos e segura contra ninguém.

5. Países Baixos. O bloco de três de Ronald Koeman é a razão silenciosa para levar os neerlandeses a sério. Com Virgil van Dijk a ancorá-lo, a estrutura dá a Cody Gakpo e aos homens de corredor licença para subir sem deixar o centro a descoberto — uma base defensiva que se transporta para as eliminatórias mesmo quando o nível coletivo oscila, como acontece com esta seleção. O primeiro obstáculo é precisamente o que favorece o sistema: Marrocos, um encontro entre duas equipas que preferem defender o espaço a perseguir a bola.

6. Marrocos. O caso de escola. Nenhum plantel neste torneio foi construído de forma mais deliberada para o futebol de eliminatória: um bloco médio compacto, linhas disciplinadas, e um ataque que vive do momento em que o adversário se compromete em excesso. A corrida até às meias-finais no último Mundial não foi sorte — foi uma estrutura que obriga as seleções de elite a jogar mal. A limitação é real: Marrocos pode ter dificuldade em desmontar o que é desmontado contra si próprio. Mas como máquina de eliminatória, a ideia é das mais resistentes do quadro competitivo.

7. Brasil. Carlo Ancelotti escolheu profundidade em vez de doutrina, e está a resultar sem ainda convencer. Vinícius Júnior, Matheus Cunha e uma espinha dorsal experiente — com Casemiro no centro — dão ao Brasil mais formas de vencer um jogo do que quase qualquer outra seleção; o que ainda não têm é uma ideia única e definida que resista quando o talento está contido. A equipa tem parecido capaz de vencer a primeira parte e depois aguardar. O Japão, o próximo adversário nas eliminatórias, é precisamente o tipo de seleção construída para penalizar uma equipa que para de jogar.

8. Portugal. Roberto Martínez tem uma seleção de transição e bola parada com velocidade genuína no terço final — Rafael Leão e um Cristiano Ronaldo renovado entre os finalizadores, com dois golos na fase de grupos. Mas o historial estrutural é a preocupação: Portugal tem sido, de forma recorrente, uma equipa cuja organização se fragiliza quando um encontro vira contra si, quando é forçada a perseguir em vez de contra-atacar. A ideia é eficaz a avançar e frágil a defender — uma combinação perigosa para levar para uma eliminatória. No papel, a seleção das quinas tem capacidade para surpreender; na prática, essa pergunta ainda está por responder.

9. Inglaterra. A coleção mais rica de futebolistas com menor clareza sobre o que fazer com eles. A seleção de Thomas Tuchel domina a bola — setenta por cento face a uma defesa organizada — e depois não encontra o passe decisivo. É exatamente o problema que as eliminatórias expõem: os adversários vão sentar, a Inglaterra vai passar para o lado, e um encontro equilibrado vai pedir uma ideia que a estrutura ainda não produziu. A posse não é o mesmo que o controlo, e é nessa diferença que a seleção inglesa continua a ficar presa.

10. Japão. O perturbador, e o nome mais desconfortável nesta lista para qualquer favorito encontrar. O Japão pressiona em vagas coordenadas, roda posições até um marcador perder o seu homem, e transforma transições em ocasiões de golo contra seleções que esperam dominar. Numa fase de grupos torna-os difíceis; numa única noite torna-os um gigante. Não vão controlar um torneio inteiro. Podem perfeitamente acabar com o de alguém.

As eliminatórias serão, como sempre, decididas por momentos — uma deflexão, uma defesa, um jogador que recusa o guião. Mas os momentos favorecem os preparados, e a preparação neste futebol tem um nome: uma estrutura em que se pode confiar quando tudo o resto aperta. As equipas no topo desta lista não são as de maior talento. São as que ainda vão saber o que estão a fazer quando o jogo deixar de ser fácil.

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