Série

Projeto Final na Netflix: a aluna perseguida filma quem a filma

Camille Lefèvre

Uma aluna chega a uma escola nova com o desejo mais simples que uma adolescente pode ter: ser ninguém em particular durante um tempo, recomeçar onde ninguém guarda um processo sobre ela. O desejo não dura uma semana. O processo escreve-se à mesma, nos telemóveis dos outros e numa conta que ninguém assume, e revela-se mais cruel do que aquilo de que ela fugia.

YouTube video

Projeto Final é um thriller adolescente mexicano assente numa ironia precisa, a do próprio título. O trabalho que dá nome à série é um documentário de fim de ano. Tamara, a recém-chegada interpretada por Isabella Tena, escolhe o ciberbullying como tema. E filma-o enquanto uma conta anónima e um desafio online perigoso, criado por alguém da sua turma, a tornam o estudo de caso. A câmara que ergue contra os agressores é o mesmo aparelho que primeiro a transformou em conteúdo.

Parece realismo, mas avança como suspense. Uma conta que sabe o que não devia, um segredo que reorganiza a trama sempre que surge, uma noite a que a história regressa sem a nomear. A questão não é tanto quem foi, mas quem decide o que aquelas imagens poderão significar. À volta de Tamara, Tristán Maze e Daniela Martínez erguem uma turma que funciona como a internet: não uma horda, mas um consenso que se forma em silêncio, um reenvio a seguir ao outro.

É a forma que sustenta o argumento. Projeto Final é uma microssérie de episódios de cerca de dez minutos, mais perto do scroll vertical em que as personagens vivem do que do drama de uma hora. A brevidade não é um álibi de orçamento: é a tese. Uma história sobre clips que viajam mais depressa do que qualquer contexto conta-se em clips. Cada episódio corta como uma notificação, a meio da frase, e deixa quem vê no mesmo presente sem ar que o desafio impõe a Tamara.

Sob o suspense há um incómodo sobre a relação entre quem olha e o que olha. O pânico com os desafios virais e a divulgação de imagens de menores é real, e o fácil seria contá-lo como um aviso com moral. Projeto Final põe a câmara moralizadora nas mãos de quem costuma ser o alvo e deixa-a fazer a pergunta difícil: ser vista e ser protegida têm alguma relação dentro de uma instituição que só reage quando já há uma tragédia para investigar?

Projeto Final estreia a 29 de julho na Netflix. É uma produção mexicana de formato curto encabeçada por Isabella Tena, com Tristán Maze — cantor e ator de Saltillo que se estreia na Netflix depois da telenovela Hermanas — e Daniela Martínez. Chega como uma das apostas de microssérie da plataforma: episódios de dez minutos para uma história que sempre iria ser vista no telemóvel.

Etiquetas: , , , , ,

Discussão

Existem 0 comentários.