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Hulk Hogan: Real American na Netflix — a confissão que a WWE ainda controla

Jack T. Taylor

Bryan Storkel ainda filmava quando Terry Bollea morreu, em julho de 2025, de paragem cardíaca. Mais de vinte horas de entrevistas gravadas com um homem que aceitara participar sem restrições, que afirmara diante da câmara saber «onde estão enterrados todos os cadáveres» — e que ficou sem tempo para o provar. O documentário que resulta desse material não é o que Storkel tencionava realizar: é algo mais ambíguo, o registo de um homem a tentar sobreviver à personagem que o consumira, produzido em parte pela instituição cujo interesse económico depende precisamente da sobrevivência dessa personagem.

Esta tensão — entre um realizador com um perfil investigativo e um crédito de coprodução da WWE no mesmo projecto — constitui o argumento estruturante de Hulk Hogan: Real American, quer o documentário o reconheça ou não. Bryan Storkel é o autor de Bitconned, uma investigação sobre fraude financeira. A sua escolha como realizador sinaliza uma intenção precisa. O crédito de produtor executivo atribuído a Paul Levesque — Triple H — em nome da WWE sinaliza outra coisa. Ambas as realidades coexistem nos mesmos títulos de crédito, e a contradição entre elas é visível em cada decisão de montagem do quarto e moralmente mais pesado dos quatro episódios.

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A estrutura como argumento

A construção cronológica em quatro episódios funciona como uma reviravolta em câmara lenta. Os três primeiros reconstroem a mitologia: o circuito territorial na Florida e no Minnesota, a conquista do título frente a Iron Sheik que desencadeou a Hulkamania, as cinco WrestleMania protagonizadas, a reconversão em Hollywood Hogan na era nWo da WCW. Três horas dedicadas a construir o investimento emocional do espectador, a reproduzir a experiência de ter sido adepto do wrestling nos anos de glória. O quarto episódio executa a auditoria. Este sequenciamento não é neutro: replica a lógica do próprio wrestling, em que o público é preparado antes do heel turn.

O último episódio carrega um peso moral que os três anteriores reunidos não carregam. Nele figura a gravação áudio publicada pelo National Enquirer em julho de 2015, na qual Bollea usa insultos racistas — o que levou a WWE a rescindir imediatamente o seu contrato e a excluí-lo do Hall of Fame, para o reintegrar três anos depois. Figura o veredicto de 140 milhões de dólares no caso Bollea v. Gawker, posteriormente transaccionado em 31 milhões, que a Forbes revelou em 2016 ter sido secretamente financiado por Peter Thiel no âmbito de um mecanismo de financiamento de litígio por terceiros — um modelo jurídico que se tornou desde então um manual para indivíduos abastados que pretendem processar judicialmente a imprensa crítica. Figura ainda a aparição de Bollea na Convenção Nacional Republicana de julho de 2024, em horário nobre, onde executou a versão mais explicitamente política da sua personagem de Real American perante o país inteiro.

A instituição na sala de montagem

A presença da WWE enquanto coprodutora constitui uma condicionante estrutural sobre cada decisão editorial deste último episódio. A gravação racista é transmitida na íntegra ou apenas evocada? Peter Thiel aparece como entrevistado? Lutadores negros que testemunharam publicamente sobre o papel de Bollea como filtro institucional das decisões de McMahon estão presentes na montagem? A lista de participantes confirmados — Bret Hart, Kevin Nash, Jimmy Hart, Christopher Lloyd, Linda Hogan, Peter e Ruth Bollea — delimita um perímetro composto essencialmente por pessoas próximas de Bollea ou a ele ligadas profissionalmente. A WWE, que geriu a sua queda em 2015 e a sua reabilitação em 2018, é agora coprodutora da narrativa de ambos os acontecimentos. Trata-se de um circuito fechado.

A promessa de marketing da Netflix — «a sua última entrevista, sem filtros» — assenta na distinção técnica entre kayfabe e shoot. No wrestling profissional, o kayfabe é a convenção pela qual a ficção é colectivamente tratada como real; o shoot é o seu contrário, o momento em que o intérprete abandona a personagem e fala como ele próprio. Contudo, o momento mais revelador do material disponível desmente essa promessa na sua própria formulação. No trailer, Bollea diz: «há gente que me odeia, mas acho que as pessoas querem saber a verdade. Quem era este tipo, realmente?» Fala de si próprio na terceira pessoa. Não «quem sou eu» — «quem era este tipo». A personagem a interrogar o homem. Um kayfabe tão total que produz a sua própria confusão epistemológica sobre a existência de alguém por baixo.

Se Terry Bollea foi alguma vez separável de Hulk Hogan depois de 1984 — ou se a personagem absorvera o homem muito antes de o corpo ceder — é a pergunta que quatro horas de televisão não fecham. Storkel continuava a filmar quando Bollea morreu. A pergunta de seguimento que teria resolvido tudo nunca chegou a ser formulada. Esse vazio, onde quer que apareça na montagem final, é o momento mais honesto do documentário.

Hulk Hogan: Real American está disponível na Netflix desde 22 de abril de 2026, em quatro episódios com uma duração total de aproximadamente quatro horas. Realização: Bryan Storkel. Entre os participantes contam-se Terry Bollea (última aparição filmada), Linda Hogan, Peter e Ruth Bollea, Bret Hart, Jimmy Hart, Kevin Nash e Christopher Lloyd. Coprodução: Words + Pictures e WWE.

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