Análise

Cardi B partilhou a formatura de Wave com milhões. A criança não escolheu

Molly Se-kyung

Wave Cephus atravessou um palco com beca azul e dourada, recebeu um prémio de turma e tornou-se o centro de um debate que se recusa a terminar. A sua mãe, Cardi B, partilhou o momento com as suas dezenas de milhões de seguidores. O menino tem quatro anos. O debate sobre se ela deveria tê-lo feito existe há anos. A França respondeu com uma lei. Os Estados Unidos, não.

A cerimónia de final de pré-escolar tornou-se um pequeno ritual americano — becas para cabeças que têm apenas quatro anos de vida, diplomas que certificam algo a meio caminho entre um marco e uma oportunidade de conteúdo. É, por qualquer medida, um momento familiar. As fotografias, o jantar de celebração no restaurante, o orgulho — nada disso é novo, nem suspeito. O que é novo é o público.

Quando Cardi B publicou fotos e vídeos da cerimónia de Wave no Instagram, estava a fazer o que dezenas de milhões de pais fazem todos os anos. A diferença é a aritmética. Um pai comum partilha uma fotografia de formatura com a família alargada. Uma celebridade com dezenas de milhões de seguidores partilha-a com o equivalente a um país de dimensão média. A maioria desse público não sabe o apelido de Wave. Alguns comentarão o seu aspeto. Alguns guardarão a imagem. O menino da beca azul e dourada ainda não aprendeu a ler o que escrevem sobre ele.

É aqui que o debate sobre o sharenting se encrava e recusa resolver-se. A partilha de fotografias de filhos, a documentação de marcos, a narração visual de uma vida que ainda não tem ferramentas para se contar — nada disso é novo. O que investigadores, juristas e um número crescente de pais estão agora a perguntar é se a escala altera a ética do acto.

Uma revisão de 252 publicações académicas sobre sharenting, publicada na Frontiers in Psychology em junho de 2026 por Osman Akay, da Universidade Medipol de Istambul, encontrou algo que deveria suspender o argumento: apenas 7,8% da investigação realizada sobre o tema incorpora a perspectiva das próprias crianças. Mais de metade — 58,8% — baseia-se exclusivamente no ponto de vista dos pais. O campo passou três décadas a estudar a prática de cima para baixo. As pessoas mais afectadas por ela foram, em termos de investigação, amplamente ausentes da conversa.

A França tomou este argumento suficientemente a sério para legislar. A Lei n.º 2024-120, promulgada em fevereiro de 2024, criou o primeiro quadro jurídico especificamente destinado a proteger os direitos de imagem dos menores no contexto da utilização parental das redes sociais. A norma exige que ambos os progenitores se consultem mutuamente e tenham em conta a opinião da criança antes de publicar, e confere aos juízes o poder de proibir um dos pais de partilhar conteúdos caso o outro se oponha. Os dados por detrás da lei são eloquentes: em média, uma criança aparece em 1.300 fotografias publicadas online antes dos treze anos. Segundo a CNIL, a autoridade francesa de protecção de dados, cerca de metade das fotografias que circulam em fóruns de pedofilia provêm de conteúdos partilhados pelos próprios pais ou pelas crianças. Os Estados Unidos não dispõem de nenhum quadro federal equivalente.

No mundo do entretenimento americano, o debate resolveu-se ao nível da consciência individual de cada celebridade. Kristen Bell e Dax Shepard contribuíram para estabelecer o que ficou conhecido como a política informal dos “No Kids” — um compromisso de algumas figuras públicas de manter os rostos dos filhos fora das redes sociais até que as crianças sejam suficientemente velhas para compreender as implicações. Eva Mendes e Ryan Gosling não publicaram fotografias das filhas. Christina Hall, apresentadora de televisão, anunciou que deixaria de mostrar o filho Hudson em qualquer plataforma “até que ele seja suficientemente grande para tomar essa decisão por si próprio.” Em março de 2026, a influenciadora Maia Knight declarou arrepender-se das suas práticas anteriores de sharenting.

O contra-argumento não é fraco e merece ser enunciado com clareza. Os pais sempre documentaram os marcos dos filhos. Os álbuns de família sempre circularam entre avós, amigos e vizinhos. As crianças geralmente gostam da atenção; muitas crescerão gratas pelo arquivo que os pais conservaram. O calor que emana de um pai a partilhar a formatura do filho é genuíno. A comunidade que se forma em torno dessas publicações oferece um apoio social real a famílias que de outra forma poderiam estar mais isoladas. Aplicar enquadramentos de consentimento a crianças de quatro anos equivale, para alguns, a um paternalismo bem-intencionado que privaria os pais do direito de documentar a vida familiar da forma que lhes parece natural.

O problema é que esses argumentos importam a ética do álbum de família para um ambiente que não se lhe assemelha estruturalmente. Uma avó a quem se mostra uma fotografia do neto na cerimónia de pré-escolar não tem capacidade de a partilhar com quarenta e nove milhões de pessoas. Não pode incluí-la num conjunto de dados de treino de inteligência artificial. A publicação no Instagram não termina: é indexada, capturada em capturas de ecrã, por vezes integrada em artigos jornalísticos, e constitui um registo permanente do rosto, do nome, da localização e da fase de vida de uma criança específica, disponível para um público cujo número supera o da maioria dos países do mundo.

Está também em jogo uma dimensão comercial. A conta de Instagram de Cardi B não é um arquivo privado. É, entre outras funções, um instrumento profissional com valor económico directo. Quando uma publicação gera envolvimento — comentários, partilhas, um aumento mensurável do alcance — esse envolvimento tem valor. A cerimónia de formatura do filho de uma celebridade é, independentemente da intenção da mãe, um conteúdo. O menino da beca e do capelo faz parte do pacote.

Wave Cephus chegará à idade da compreensão. Em algum momento, será suficientemente velho para pesquisar o seu próprio nome e encontrar as fotografias da formatura. O que sentirá em relação a isso — orgulho, indiferença, algo mais difícil de nomear — não é possível saber daqui. O debate não é sobre o que Wave sentirá. É sobre quem tem o direito de fazer essa aposta em seu nome, e se essa aposta exige um enquadramento mais explícito do que aquele que o amor por si só oferece.

O que se sabe / o que está em disputa

O que se sabe: As crianças podem aparecer em milhares de fotografias online antes de atingirem uma idade em que possam avaliar o que isso significa. Apenas 7,8% da investigação publicada sobre sharenting incorpora a perspectiva das crianças, segundo a revisão da Frontiers in Psychology de junho de 2026. A França promulgou em 2024 uma lei para proteger os direitos de imagem dos menores face às práticas de partilha parentais. As plataformas de redes sociais não estabelecem nenhuma distinção legal entre uma fotografia partilhada com cinquenta seguidores e uma partilhada com cinquenta milhões.

O que está em disputa: Se a escala muda o cálculo ético de forma que exige uma resposta estrutural em vez de apenas individual. Se a dimensão comercial das publicações de celebridades com os seus filhos constitui uma forma de exposição não remunerada, independentemente da intenção parental. Se os enquadramentos de consentimento devem estender-se às práticas de documentação dos próprios pais. Se a ausência de um quadro federal nos Estados Unidos representa uma escolha deliberada ou uma lacuna legal.

A cerimónia durou doze minutos. A fotografia permanecerá indefinidamente.

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