Análise

A literacia em saúde mental ensinou-nos a nomear os nossos estados. Não nos ensinou a triagem

Molly Se-kyung

A palavra “ansiedade” colonizou a língua. As campanhas de sensibilização em saúde mental passaram uma década a ensinar-nos a dar nome à vida interior. Conseguiram-no. O que não construíram foi o vocabulário para a distinção que se segue.

O stress, a ansiedade e as perturbações de ansiedade clínicas são três fenómenos distintos. Não são três pontos numa mesma escala. Funcionam através de mecanismos diferentes, requerem intervenções distintas e têm prognósticos diferentes. A conversa cultural sobre saúde mental aplanou estas distinções num continuum onde o limiar clínico desapareceu algures entre “estou um pouco stressado” e “talvez devesse falar com alguém”.

O stress é, conforme a Associação Americana de Psicologia define, uma resposta a uma exigência externa identificável. Uma data-limite, um conflito, um diagnóstico médico, um despedimento: o stress existe em relação a um desencadeador específico e resolve-se, em grande parte, quando esse desencadeador desaparece. A resposta fisiológica é adaptativa porque estes estados evoluíram para ajudar os organismos a enfrentar ameaças reais.

A ansiedade emerge quando o sistema de resposta à ameaça aprendeu a funcionar sem desencadeador. É interna, antecipatória, desproporcionada relativamente a qualquer causa externa identificável. Uma perturbação de ansiedade clínica exige algo mais: exige que os sentimentos comprometam o funcionamento, que persistam no tempo e nos contextos, e que não possam ser explicados por outra condição médica.

Uma análise publicada em 2025 na revista Depression and Anxiety, com base no Global Burden of Disease Study, contabilizou 359 milhões de pessoas em todo o mundo que preenchiam critérios diagnósticos para perturbações de ansiedade — cerca de 5 por cento da população mundial. Esse número não inclui todos os que sentem ansiedade. É a contagem de quem a ansiedade ultrapassa o limiar clínico.

A confusão entre estes três estados não é meramente semântica. Os tratamentos que funcionam para perturbações de ansiedade clínicas — terapia cognitivo-comportamental, medicação para perturbação de ansiedade generalizada ou perturbação de pânico — não são as mesmas intervenções que ajudam alguém a gerir um período de trabalho stressante. Aplicar intervenção clínica ao sofrimento subclínico pode não só não ajudar: pode, em alguns casos, agravar o problema.

O programa australiano Better Access ilustra isso com incómoda precisão. O programa governamental aumentou o acesso à terapia subsidiada. A análise dos seus resultados constatou que os doentes com sintomas ligeiros de ansiedade ou depressão que receberam tratamento clínico tinham mais probabilidade de piorar do que de melhorar. Este dado, citado por Nick Haslam da Universidade de Melbourne no seu artigo de 2026, não é um argumento contra a terapia. É um argumento de que as estruturas clínicas concebidas para perturbações moderadas a graves podem não servir — e podem prejudicar — pessoas cujo sofrimento fica abaixo do limiar clínico.

A teoria de “concept creep” de Haslam oferece uma explicação estrutural. Publicada em 2025, propõe que os conceitos de saúde mental sofrem expansão histórica: as definições alargam-se, o limiar de aplicação baixa. O público tornou-se melhor a reconhecer a presença de doença mental e simultaneamente pior a reconhecer a sua ausência.

O contra-argumento merece o seu peso completo: antes da expansão do vocabulário, milhões de pessoas com perturbações clínicas genuínas não eram reconhecidas. A sondagem GrowTherapy de 2026 mostra que a ansiedade e o stress motivam 34 por cento de toda a procura de terapia nos EUA. Para quem nessa percentagem tem uma perturbação clínica real, o movimento de sensibilização foi o caminho para o cuidado de que necessitava.

Mas o acesso a serviços de saúde mental desceu para 47,4 por cento das pessoas que procuraram cuidados em 2026, face aos 50 por cento do ano anterior. A crise das listas de espera é em parte um problema de desajuste. Os recursos clínicos são finitos. Se esses recursos são absorvidos desproporcionalmente por stress subclínico, as pessoas com perturbações suficientemente graves para comprometer o funcionamento esperam mais tempo.

O que se sabe / O que ainda está em debate

O que se sabe: Stress, ansiedade e perturbações de ansiedade clínicas têm mecanismos distintos e exigem respostas diferentes. O Global Burden of Disease Study conta 359 milhões de pessoas com critérios clínicos — cerca de 5 por cento da população mundial. A investigação de Haslam documenta um concept creep mensurável. Os dados australianos mostram dano real quando se aplica tratamento clínico a sintomas subclínicos.

O que está ainda em debate: Se a sensibilização ajudou mais pessoas do que confundiu. Se a resposta correta à crise das listas de espera é melhor triagem na entrada ou capacidade clínica significativamente alargada. E se o limiar do DSM está traçado corretamente: os críticos argumentam que a linha entre perturbação e variação ordinária foi fixada por consenso profissional, não pela biologia.

O projeto vocabulário era necessário. O projeto triagem que o deveria ter acompanhado ainda aguarda ser construído.

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