Negócios e finanças

EUA impõem tarifas de 50% sobre produtos canadianos — Ottawa promete retaliação em setembro

Victor Maslow

Cada garrafa de uísque canadiano, cada folha de contraplacado, cada peça de maquinaria industrial que atravessa a fronteira dos EUA transporta agora uma sobretaxa de 50% — o preço de três dias de negociações em Washington que não produziram qualquer acordo. O colapso deixou cerca de 20 mil milhões de dólares em mercadorias canadianas retidas sob novas tarifas, sem nenhuma data de reinício no calendário e com Ottawa a prometer uma retaliação equivalente.

As famílias norte-americanas sentirão primeiro nos materiais de construção. O Canadá é o maior fornecedor de madeira de abeto dos Estados Unidos, um insumo que entra diretamente nos preços das casas novas num momento em que a acessibilidade à habitação já está sob forte pressão. Os lacticínios, os eletrónicos e uma vasta gama de bens de consumo também estão incluídos. Os canadianos enfrentam um choque simétrico quando Ottawa começar a igualar as tarifas dos EUA dólar por dólar no aço, lacticínios, eletrodomésticos, maquinaria agrícola e eletrónicos norte-americanos.

Três dias de negociações em Washington colapsaram quando cada lado descreveu uma negociação fundamentalmente diferente. O Primeiro-Ministro Mark Carney disse que os EUA apresentaram condições que eram «antieconómicas, injustas e minavam os benefícios líquidos para o Canadá». O Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, contra-atacou dizendo que o Canadá retirou compromissos anteriores. Os pontos de discórdia foram os mesmos setores onde os direitos aduaneiros existentes dos EUA já atingiam os 50% — aço, alumínio, madeira e automóveis.

A formulação «dólar por dólar» mascara uma assimetria estrutural. O Canadá envia 73% das suas exportações para os Estados Unidos; os EUA enviam menos de um quinto para norte. Os economistas do comércio notam que esta dependência limita até que ponto Ottawa pode escalar credivelmente. Julian Karaguesian, da Universidade McGill, alertou que tarifas a este nível «efetivamente fariam com que centenas de mercadorias canadianas fossem expulsas do mercado dos EUA» — um colapso do consumo e não um fluxo de receitas, o que torna a economia para ambos os lados mais confusa do que os números de manchete sugerem. O lobbying por isenções por parte dos interesses agrícolas e siderúrgicos de ambos os lados irá corroer ainda mais o compromisso de equivalência.

O setor automóvel situa-se no epicentro do conflito. As tarifas existentes já oneram os veículos dos EUA que entram no Canadá; os analistas preveem que os consumidores canadianos desviarão as compras para modelos japoneses, coreanos e europeus. Os construtores norte-americanos, enfrentando novos aumentos dos custos da madeira, afirmam que os orçamentos de construção terão de ser revistos em alta para o resto do ano.

As tarifas retaliatórias do Canadá entram em vigor a 8 de setembro, visando o aço, os lacticínios e os eletrónicos dos EUA. Ambos os governos deixaram formalmente a porta aberta a negociações — Carney explicitamente, Greer em linguagem mais comedida — mas, até ao prazo deste fim de semana, nenhuma nova data de negociação está agendada. A próxima oportunidade formal para abordar o impasse é a reunião dos ministros do Comércio do G7 em setembro.

Etiquetas: , , , , ,

Discussão

Existem 0 comentários.