Negócios e finanças

A Microsoft despede 5.500 para pagar 190 mil milhões em infraestrutura de IA

Victor Maslow

A conta é direta. A Microsoft investirá 190 mil milhões de dólares em infraestrutura de inteligência artificial durante este ano — centros de dados, GPUs, racks de servidores arrefecidos a líquido em três continentes — enquanto suprime simultaneamente 5.500 postos de trabalho, incluindo uma parcela significativa da sua divisão de videojogos Xbox. Aquilo a que a empresa chama reestruturação é, em termos mais precisos, o custo humano do maior programa de investimento de capital da sua história.

Os cortes afetam menos de 2,5% de uma força de trabalho global de 220.000 pessoas. A Microsoft usa persistentemente essa percentagem, tecnicamente exata e deliberadamente incompleta. Descreve uma proporção sem nomear o que é eliminado: estúdios Xbox que passaram anos a construir franquias, equipas de vendas a quem foi prometido que a IA ampliaria o seu alcance, funções de consultoria que deveriam ser imunes à automação por exigirem julgamento humano.

A situação da Xbox merece análise própria. Uma nota interna da diretora da divisão, Asha Sharma, revelou uma quebra de receitas de 500 milhões de dólares em cinco anos e uma margem de responsabilidade de cerca de 3%, mesmo após a integração da Activision Blizzard. A divisão gastou mais de 20 mil milhões em conteúdos, hardware e subsídios de plataforma em cinco anos. Não está a gerar retornos ao ritmo que a infraestrutura de IA exige aos investidores.

O padrão setorial não suaviza a leitura. As empresas tecnológicas norte-americanas anunciaram 185.894 despedimentos desde o início de 2026, mais 66% face ao mesmo período de 2025. A inteligência artificial foi citada como razão explícita em 87.714 desses cortes. Na Cloudflare, com receitas de 639 milhões de dólares num único trimestre, a empresa eliminou simultaneamente 20% do pessoal. Recordes de receitas e despedimentos em massa surgem agora nas mesmas comunicacões financeiras.

O que permanece por resolver é a promessa de produtividade. A Microsoft e os seus pares afirmam que os trabalhadores assistidos por IA produzem mais. Pode ser parcialmente verdade. Não explica por que razão uma empresa com mais de 81 mil milhões de dólares em receitas trimestrais precisa reduzir os quadros em vendas para financiar um orçamento de aluguer de GPUs de 11.100 milhões de dólares por trimestre.

O ano fiscal aberto esta semana dirá se essa aposta vale o investimento. Os resultados do primeiro trimestre do exercício 2027 da Microsoft, previstos para final de outubro, mostrarão se os 190 mil milhões em IA comprimem as margens ou as ampliam. Os 5.500 trabalhadores cujos postos terminam este mês ficarão a saber a resposta em primeiro lugar.

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