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J. K. Rowling, a romancista que construiu um mundo para todos e decidiu ser ela própria o enredo

Penelope H. Fritz

Era um comboio atrasado entre Manchester e Londres, no verão de 1990. Joanne Rowling, vinte e quatro anos, sem caderno, com a morte recente da mãe ainda por processar, sentiu uma história chegar inteira: um miúdo que não sabia que era feiticeiro, uma escola que não constava de nenhum mapa, um vilão cujo nome ninguém ousava dizer. Passou toda a viagem a gravar cada detalhe na memória. Quando o comboio chegou a King’s Cross, Harry Potter existia.

Rowling nasceu em Yate, no South Gloucestershire, filha de um engenheiro aeronáutico da Rolls-Royce e de uma técnica de laboratório apaixonada por livros. Estudou Francês e Literaturas Clássicas em Exeter, foi para Portugal ensinar inglês, casou jovem, teve uma filha, viu o casamento desfazer-se e regressou a Edimburgo em 1993 como mãe a cargo, a viver de subsídios. A sua mãe, Anne Rowling, morreu de esclerose múltipla em dezembro de 1990. Essa perda nunca foi completamente superada — e percorre toda a obra: o órfão sem pais no centro da saga, o luto que confere aos livros um peso emocional que a literatura para jovens raramente atinge.

Doze editoras recusaram o manuscrito de Harry Potter e a Pedra Filosofal. A Bloomsbury comprou-o em 1996. Um ano depois, crianças que nunca tinham ligado muito à leitura devoravam-no escondidas na cama com lanternas. O que se seguiu — seis volumes entre 1998 e 2007, cada um um acontecimento global — foi um evento sísmico na história da leitura. A série vendeu mais de 600 milhões de exemplares em mais de 85 línguas.

Sob o pseudónimo Robert Galbraith, Rowling lançou em 2013 a série policial de Cormoran Strike. A Voz do Cuco foi publicada sem que ninguém soubesse a identidade do autor; quando a identidade vazou, o livro subiu imediatamente às listas de vendas. A série conta agora oito romances, com The Hallmarked Man publicado em setembro de 2025. Em fevereiro de 2026 anunciou o título do nono, Sleep Tight, Evangeline, atualmente em escrita. A HBO estreia em dezembro de 2026 uma adaptação televisiva de Harry Potter e a Pedra Filosofal, primeira temporada em oito episódios.

Desde 2019, Rowling tornou-se a voz britânica mais proeminente num debate profundamente contestado sobre identidade de género e a definição legal de «mulher». O Supremo Tribunal do Reino Unido decidiu em abril de 2025 que o termo «mulher» na Lei da Igualdade de 2010 se refere ao sexo biológico — decisão que Rowling saudou publicamente. Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint distanciaram-se das suas posições. O paradoxo mais vivo: desde maio de 2026, o círculo eleitoral escocês onde Rowling vive é representado pela Dra. Q Manivannan, uma política transgénero recentemente eleita deputada ao Parlamento Escocês.

O mundo que ela criou já não lhe pertence apenas a ela. Isso, em certo sentido, é a definição de um mito. O próximo romance de Cormoran Strike está a ser escrito. A série da HBO, em produção. Joanne Rowling continua, inegavelmente, a escrever.

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