Críticas

Halloween – O Regresso do Mal é o manual incontornável do terror cinematográfico que o género nunca ultrapassou

John Carpenter, 1978: a monstruosidade sem rosto que ainda não encontrou rival.
Martha O'Hara
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A máscara branca e vazia de Michael Myers paira sobre o espectador como uma lâmina suspensa. É esta imagem que abre Halloween – O Regresso do Mal, o filme de 1978 que John Carpenter dirigiu, compôs e co-escreveu com a produtora Debra Hill. A máscara não é apenas um símbolo de anonimato; é uma lâmina afiada contra a inocência adolescente, um objecto banal transformado em instrumento de puro mal.

O filme segue Myers, que escapa de um hospital psiquiátrico 15 anos após assassinar a irmã. De volta à sua cidade natal, Haddonfield, ele persegue Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), uma babysitter vigilante cujas suspeitas sobre o estranho que a observa são ignoradas pelas amigas. Carpenter constrói tensão com planos longos e estáticos, como quando Myers espia Laurie através de uma janela, a sua figura imóvel contrastando com o movimento nervoso dela. A câmara não se afasta; deixa o espectador observá-lo observar.

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A banda sonora minimalista de Carpenter é tão essencial quanto a imagem. O tema principal, repetitivo e hipnótico, cria uma sensação de inevitabilidade, como um relógio a contar os segundos até ao próximo ataque. A música não aumenta em volume quando Myers ataca; mantém-se constante, tornando cada assassinato ainda mais perturbador pela sua banalidade sonora.

O filme funciona porque Carpenter nunca explica Myers. Ele é o mal sem motivo, uma força da natureza. Donald Pleasence, como o Dr. Loomis, persegue-o com um desespero que beira ao religioso, gritando que ele é o mal puro — uma linha que soa mais a prece do que a diagnóstico.

Mas Halloween – O Regresso do Mal falha quando tenta humanizar Laurie. As cenas em que ela interage com os amigos são demasiado longas e banais, quebrando o ritmo que Carpenter estabeleceu tão cuidadosamente. E, embora Curtis seja convincente como a adolescente assustada, as suas decisões (como entrar sozinha numa casa abandonada) são forçadas pela trama.

A cena da morte de Annie é um exemplo do que funciona e do que falha no filme. A sequência é perturbadora: Myers esconde-se no banco traseiro do seu carro e estrangula-a quando ela está sozinha. Carpenter tem a inteligência de deixar a ameaça instalar-se em silêncio, mas o impulso de tornar a consumação demasiado visível vai contra a sua própria lógica. O terror já estava na ameaça implícita, não na sua execução.

O veredito é claro: Halloween – O Regresso do Mal é um filme crucial para o género slasher, mas não é perfeito. As suas falhas são as do próprio género — personagens construídos para morrer mais do que para viver —, mas o que Carpenter acerta é suficientemente preciso para que tudo o resto seja secundário.

Realizado com apenas 300 mil dólares, arrecadou 70 milhões, tornando-se num dos filmes independentes mais lucrativos de sempre. Carpenter e Hill criaram um modelo que seria copiado até à exaustão: o assassino encoberto, a vítima final, a noite de terror que se repete sem nunca esgotar a ameaça original.

Quarenta e cinco anos depois, o eco de Halloween – O Regresso do Mal é audível em cada slasher que recusa explicar o mal do seu antagonista — dos Scream dos anos 90 aos Hereditary da actualidade. A máscara de Myers tornou-se num ícone pop, reconhecível instantaneamente ao lado do Freddy Krueger ou Jason Voorhees. Que o original se sobreponha a todos eles é, por si só, um argumento: Carpenter construiu o modelo que os outros apenas repetiram.

Halloween – O Regresso do Mal define com clareza o que o cinema de terror pode fazer com muito pouco: Carpenter recusa explicar Myers ou justificar as suas acções, e essa recusa ainda assusta mais do que qualquer resposta que as sequelas lhe tentaram dar.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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