Críticas

Honor Society transforma a comédia adolescente numa fábula implacável sobre a ambição

Oran Zegman assina esta sátira escolar sustentada por Angourie Rice.
Martha O'Hara
Adicione-nos no Google

A rapariga de óculos que sorri enquanto envenena o smoothie do rival. Essa imagem, simples mas eficaz, capta o tom inesperadamente sombrio de Honor Society, uma comédia adolescente que prefere Machiavelli a Mean Girls. Dirigido por Oran Zegman e lançado em 2022 no Paramount+, o filme segue Honor Rose (Angourie Rice), uma aluna do secundário obcecada pela admissão em Harvard, disposta a sabotar os três melhores alunos da escola — até se apaixonar por um deles.

O que funciona começa com Angourie Rice. A atriz australiana traz uma energia frenética e calculista a Honor, tornando credíveis tanto as suas manobras manipuladoras como o súbito interesse romântico por Michael Dipnicky (Gaten Matarazzo), interpretado com um desleixo charmoso que equilibra bem a loucura da protagonista. Gaten Matarazzo, conhecido pelo seu papel em Stranger Things, traz uma autenticidade que humaniza a personagem e torna a relação entre os dois protagonistas mais convincente. Christopher Mintz-Plasse, como o orientador Mr. Calvin, funciona sobretudo nos momentos em que é posto à prova pela determinação implacável de Honor, ainda que o registo cómico beire por vezes a caricatura.

YouTube video

A estrutura do filme — dividido em três atos, cada um centrado numa vítima diferente da conspiração de Honor — mantém o ritmo ágil. As sequências de sabotagem são criativas, com destaque para a armadilha do smoothie “envenenado”, e a banda sonora, composta por Ben Zeadman e Daniel Markovich, reforça bem o tom entre o adolescente e o absurdo. O álbum oficial, com pouco mais de quinze minutos de duração, é curto mas eficaz, e temas como “Honor On A Mission” acompanham as cenas de manipulação com um ritmo acelerado.

Ainda assim, Honor Society nem sempre está à altura das suas próprias ambições. A transição do humor negro para o romance é abrupta, e o terceiro ato perde algum foco ao tentar equilibrar a comédia com uma mensagem sobre autenticidade. Algumas das “vítimas” de Honor — como Travis Biggins (Armani Jackson) ou Kennedy Park (Amy Keum) — são subaproveitadas, o que reduz o impacto dos seus arcos e deixa as suas histórias com uma sensação de incompletude.

O maior problema é a inconsistência tonal. O filme flerta com uma sátira social sobre a pressão académica e a cultura da competição, mas recua sempre para um desfecho convencional de comédia romântica. Essa indecisão entre o humor negro e o romance adolescente esbate o impacto do conjunto e torna-o menos memorável do que poderia ser.

O elenco secundário também tem o seu espaço. Ben Jackson Walker, Kelcey Mawema e Avery Konrad dão vida a Gary, Talia e Emma, colegas que gravitam à volta do esquema de Honor, enquanto Michael P. Northey e Kerry Butler interpretam Marvin e Janet Rose, os pais da protagonista — presenças que ajudam a situar de onde vem a obsessão de Honor por uma vaga em Harvard.

A recepção crítica na época do lançamento foi, de um modo geral, positiva, com elogios recorrentes às interpretações de Rice, Matarazzo e Mintz-Plasse e à disposição do filme para ser mais afiado do que a média das comédias adolescentes do género. É essa aposta — tratar a ambição académica quase como um jogo de xadrez maquiavélico, em vez de a reduzir a uma simples rivalidade de recreio — que distingue Honor Society de tantos outros títulos do género.

Em conclusão, Honor Society funciona melhor como retrato ácido da pressão académica do que como comédia romântica, e é nesse desequilíbrio — mais do que em qualquer falha técnica — que reside tanto o seu interesse como as suas limitações.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Etiquetas: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.