Críticas

O Exorcista continua a ser o ponto mais alto do cinema de terror americano, sem margem para debate

A obra-prima de William Friedkin (1973) mantém toda a sua força perturbadora e a sua ambiguidade teológica intactas.
Martha O'Hara
Adicione-nos no Google

O plano de abertura de O Exorcista é uma imagem que não se esquece: o rosto de Max von Sydow, iluminado por uma luz fraca, enquanto observa um ídolo antigo em ruínas no Iraque. Esta cena introduz o tom do filme de William Friedkin — um misto de documentário realista e horror sobrenatural que raramente se vira antes no género. A possessão demoníaca de Regan MacNeil (Linda Blair) não é um susto barato; é uma exploração da fé, da humanidade e do sofrimento mental, e o filme tem seriedade suficiente para a tratar como tal.

Friedkin constrói o terror com uma lentidão deliberada, usando a câmara como instrumento de observação clínica. A atmosfera torna-se cada vez mais pesada à medida que a possessão avança: os gritos agudos, a contorção física e as imagens chocantes — como a famosa cena da angiografia cerebral, tratada com a frieza de um procedimento médico real — são momentos em que o filme ultrapassa os limites do género. O som é outro elemento crucial: os ruídos guturais, os sussurros perturbadores, a música de Tubular Bells — tudo concorre para um desconforto que a imagem, por si só, não conseguiria sustentar. Friedkin raramente dramatiza; observa. E é precisamente nessa contenção que o horror cresce.

YouTube video

O Exorcista não se limita a sustos. A relação entre Chris MacNeil (Ellen Burstyn) e Regan é um dos pontos mais humanizados do filme — uma mãe que vê o mundo racional desmoronar-se à sua volta sem conseguir encontrar uma explicação que lhe seja útil. Burstyn traz uma vulnerabilidade crível à personagem, enquanto Linda Blair, apesar da maquilhagem grotesca, consegue transmitir a agonia de uma criança a lutar contra algo para além do seu controlo. São dois desempenhos que ancoram o filme na experiência humana quando tudo o resto deriva para o sobrenatural. Jason Miller e Max von Sydow merecem igualmente destaque como os padres Karras e Merrin. Quando os dois se encontram no apartamento de Regan, o que se joga entre eles é a diferença entre a dúvida vivida na carne e a certeza adquirida em décadas de combate — Miller tenso e contido, von Sydow impassível e monumentalmente cansado. Karras questiona a existência de Deus no momento exato em que Deus parece necessário; são essas contradições, e não apenas a espetacularidade dos efeitos, que fazem do filme algo mais do que um exercício de horror.

Mas O Exorcista não é perfeito. A primeira metade do filme, embora bem construída, arrasta-se, especialmente nas cenas mais expositivas. Algumas escolhas narrativas, como o uso do tabuleiro Ouija como dispositivo de trama, parecem datadas. E, apesar dos seus méritos técnicos, Friedkin cai ocasionalmente no sensacionalismo — a cena do exorcismo final, embora impactante, beira o grotesco num momento em que a sobriedade teria servido melhor ao conjunto.

O que salva o filme das suas próprias derrapagens é a seriedade com que trata a premissa. A possessão de Regan não é pretexto para sustos; é uma crise real, que esgota a medicina e a ciência antes de chamar o padre. É essa gravidade — e não os efeitos de maquilhagem, por mais impressionantes que sejam — que confere ao filme a sua particular densidade. As dez nomeações para os Óscares confirmaram a legitimidade artística que o género raramente recebe. Blatty venceu em Melhor Argumento Adaptado; os engenheiros de som levaram o prémio de Melhor Som. Em 2010, a Library of Congress selecionou-o para preservação no National Film Registry como obra «cultural, histórica ou esteticamente significativa». A cena da angiografia cerebral mantém hoje a sua força perturbadora porque Friedkin a trata como documento — não como espetáculo.

As filmagens prolongaram-se pelo dobro do tempo previsto e o orçamento cresceu para perto de duas vezes e meia o valor inicial. São números que habitualmente denunciam produção caótica. Aqui denotam outra coisa: um realizador para quem a precisão valia mais do que o calendário, disposto a renegociar recursos e a aceitar atrasos antes de fazer concessões. A coerência formal do resultado é, nesse contexto, a prova mais clara do método de Friedkin. As suas imperfeições são as de um realizador que forçou os limites em vez de os gerir.

O Exorcista resiste precisamente porque Friedkin recusou o pacto fácil com o espectador: não há ironia, não há distância de segurança. A seriedade do propósito é, afinal, o traço mais perturbador do filme.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Etiquetas: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.