Críticas

Raymond & Ray cava uma boa cova para dois irmãos e depois enche-a de visitas

A tragicomédia seca de Rodrigo García (2022) assenta em Ewan McGregor e Ethan Hawke.
Martha O'Hara
Adicione-nos no Google

Um pai morre e deixa um último desejo: que os filhos lhe cavem a sepultura. Pode ser humilhação, pode ser a única maneira que ele encontrou de ficar perto dos dois mais uma vez, e o melhor de Raymond & Ray é deixar essa dúvida solta durante boa parte do filme. Rodrigo García, que escreve e realiza, parte daqui para contar a história de dois meios-irmãos, Raymond (Ewan McGregor) e Ray (Ethan Hawke), que se reencontram após anos de afastamento e têm de atravessar juntos um luto que nenhum dos dois sabe bem como viver.

São 106 minutos e, na maior parte deles, o filme parece não ter decidido o que quer ser. Há humor, há drama, há uma tentativa de ternura, e as três coisas alternam sem que uma prepare a seguinte. A piada corta a emoção que se vinha formando; o drama regressa com ar de quem pede desculpa pela piada. Numa comédia dramática, o difícil é que o riso e a dor nasçam da mesma situação. Aqui nascem, quase sempre, de situações diferentes, e vê-se a costura.

YouTube video

O início é o trecho mais seguro. Numa noite de chuva, Raymond vai até à cabana isolada onde Ray vive para lhe dizer que o pai, Ben Harris, morreu. Para o convencer a ir ao funeral, tem de admitir que perdeu a carta de condução depois de ser detido por conduzir sob o efeito do álcool. A viagem que se segue, grande parte de um dia de estrada, fecha os dois num espaço pequeno e dá ao filme a oportunidade de os deixar descobrir-se sem pressa. É a velha convenção do filme de estrada, e funciona por razões simples: dois homens ligados pelo sangue e afastados pela vida, um destino que nenhum deles deseja e um carro de onde ninguém pode sair. Quando a história chega ao destino, perde parte dessa economia.

O que segura o filme é a dupla central. A diferença de temperamento entre as duas personagens rende os melhores momentos: um criou defesas à volta da ordem, o outro à volta da recusa, e nenhum dos dois se deu bem com a herança. McGregor e Hawke sabem estar em cena lado a lado sem disputar espaço, e nota-se. Não sei dizer se o mérito é do argumento ou apenas do ofício dos atores, mas a convivência forçada entre eles resulta melhor do que qualquer reviravolta. Ray abandonou o trompete para contrariar o pai que o empurrou para a música, e essa recusa diz mais sobre ele do que as conversas em que o filme tenta explicá-lo. Raymond, entre um divórcio e um emprego de escritório sem brilho, tem menos para fazer. A personagem existe em contraste com o irmão e raramente por si própria.

Os momentos mais fortes são os mais concretos. Em casa do pai, Lucia entrega a cada filho uma caixa que ele deixou. Raymond recebe bonecas, patins de gelo e preservativos; Ray recebe o trompete que julgava destruído desde a adolescência e que o pai mandou restaurar umas semanas antes. Ninguém explica estes objetos, e é nesse desconforto que o filme respira melhor. O homem que pediu para ser enterrado nu, em cova aberta pelos filhos, também mandou arranjar o instrumento do filho que o rejeitou, e a contradição fica sem resposta. Mais adiante, no enterro, Raymond corre até ao carro, volta com uma arma, aponta-a primeiro a si mesmo e depois dispara contra o caixão já na terra. A cena tem a violência de quem não sabe o que fazer à raiva. Ray toca o trompete a seguir, e o gesto dispensa qualquer fala. Durante esses minutos, o filme esquece-se de se defender e fica a olhar para os dois, o que lhe assenta melhor do que todo o resto.

A sinopse oficial fala de dois homens que tentam perceber em que se tornaram, por causa do pai e apesar dele. É um tema velho e exigente, que facilmente se estraga quando alguém o declama. O filme aproxima-se dele quando observa o que os irmãos herdaram sem querer: os gestos, as defesas, a dificuldade em pedir ajuda. Perde força quando transforma essa herança em assunto de conversa. Homens que passaram anos sem se falar raramente resumem a própria infância em frases limpas, e o texto de García dá-lhes, por vezes, exatamente essa clareza, em falas que parecem dirigidas ao público e não ao irmão que está ao lado.

O resto do elenco trabalha com pouco. Maribel Verdú faz Lucia, enfermeira e amante do pai, e Sophie Okonedo faz Kiera, a mulher que ajudou Harris no hospital nos últimos dias e com quem Ray cria uma ligação; Vondie Curtis-Hall é o Reverendo West, Todd Louiso é Canfield, Tom Bower é o pai, Harris, e Maxim Swinton é Simon, o filho de Lucia. Todos ocupam espaços curtos, quase sempre ao serviço de um dos dois irmãos, e mereciam personagens com vida para lá das cenas dos protagonistas. O Reverendo West podia dar um bom contraponto, o homem de fé diante de um morto cuja memória pesa tanto aos filhos; fica como presença correta e pouco mais. Okonedo e Verdú têm carisma para ocupar mais ecrã do que lhes dão. E quando outros filhos de Harris surgem no enterro, a revelação podia ser a passagem mais estranha e mais divertida do filme, mas o texto trata-a como informação a transmitir, não como cena a viver.

Enterrar quem nos magoou e já não pode explicar-se nem pedir perdão é um dilema que o drama já explorou de muitas formas, e a ordem do pai, que lhe cavem a sepultura, torna-o quase físico. Os irmãos podem obedecer e cumprir a última vontade de quem os magoou, ou recusar e ficar com uma raiva que não tem para onde ir. García tem nas mãos uma situação dramática pronta e, em alguns momentos, deixa os irmãos sentirem o peso dela em silêncio. O problema é que o filme não confia nesse silêncio por muito tempo. Logo alguém explica o que a cena já tinha dito, e a explicação encolhe o que ali estava. Até as cartas que o reverendo entrega a cada irmão no fim do enterro seguem essa lógica: o pai só tem a palavra final quando já não pode ser contestado, e o filme parece satisfeito com isso.

A comédia, por seu lado, está na própria situação: dois homens adultos a cavar a sepultura de um pai que os maltratou, por ordem dele. A imagem já é absurda que chegue, e bastava filmá-la sem apertar. De cada vez que força a piada, o tom desafina e o espectador deixa de acreditar no luto para ficar à espera do gracejo seguinte. Há uma graça seca, quase de embaraço, que serviria melhor o projeto do que o riso mais aberto que o filme por vezes procura.

O filme teve a estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto, a 12 de setembro de 2022, chegou a salas selecionadas a 14 de outubro e estreou-se na Apple TV+ a 21 de outubro, uma semana depois. Para uma obra que depende tanto de pequenos gestos entre atores, o pequeno ecrã é um lugar natural, mas a janela curta nas salas deixou pouco tempo para o filme criar a sua própria conversa. A imprensa britânica foi dura: o The Guardian falou de uma experiência muito magra e de dois atores desperdiçados. Parece-me severo, porque o desperdício que ali se vê é menor do que o de uma ideia boa que fica a meio caminho.

Pesa também o facto de García escrever e realizar. Quando as duas funções estão na mesma mão, o texto talvez não passe pelo questionamento que uma segunda cabeça faria. Os diálogos sobre a infância e o trauma soam um pouco a declarações de intenções, e um olhar externo teria podido cortar-lhes as arestas e devolver-lhes a hesitação de quem fala com custo. Ainda assim, a mão de realizador é mais sóbria do que a de argumentista: García sabe deixar os atores respirar e não embeleza o que não precisa de enfeite.

No fim, Raymond & Ray é um filme pequeno, de ambições modestas, que se salva pela maneira como McGregor e Hawke habitam a irmandade e por um punhado de cenas em que as coisas ficam por dizer. Não resolve o que propõe, e talvez nem devesse. Quem espera uma catarse limpa sairá desiludido; quem aceita um acerto de contas com um morto que não responde encontrará aqui uma companhia honesta, ainda que irregular, durante pouco menos de duas horas.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Etiquetas: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.