Críticas

Táticas do Amor é uma comédia romântica agradável, mas o argumento não confia nos seus protagonistas

Emre Kabakuşak realizou em 2022 esta comédia turca da Netflix, previsível e simpática.
Martha O'Hara
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«Táticas do Amor» começa numa festa de amigos em que Aslı e Kerem, cada um convencido de que é o caçador, escolhem o outro como alvo sem o saberem. A ideia tem graça, e o filme gasta-a depressa, trocando a tensão do equívoco por uma sucessão de manobras previsíveis.

Emre Kabakuşak dirige este romance turco com um ritmo que não decide se quer ser ágil ou contemplativo. São 98 minutos que parecem mais. A estrutura vive de repetição: o casaco de malha que Aslı deixa no táxi e que Kerem guarda como pretexto, os dias em que cada um espera que o outro ligue, o reencontro no avião a caminho da Capadócia. Cada «tática» é eco da anterior, com os dois a alternarem esquemas quase idênticos. É na Capadócia que o ciclo se parte, mas já tarde.

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O que segura o filme é a química entre Demet Özdemir e Şükrü Özyıldız. Logo no táxi partilhado, onde decidem ir jantar a um restaurante elegante, há entre eles uma facilidade que o argumento nem sempre merece. Volta a notar-se na cave da olaria, onde Kerem lhe dá um pequeno vaso e a ajuda a fazer o seu. É aí que Aslı fica a saber que o pai dele morreu quando era criança, e o texto de Pelin Karamehmetoğlu chega, por uma vez, a um momento de vulnerabilidade a sério.

Depois tropeça. Kerem leva Aslı a um passeio de balão sem saber que ela tem medo de alturas; o pânico dela surge de repente, ele acalma-a, e a cena resolve-se tão depressa que mal deixa marca. No jantar em casa dele, com um filme projetado no quintal, Kerem liga os aspersores no instante em que, no ecrã, os protagonistas se beijam à chuva. É cinema dentro do cinema, simpático no papel, mas calculado de mais: o grande gesto toma o lugar da subtileza e o resultado fica à beira do melodrama barato.

O jantar com Servet, o novo sócio da empresa de Aslı, e com a filha dele, Meltem, a rapariga de quem Kerem fugira na festa, devia ser o momento mais cómico. Aslı tenta dar ciúmes a Kerem através de Servet, Kerem responde com Meltem, e pai e filha acabam embriagados e a dormir, por obra dos dois. A piada é grossa. Özgür Ozan, como Servet, serve de isco para o ciúme do protagonista, e a personagem de Meltem existe só para ser a pessoa de quem Kerem quer escapar. Nenhum dos dois tem vida fora dessa função.

O mesmo se pode dizer de quase todo o elenco de apoio. Atakan Çelik, como Tuna, é o amigo e colega que devolve o projeto a Kerem em troca da aposta, e é dele que nasce o jogo todo; Deniz Baydar, como Cansu, serve a Aslı de confidente. Doğukan Polat (Emir) e Hande Yılmaz (Ezgi) aparecem na órbita do grupo de amigos sem que o argumento lhes dê mais do que a deixa seguinte. Era aqui que o filme podia ter ganhado textura, e não ganha.

O blogue de Aslı sofre do mesmo mal. Chama-se Love Tactics e arranca com o desafio de uma seguidora, mas o filme usa-o como pretexto e pouco mais. Podia ter sido um ponto de vista interessante sobre quem aconselha o amor que não vive, e fica por explorar.

A melhor sequência é a do piano. Kerem e a mãe tocavam juntos; desde que ela se foi embora, ele não se desfaz do instrumento por medo de a deixar partir, nem deixa ninguém tocá-lo, nem ele próprio, por medo de a perdoar. Quando Aslı toca à noite e Kerem acorda a ouvi-la, o filme abranda e escuta, e o que ali se passa é mais verdadeiro do que todas as manobras anteriores. Mas esse momento é engolido por um enredo que insiste em ser uma guerra de estratégias, e o tom continua a oscilar entre a comédia e o romance sem se fixar em nenhum.

Estreado na Netflix a 11 de fevereiro de 2022, o filme dividiu a crítica de língua inglesa: houve quem o achasse previsível mas simpático, e houve quem o descrevesse como um aborrecimento que dura mais do que os minutos que tem. Fico mais perto do segundo grupo, com ressalvas. Özdemir e Özyıldız merecem um argumento que confie neles sem a muleta do concurso, e a cena do piano mostra que o filme sabia onde estava o seu melhor. Uma sequela, realizada por Recai Karagöz, chegou mais tarde.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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