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«The Dino Family»: a animação russa que ainda consegue atravessar fronteiras

Veronica Loop

Filipp é um miúdo em idade escolar que herdou, contrariado, um museu de paleontologia. É um legado que preferia não ter, e o filme parte precisamente dessa relutância: um objecto de família, guardado como recordação inócua, revela-se a chave de um portal para o Mesozoico. «The Dino Family» arranca deste gesto — o de uma criança que abre uma porta que não devia — e transforma-o no motor de uma aventura em que duas famílias acabam espalhadas por um terreno pré-histórico que não compreendem e do qual não sabem sair.

A partir daí, o mapa emocional é simples e reconhecível: o objectivo é regressar a casa. Pelo caminho, os protagonistas cruzam-se com uma fauna desenhada para o riso — um dinossauro vegetariano de língua solta, um gigante bonacheirão, um glutão de estômago sem fundo — e com um antagonista à altura, uma serpente colossal que dá corpo à ameaça. É uma estrutura de road movie disfarçada de bestiário cómico, com o ecrã povoado de criaturas cuja função é tanto o alívio como o perigo. Nada aqui reinventa a fórmula do filme de aventura familiar; a questão é outra, e é industrial.

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O elenco de vozes da versão russa reúne Sergey Garmash, Vladimir Voytyuk, Vasilisa Savkina, Roman Kurtsyn e Timur Rodriguez — nomes que, para o público russo, carregam reconhecimento imediato. E é aqui que reside a primeira tese deste projecto: a animação é o único produto do cinema que se despe das suas estrelas sem perder valor. Um filme de imagem real vende-se pelo rosto; um filme de animação vende-se pelo conceito. Quando «The Dino Family» sair do seu mercado de origem, essas vozes desaparecem, substituídas por dobragens locais, e o que fica é a premissa — famílias, dinossauros, portal, regresso a casa —, precisamente o que se traduz sem atrito de um território para outro.

Realizado por Maxim Volkov e vendido internacionalmente pela Central Partnership International, o filme faz aquilo que se tornou raríssimo: um cinema russo a conseguir uma corrida comercial transfronteiriça num momento em que essa produção praticamente desapareceu dos ecrãs internacionais. E não o faz por uma porta lateral qualquer — faz a sua estreia internacional em salas coreanas, um dos mercados de animação familiar mais ferozmente competitivos que existem. É um teste sério. A Coreia do Sul não é um público que se contente com pouco no género, e colocar aí um título russo, sem o amparo de uma marca reconhecida, diz muito sobre onde ainda há permeabilidade no negócio.

A leitura industrial é clara: quando quase todo o resto do cinema russo ficou fora de circulação lá fora, a animação continua a ser a exportação que viaja. Dobra-se de forma limpa, não depende de referências culturais impenetráveis, apela a um público que atravessa idiomas e faz-se vender por uma ideia de uma frase. É o género menos exposto às barreiras que, noutras categorias, se tornaram intransponíveis. Que seja este o formato a abrir uma brecha não é acaso — é a lógica do mercado a funcionar exactamente como se esperaria.

Dito isto, o cepticismo impõe-se, e não é pequeno. «The Dino Family» chega sem passagem por festivais, sem percurso crítico fora do seu país, com um realizador e um elenco que, para o público internacional, são páginas em branco. Não há aqui pedigree que sirva de garantia, nem um historial que permita antecipar a recepção. O próprio retítulo — trocar «Доктор Динозавров» (algo como «Doutor Dinossauros») por um asséptico «The Dino Family» em inglês — é, mais do que uma escolha criativa, uma cautela de distribuidor: lima-se a origem, apaga-se a especificidade e apresenta-se o produto pela categoria mais genérica e mais vendável. É a jogada de quem cobre as apostas, não a de quem confia no que tem em mãos.

A scene from the animated film The Dino Family directed by Maxim Volkov
A scene from The Dino Family (2025)

Nada disto condena o filme; apenas o coloca no seu lugar. É um produto de género a tentar a sorte num corredor comercial estreito, apoiado no facto de a animação ser o formato mais dócil à travessia. Se resultar, terá menos que ver com a qualidade intrínseca — que ninguém lá fora ainda avaliou — e mais com a mecânica de um mercado que continua a deixar passar dinossauros animados quando fecha a porta a quase tudo o resto.

Com 94 minutos e géneros bem arrumados na animação, na aventura e no cinema familiar, «The Dino Family» faz a sua estreia em salas coreanas a 7 de outubro, depois de a versão russa original já ter chegado às salas no seu país. Não há estreia nas salas portuguesas confirmada até ao momento, e nada indica, para já, que este seja um dos títulos a chegar por cá. Fica o registo de uma anomalia interessante: a prova de que, no cinema, há sempre um produto que encontra caminho — e, neste caso, esse produto tem escamas, garras e um portal para o Mesozoico.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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