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May el-Toukhy pára a própria estreia em Veneza por causa das legendas, e «Woman Unknown» arranca 7 minutos e meio de ovação

Liv Altman

Para um filme feito em dinamarquês e concebido para viajar, a legenda não é uma cortesia — é o próprio filme. Um júri de Veneza que não fala a língua lê cada interpretação através de uma única linha de texto na parte inferior do ecrã; quando essa linha se desalinha, o filme que está a ser julgado já não é o filme que foi feito. May el-Toukhy compreendeu o que estava em jogo com precisão suficiente para fazer o que os realizadores quase nunca ousam: interromper a sua própria estreia.

Na estreia mundial de «Woman Unknown» na competição principal, el-Toukhy — uma das únicas duas mulheres a realizar filmes na seleção deste ano — saiu da sala depois de as legendas se terem desalinhado. Como o Deadline noticiou em primeira mão, ela abandonou o auditório ao som de um telemóvel a tocar, com vozes exaltadas audíveis no corredor lá fora. Cerca de cinco minutos depois, as luzes acenderam-se e ela regressou ao lado do produtor Mikael Riek, que informou a sala de que o filme iria recuar quinze minutos para que pudesse ser visto e compreendido devidamente.

Não é uma realizadora que deixa o controlo ao acaso. O seu êxito de 2019, «Queen of Hearts» (Dronningen), coescrito com Maren Louise Käehne, transformou uma história de transgressão num dos dramas mais disciplinados do cinema escandinavo recente e fez de el-Toukhy um nome de festival. Ela reencontra-se com Käehne aqui para uma peça de câmara passada na Dinamarca do pós-guerra: «Woman Unknown» (Kvinde ukendt) segue uma jovem ama, interpretada por Mathilde Arcel, que se prepara para casar com o seu patrão abastado enquanto guarda um segredo que pode desfazer o casamento.

A imagem importa porque a máquina por detrás dela também importa. Uma coprodução Dinamarca–Suécia–Letónia liderada pela Nordisk Film, com a TrustNordisk a gerir as vendas mundiais, o filme é um dos dois títulos realizados por mulheres numa competição há muito criticada por subselecionar mulheres. Permitir que uma faixa de legendas desfasada se mantivesse teria significado deixar distribuidores e um júri do Leão de Ouro avaliar uma versão degradada da própria obra que se pretende vender no estrangeiro.

Interromper uma estreia é uma aposta que pode ser lida como diva ou como catástrofe. Esta foi lida como autoridade. A ovação de 7 minutos e meio chegou depois da interrupção, não apesar dela — a sala acabara de ver uma cineasta recusar-se a deixar que o seu trabalho fosse deturpado na única sala onde o seu futuro comercial e de prémios é decidido.

Do Lido, o filme viaja para Toronto antes de estrear nos cinemas dinamarqueses no início do próximo ano. Numa competição onde a legenda decide silenciosamente que filmes podem cruzar fronteiras, el-Toukhy simplesmente recusou-se a deixar que a sua cruzasse mal.

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