Música

Bilhetes da cantora Raye no Royal Albert Hall: os bots entraram pela falha da lei britânica

Alice Lange
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Raye resolveu um problema de software à maneira mais antiga que há: pôs pessoas a ler a lista. Perante as inscrições para o seu espetáculo único no Royal Albert Hall, que, segundo a cantora, foram inundadas por cambistas com bots de IA, a equipa abandonou o sistema habitual de pré-venda e analisou manualmente os registos, à procura de verdadeiros fãs.

Assim, conseguiu enviar os códigos. Mas também tornou evidente uma falha na longa luta do Reino Unido contra os cambistas. Usar bots para contornar os limites de compra de bilhetes já é crime no país, e o governo está a preparar uma proibição da revenda acima do valor facial. Mas nenhuma destas medidas foi pensada para o momento em que este ataque aconteceu: a lista de inscrições, antes de estar à venda um único bilhete.

Inscrições inundadas antes do início das vendas

É difícil contestar o número divulgado por Raye: 1,8 milhões de inscrições para uma sala com 5.000 lugares — cerca de 360 inscrições por cadeira. «Infelizmente, o nosso processo de inscrição foi inundado por cambistas, que usaram bots de IA para criar centenas de milhares de registos falsos», escreveu nas redes sociais. «Vivemos num mundo novo; nunca tinha visto bots a esta escala.» A contagem de bots é uma alegação da própria Raye; a cobertura noticiosa não apresentou qualquer análise independente.

A pressão prolongou-se durante a própria venda. Segundo a IQ, citada pela Music Business Worldwide, o site do Royal Albert Hall recebeu 5 milhões de pedidos de acesso quando abriu a pré-venda — um dos maiores volumes de tráfego de pré-venda alguma vez registados pela sala — e os fãs não conseguiram concluir as compras durante 45 minutos. O Royal Albert Hall disse à BBC que investe fortemente na proteção dos seus sistemas contra «ataques automatizados». Em 2024, afirmou ter bloqueado mais de 38 milhões de pedidos de bots num único período de 24 horas.

A página de inscrições era gerida pela Drops, um produto da plataforma de marketing para fãs co:brand. A declaração de Raye não identificou a empresa, que se recusou a comentar à Music Business Worldwide.

O Reino Unido já proibiu os bots — no momento da compra

Em 2018, o Reino Unido passou a considerar crime a utilização de software para contornar os limites de venda de bilhetes com fins lucrativos. «A partir de hoje, tenho o prazer de anunciar que conseguimos proibir os bots», afirmou Margot James, então ministra responsável pela área digital, enquanto o departamento da Cultura anunciava que «a maré está agora a virar-se contra os cambistas». A lei visa o software utilizado para concluir qualquer etapa do processo de compra de bilhetes com o intuito de adquirir mais do que o limite permitido. Não menciona inscrições nem registos. O texto não esclarece se inundar uma lista de pré-venda conta como parte da compra de um bilhete.

A medida mais recente visa o dinheiro. O projeto de lei Ticket Tout Ban Bill, apresentado no Discurso do Rei em maio, tornaria ilegal a revenda acima do valor facial, limitaria as comissões das plataformas e impediria que as pessoas revendessem mais bilhetes do que aqueles que tinham direito a comprar. Reduzir os lucros da revenda ataca o incentivo, e o próprio crime previsto na lei de 2018 é definido pela intenção de ganhar dinheiro. Mas o projeto ainda está em fase de preparação e terá de passar por consulta e escrutínio antes de chegar ao Parlamento. Quando os ministros consultaram pela primeira vez o setor sobre a revenda, a UK Music pediu «controlos muito mais rigorosos» sobre os bots; as principais medidas continuaram centradas na revenda.

A indústria musical perdeu a paciência com a lentidão do processo. Tom Kiehl, da UK Music, classificou a inação do governo como «uma traição a milhões de fãs de música», e Annabella Coldrick, do Music Managers Forum, alertou que «novos atrasos terão um custo elevado para os fãs». Esta semana, o Royal Albert Hall foi direto ao assunto: «Os artistas e as salas de espetáculos estão a fazer tudo o que podem para proteger os fãs, mas não conseguimos resolver este problema sozinhos. A lei tem de acompanhar a dimensão e a sofisticação da indústria da revenda de bilhetes.» O Department for Culture, Media and Sport afirmou continuar «totalmente empenhado em acabar de vez com a revenda de bilhetes».

Uma solução que serve para uma sala

A resposta de Raye é adequada à fase em que se encontra na carreira. Deixou a editora, tornou-se independente e transformou My 21st Century Blues num álbum que lhe valeu um recorde de seis Brit Awards em 2024; este verão, foi uma das cabeças de cartaz do Reading and Leeds. Uma artista independente que só tem uma sala para encher pode pedir à sua equipa que se sente a ler uma lista. O espetáculo, This Symphony May Contain Hope, é uma noite única construída em torno do seu segundo álbum, This Music May Contain Hope, que chegou ao topo das tabelas, e marca o regresso à sala onde o seu concerto orquestral de 2023, depois de filmado, lhe valeu uma nomeação para os Grammy.

Uma lista restrita, verificada à mão, funciona para 5.000 lugares. Não é um sistema, e Raye não fingiu que fosse. «Não sei o que o futuro reserva para a bilhética, mas sei que esta experiência me abriu verdadeiramente os olhos», afirmou. «Eu e a minha equipa vamos pensar muito bem no que poderemos fazer no futuro.» O que quer proteger é simples: «É muito importante para mim que os fãs possam comprar bilhetes ao valor facial.»

Como são vendidos os bilhetes restantes

As inscrições encerraram na segunda-feira, 12 de outubro. Os fãs selecionados receberam por email uma ligação e um código para a pré-venda às 11h45 BST de terça-feira, 13 de outubro, e a pré-venda foi adiada duas horas. Os bilhetes restantes serão postos à venda ao público em geral na quinta-feira, 15 de outubro, às 10h BST, segundo a Live Nation UK. O concerto, promovido pela Metropolis Music, realiza-se no Royal Albert Hall a 23 de outubro.

Oito anos depois de Westminster ter anunciado que os bots estavam proibidos, a ferramenta anti-bots mais eficaz num dos espaços mais famosos de Londres foi uma equipa a ler manualmente a lista de inscrições.

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