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Neena Gupta, da escola de teatro de Deli ao regresso aos 60 anos com Badhaai Ho

Penelope H. Fritz
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Neena Gupta
Neena Gupta
Photo: Bollywood Hungama / CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
Nascimento4 de junho de 1959
India
OcupaçãoAtriz e realizadora
Conhecido porGandhi, Badhaai Ho, 83
PrémiosNational Film Award for Best First Non-Feature Film of a Director · 2 National Film Award for Best Supporting Actress · Filmfare Critics Award for Best Actress · Screen Award for Best Actress · Filmfare OTT Award for Best Supporting Actress, Comedy Series

Não havia assessor de imprensa nem filme para promover. Na sua conta de Instagram, Neena Gupta escreveu que vivia em Bombaim, que era uma boa atriz e que procurava bons papéis. Quem assinava a mensagem tinha dois National Film Awards, uma filmografia com passagem pela Merchant Ivory e o melhor resultado do seu curso na National School of Drama, em Nova Deli. Ainda assim, confessava a desconhecidos que o telefone deixara de tocar. O que se seguiu é a segunda vida mais improvável do cinema hindi contemporâneo, e deixa uma pergunta que a indústria nunca respondeu por inteiro: porque foi precisa uma súplica pública para que alguém olhasse a sério para ela?

A resposta começa longe dos estúdios. Gupta cresceu em Karol Bagh, bairro de Nova Deli, filha de um quadro da State Trading Corporation e de uma professora com dois mestrados. Tudo apontava para a carreira académica: na Universidade de Deli concluiu um mestrado e um MPhil em sânscrito, com uma tese sobre as técnicas cénicas do teatro sânscrito, e abandonou o doutoramento a meio, depois de um desentendimento com o orientador. Foi o amigo Satish Kaushik quem a convenceu a entrar na National School of Drama, onde estudou com Ebrahim Alkazi e B. V. Karanth e terminou o curso como a melhor aluna da turma.

No papel, os primeiros anos de carreira compõem o currículo de autor com que sonha qualquer estudante de teatro. Foi a sobrinha do Mahatma em Gandhi, de Richard Attenborough, trabalhou com Shyam Benegal em Mandi e na série histórica Bharat Ek Khoj, foi a secretária de Pankaj Kapur na sátira Jaane Bhi Do Yaaro, de Kundan Shah, e entrou no universo Merchant Ivory com The Deceivers, In Custody e Cotton Mary. A Bollywood comercial usava-a de outra forma. Em Khal Nayak surgia ao lado de Madhuri Dixit na canção «Choli Ke Peeche», mais adorno do que personagem. Era esse o tipo de proposta que continuava a chegar.

Segundo a própria, a razão estava fora do estúdio. No final dos anos 80 manteve uma relação com o jogador de críquete das Índias Ocidentais Viv Richards, que era casado, e decidiu criar sozinha a filha de ambos, Masaba, nascida em 1989. A imprensa sensacionalista nunca a largou. «A minha vida pessoal acabou por definir a minha vida profissional», disse anos mais tarde, ao recordar uma longa série de vilãs e mulheres fatais e quase nenhum papel comum. Na autobiografia Sach Kahun Toh, publicada pela Penguin Random House India em 2021, conta que Satish Kaushik se ofereceu para casar com ela durante a gravidez. Recusou, e hoje descreve a proposta como uma ternura disfarçada de brincadeira.

Não ficou à espera de que os guiões mudassem. Passou para trás da câmara, e a sua curta-metragem Bazaar Sitaram venceu o National Film Award para a melhor primeira obra de não ficção de um realizador. Na mesma edição, a jovem viúva de Woh Chokri valeu-lhe o prémio de melhor atriz secundária. Na televisão realizou e protagonizou o drama conjugal Saans, realizou Siski, apresentou Kamzor Kadii Kaun, a versão indiana de O Elo Mais Fraco, e chegou ao grande público com Jassi Jaissi Koi Nahin.

Depois veio a publicação. Gupta conta que lhe trouxe cinco propostas e que aceitou todas. Uma delas era Badhaai Ho, de Amit Sharma, estreado em 2018, em que interpreta Priyamvada Kaushik, uma mãe de meia-idade de Deli cuja gravidez inesperada envergonha os filhos já adultos. A comédia ultrapassou os 221 crore de rupias em todo o mundo, cerca de 32 milhões de dólares. Saibal Chatterjee, crítico da NDTV, classificou o seu trabalho como «extraordinariamente comedido», e venceu o Filmfare da crítica para melhor atriz. Aos 60 anos, tornou-se a segunda nomeada mais velha de sempre para melhor atriz nos Filmfare, apenas atrás de Sharmila Tagore.

O streaming transformou o regresso numa obra. Como Manju Devi, a chefe eleita de uma aldeia cujo marido governa em seu nome, em Panchayat, série da TVF para a Prime Video, ganhou dois Filmfare OTT Awards. Em Masaba Masaba, da Netflix, interpretou uma versão de si própria ao lado da filha. Uunchai, de Sooraj Barjatya, um drama de caminhada nos Himalaias com Amitabh Bachchan, Anupam Kher e Boman Irani, deu-lhe em 2024 o segundo National Film Award para melhor atriz secundária, três décadas depois do primeiro. O thriller Abate, ao lado de Sanjay Mishra, valeu-lhe uma nomeação para o Filmfare da crítica.

Este regresso tem, no entanto, uma forma precisa, e ela não abona a favor da indústria. Quase todos os papéis são mães, sogras, avós ou esposas: a mãe de Kapil Dev em 83, a mãe da protagonista em Panga, uma matriarca atrás de outra. Gupta torna essas personagens mais afiadas do que estão escritas, e Badhaai Ho resultou porque, durante boa parte do filme, tratou o desejo de uma mulher madura como tema e não como anedota. Ainda assim, o meio que antes a arquivava como vamp arquiva-a agora como matriarca, e o alcance que mostrou em Woh Chokri ou Abate continua a ser a exceção. A série mais recente confirma-o por outro ângulo: Shilajit Mitra, da The Hollywood Reporter India, leu Chumbak: A Boa Vizinhança como um regresso às sitcoms da televisão generalista, como Khichdi ou Sarabhai vs Sarabhai, sintoma daquilo a que chamou «a televisualização do streaming indiano».

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A série chegou à Netflix em duas partes, a 10 de setembro e a 1 de outubro de 2026: dezasseis episódios escritos e realizados por Aatish Kapadia e produzidos por Jamnadas Majethia, em que Gupta e Deven Bhojani interpretam um casal idoso que se divorciou e continua a partilhar a casa por pura gentileza. No início do ano, Abate 2, sequela espiritual realizada por Jaspal Singh Sandhu com personagens novas, deu-lhe o papel de uma reclusa condenada por um duplo homicídio que garante não ter cometido; o filme estreou nas salas a 6 de fevereiro e passou para a Netflix em abril. Em 2025 foi a protagonista da comédia familiar Aachari Baa e integrou o elenco de Metro… In Dino, de Anurag Basu.

Longe da rodagem, casou-se em 2008 com o contabilista Vivek Mehra, e em outubro de 2024 Masaba e o ator Satyadeep Misra fizeram dela avó.

A próxima paragem é Phulera. A Prime Video confirmou uma quinta temporada de Panchayat, que arranca depois de o campo de Manju Devi ter perdido as eleições da aldeia por 73 votos, ainda sem data, e a comédia Pachhattar Ka Chhora, com Randeep Hooda, continua à espera de estreia. Para uma atriz que um dia teve de pedir bons papéis, o desafio é agora mais estreito: que alguém em Bombaim lhe escreva uma protagonista que não seja a chefe de família.

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