Ciência

Meteorito de Marte encontrado no Sara formou-se há pelo menos 4,1 mil milhões de anos

Peter Finch
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Uma pedra cor-de-rosa que prospetores recolheram no deserto do Sara revela-se afinal um pedaço de Marte formado há mais de quatro mil milhões de anos, quando o planeta era ainda suficientemente jovem para ter água a circular através das suas rochas. O meteorito, batizado Teghaza 001, é um único fragmento intacto de crosta marciana antiga, e a sua química não corresponde a nenhuma rocha de Marte que os cientistas tenham estudado até hoje.

Isso faz dele algo muito próximo de uma visita de estudo. Cada rover enviado a Marte explorou apenas um punhado de locais de aterragem, e quase todos os meteoritos marcianos que existem na Terra provêm de rocha vulcânica jovem. O Teghaza 001, pelo contrário, parece ter origem nas terras altas do sul, crivadas de crateras, o terreno mais antigo do planeta, uma região onde nenhuma sonda alguma vez pousou.

«Este é realmente o nosso primeiro pedaço de crosta marciana de uma parte de Marte da qual nunca tínhamos tido uma amostra», afirmou Lee Saper, que surge em segundo lugar na lista de autores do estudo, realizou o trabalho durante um pós-doutoramento no Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA e é hoje cientista no Ames Research Center da NASA. A autora principal, Yang Liu, do JPL, conta que um dos revisores do artigo chamou à rocha «uma Pedra de Roseta para Marte».

As conclusões, publicadas na revista Science por uma equipa do JPL, do Caltech, da UCLA, da University of New Mexico e da University of Maine, descrevem o Teghaza 001 como uma rocha ígnea de arrefecimento lento, um diorito gabroico, que cristalizou a partir de magma nas profundezas da crosta. A combinação de minerais, a textura e a química distinguem-no dos cerca de 435 meteoritos de Marte conhecidos.

Como um grão minúsculo de zircão permitiu datar um pedaço de Marte

À primeira vista, a rocha não parecia especial. Investigadores do Institute of Meteoritics da University of New Mexico confirmaram a sua origem marciana através dos isótopos de oxigénio, a impressão digital química que distingue o material proveniente de diferentes corpos planetários. Parecia um shergottito, a classe mais comum de meteorito marciano. Carl Agee, que dirige o instituto, reparou que os seus valores de oxigénio se assemelhavam aos do NWA 7034, o célebre meteorito marciano conhecido pela alcunha de Black Beauty («Beleza Negra»), e que algumas zonas eram ricas em óxido de manganês.

Liu esteve quase a pôr a amostra de lado. Quando a examinou, encontrou texturas invulgares e algo que mudou o rumo do projeto: zircão, um mineral resistente que retém urânio e chumbo quando cristaliza. Como o urânio decai em chumbo a um ritmo conhecido, o zircão funciona como um relógio natural. As medições de zircão feitas pela equipa apontaram para uma idade de cerca de 4,11 mil milhões de anos, com uma incerteza de apenas cerca de 13 milhões de anos.

Um segundo relógio, independente, veio do Caltech. O laboratório de François Tissot, em colaboração com Alicia Cruz-Uribe, da University of Maine, usou um feixe laser com cerca de um sexto da espessura de um cabelo humano para abrir minúsculas cavidades em grãos de feldspato e medir o rubídio e o estrôncio diretamente no interior de um espectrómetro de massa. Cada disparo do laser demora menos de um minuto, e a análise usou um fragmento mais pequeno do que uma unha, pelo que o resto desta rocha rara fica preservado para trabalhos futuros. Esse método deu cerca de 4,24 mil milhões de anos, com uma margem de erro mais larga, de aproximadamente 200 milhões de anos, que se sobrepõe ao resultado do zircão.

«Acho que chegámos mesmo a saltar de alegria; foi uma autêntica festa de dança no laboratório», contou Cruz-Uribe sobre o momento em que chegaram os primeiros resultados.

Apenas duas outras rochas marcianas se lhe comparam

A maioria dos meteoritos marcianos é geologicamente jovem, tipicamente com algumas centenas de milhões de anos, o que significa que descrevem um planeta já frio e seco. Só dois outros têm mais de quatro mil milhões de anos. O ALH84001, encontrado na Antártida na década de 1980, tem aproximadamente a mesma idade, mas é composto quase inteiramente por um único mineral, o que limita aquilo que pode revelar. O Black Beauty contém fragmentos de idade semelhante, mas estão misturados numa brecha, uma rocha formada a partir de pedaços partidos e retrabalhada pelo calor e por impactos ao longo de mais de mil milhões de anos.

«O Teghaza 001 é um único tipo de rocha, sem qualquer mistura, e tem 4,1 mil milhões de anos ou mais, por isso foi uma grande surpresa», afirmou Agee num comunicado da University of New Mexico.

Para se ter uma noção da escala, o próprio Marte tem cerca de 4,5 mil milhões de anos, pelo que esta rocha remonta às primeiras centenas de milhões de anos do planeta. Liu sublinha que a pedra é mais antiga do que as rochas intactas mais antigas da Terra, onde a tectónica de placas enterrou e reciclou quase toda a crosta original. Marte perdeu esse tipo de agitação geológica há muito tempo, e é por isso que a sua história primitiva sobrevive em fragmentos como este.

Para descobrir de onde poderá ter vindo a rocha, a equipa comparou a sua mineralogia e química com dados orbitais da Mars Reconnaissance Orbiter da NASA. Identificou 13 locais com uma assinatura correspondente, a maioria nas antigas terras altas do sul.

Água, e uma atmosfera que já se escapava para o espaço

A rocha regista também contacto com água. Alguns dos seus minerais foram alterados, e os isótopos de oxigénio mostram que reagiu com fluidos enriquecidos em oxigénio pesado antes de um impacto a projetar para fora do planeta. Um artigo complementar de Saper, Liu e colegas, publicado na Science Advances, mediu a água e os isótopos de hidrogénio nos seus minerais de fosfato. O hidrogénio pesado, o deutério, acumula-se quando um planeta perde hidrogénio leve para o espaço. A equipa concluiu que o reservatório de água de Marte nessa época já apresentava uma razão entre deutério e hidrogénio pelo menos cerca do dobro da registada na água do mar da Terra.

Em termos simples, Marte já estava a perder a sua atmosfera e a sua água para o espaço há mais de quatro mil milhões de anos. «Regista interações entre a água e a rocha e talvez até uma marca da atmosfera marciana na altura em que estava a perder água», afirmou Saper.

A rocha ajuda também a responder a uma questão mais profunda. A sua química aponta para uma fonte no manto diferente da que alimentou os shergottitos comuns, o que sugere que o interior de Marte era mais variado do que a coleção de meteoritos deixava supor.

O que a rocha ainda não nos consegue dizer

Ninguém sabe exatamente de onde veio o Teghaza 001. Os 13 locais candidatos são coincidências de assinatura mineral, não uma cratera de lançamento confirmada, e um meteorito não traz morada. «Marte é um planeta complexo e este meteorito é mesmo fantástico, mas não sabemos exatamente de onde veio, por isso este é mais um exemplo de por que precisamos de trazer amostras», disse Anya Udry, especialista em ciência planetária da University of Nevada, Las Vegas, que não participou no estudo.

A idade é um mínimo. Os relógios urânio-chumbo, chumbo-chumbo e rubídio-estrôncio estão de acordo, mas a equipa admite que todos podem ter sido reiniciados por um episódio de aquecimento há cerca de 4,1 mil milhões de anos. Nesse caso, a rocha terá cristalizado originalmente ainda mais cedo.

A Terra também deixou a sua marca. O meteorito esteve no Sara antes de alguém o encontrar, e a NASA observa que parte do carbonato, do sulfato e da argila de grão fino presentes na rocha se formou na Terra. Separar a meteorização do deserto da alteração marciana antiga faz parte da análise, e as zonas ricas em manganês detetadas por Agee são uma pista sobre ambientes passados, não uma prova de vida. Trata-se, além disso, de uma única rocha. Uma só amostra pode abrir uma janela, mas não consegue cartografar um planeta.

Perguntas frequentes sobre o Teghaza 001

Que idade tem o meteorito Teghaza 001?

Os cristais de zircão no seu interior indicam uma idade de cerca de 4,11 mil milhões de anos, e uma medição independente por rubídio-estrôncio está de acordo dentro das respetivas margens de erro. Como um episódio de aquecimento posterior pode ter reiniciado esses relógios, a rocha formou-se há pelo menos 4,1 mil milhões de anos, e possivelmente antes.

Como se sabe que um meteorito vem de Marte?

Os cientistas medem os isótopos de oxigénio, que variam de corpo planetário para corpo planetário, e comparam os minerais e a química com dados das missões a Marte. O gás aprisionado em alguns meteoritos marcianos corresponde até à atmosfera medida pelas sondas Viking da NASA.

Qual é o meteorito marciano mais antigo de sempre?

O Teghaza 001 é um dos apenas três meteoritos marcianos com mais de quatro mil milhões de anos, a par do ALH84001 e do Black Beauty. O ALH84001 tem uma idade próxima, mas é formado quase por um único mineral, e o Black Beauty é uma mistura de fragmentos, pelo que o Teghaza 001 é a amostra intacta mais nítida da crosta primitiva encontrada até agora.

O meteorito Teghaza 001 prova que houve vida em Marte?

Não. Mostra que a água alterou rochas da crosta antiga e que Marte já estava a perder hidrogénio para o espaço. São condições que os cientistas estudam quando se perguntam se a vida terá sido possível, mas a rocha não contém qualquer prova de vida.

O que se segue

O meteorito foi encontrado em 2022 e recebeu o nome da planície salgada de Teghaza, no Mali. O maior fragmento, de 442 gramas, pertence ao Maine Mineral & Gem Museum, em Bethel, que emprestou outro fragmento para que o trabalho possa continuar no Caltech e na University of Maine. O estudo sobre a idade foi publicado na Science a 29 de outubro de 2026, depois do estudo sobre a água, publicado na Science Advances em junho. Liu diz que a sua equipa «apenas arranhou a superfície», e os 13 locais candidatos oferecem aos futuros orbitadores e sondas de aterragem uma lista curta de lugares onde o resto desta crosta antiga poderá ainda estar à espera.

Referência: Liu et al., “A Martian meteorite that formed ≳4.1 billion years ago samples Mars’ early crust and mantle,” Science, 2026. DOI: 10.1126/science.adz5646

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