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Mundial 2026, Grupo A: o México de Aguirre foi construído para resistir, não para vencer

Dois jogos sem sofrer, seis pontos e a liderança do grupo. A análise, porém, expõe uma equipa desenhada para não conceder — e que ainda não mostrou saber abrir uma defesa intacta.
Kenji Nakamura

O golo que apurou o México não começou com uma ideia mexicana. Começou com um cruzamento que se transformou em cabeceamento brando, com um guarda-redes que subiu por cima do próprio defesa e com a bola a sobrar na pequena área. Luis Romo fez o que qualquer avançado faz com uma oferta — encostou para a baliza deserta — e a equipa de Javier Aguirre tinha o único golo de que precisava frente à Coreia do Sul. Reconstitua-se, contudo, a jogada de trás para a frente e não se encontra nela qualquer padrão mexicano: nem a tabela ensaiada, nem a desmarcação que desorganiza a defesa, nem o terceiro homem a surgir no momento certo. Há um erro coreano e há um jogador colocado no metro quadrado exato para o castigar.

Importa demorar-se neste ponto, porque é a segunda vez numa semana que sucede precisamente o mesmo. O México lidera o Grupo A com o pleno de pontos e duas balizas a zero, primeira selecção do Mundial a garantir o apuramento. Na tabela, lê-se como um candidato a instalar-se na prova. No relvado, lê-se como uma equipa que ainda não foi obrigada a responder à única pergunta que decide o futebol a eliminar: como se marca quando o adversário não oferece o golo?

Vale a pena observar de onde vieram os golos mexicanos. O primeiro, frente à África do Sul, surgiu dentro de um jogo já desfeito no caos — três expulsões, dez contra nove, a estrutura do encontro perdida antes da hora. Julián Quiñones e Raúl Jiménez resolveram-no, mas um dez contra nove não testa a capacidade de quebrar um bloco organizado; testa quem se mantém de pé sobre os escombros. Diante da Coreia, a estrutura aguentou, ambas as equipas mantiveram os onze e, durante uma hora, o México não encontrou caminho. A primeira parte terminou sem golos e o público de Guadalajara não o escondeu ao intervalo. O desbloqueio, quando chegou, não foi construído. Foi concedido.

Nada disto resulta do acaso, e é justamente esse o argumento. É o produto lógico da forma como Aguirre desenhou a equipa. O México organiza-se num 4-1-4-1 concebido para negar espaço e não para o fabricar: um único trinco a proteger a defesa, duas linhas que comprimem o meio-campo e — o traço definidor — uma linha defensiva audaciosamente subida, que empurra todo o bloco e desafia o adversário a jogar nas costas. Frente à Coreia funcionou exatamente como no quadro táctico. Vezes sem conta a linha subiu em conjunto e deixou os coreanos em fora-de-jogo; o melhor momento de Son Heung-min, uma irrupção na área com o remate defendido, foi de qualquer modo anulado pela bandeirada. O México não sofreu em dois jogos porque a estrutura está pensada, antes de mais, para não sofrer.

O problema é que a linha alta não é um instrumento de sentido único. É a aposta mais honesta do futebol: troca-se profundidade por compactação, apostando que os defesas lêem o sinal mais depressa do que os avançados cronometram a desmarcação. A Coreia, sem um ponta de lança suficientemente fino para segurar a última linha, foi sendo apanhada. Um ataque superior — do tipo que aguarda no quadro a eliminar — não é apanhado. Espera a meia fracção de segundo em que a linha hesita e já está nas costas; e então a mesma estrutura que produziu dois nulos produz um frente a frente em sentido contrário. O mecanismo que tem sido a força do México é também o lugar preciso onde um adversário mais forte irá apontar.

E quando isso acontecer — quando o jogo permanecer equilibrado e a oferta não chegar — o México terá de fazer aquilo que ainda não fez na prova: construir um golo. Aqui as provas são escassas. Jiménez segurou a referência com convicção, mas quase sem fornecimento; a sua melhor ocasião, um cabeceamento, subiu sem perigo e tornou-se problema do guarda-redes, não pesadelo. Obed Vargas progrediu e viu um remate defendido, mas o meio-campo raramente surgiu nos espaços entre as linhas coreanas, onde um criador faz estragos. Houve empenho e houve posse de bola, e houve muito pouco do padrão que converte controlo em ocasião flagrante. Durante longos períodos o México circulou a bola à frente do bloco, não através dele.

O dado mais revelador do encontro não estava na frente. Estava em Raúl Rangel que, com vinte minutos por jogar e a Coreia finalmente a lançar gente, executou uma dupla defesa para manter a vantagem e depois viu um cabeceamento passar rente nos descontos. Uma equipa que vence amparada nos reflexos do seu guarda-redes tem um guarda-redes a quem agradecer; não tem, ainda, um ataque em quem confiar. O jogo sem golos sofridos é real e constitui uma força genuína — defender é uma competência, e o grupo de Aguirre defende em bloco melhor do que qualquer México em anos. Mas não sofrer mantém-no apenas empatado. Não ganha uns quartos-de-final.

Sobrevive, então, o estatuto de favorito? Nos pontos, sim — o México está apurado, lidera o grupo, e seis pontos não se contestam. A discussão é sobre de que são feitos esses seis pontos. Duas vitórias de Mundial sustentadas numa avalancha de expulsões e numa colisão de guarda-redes dizem muito sobre disciplina e sangue-frio e muito pouco sobre a capacidade de agarrar um jogo renhido. O anfitrião construiu algo difícil de bater. Se construiu algo capaz de vencer três eliminatórias seguidas, quando nenhum adversário oferece o golo, é outra questão — e é precisamente aquela que a fase de grupos, com toda a delicadeza, se absteve de colocar.

É a tese, formulada com a justiça que o jogo consente, contra ler o arranque mexicano como uma declaração de intenções. A contra-tese é simples e não despicienda: vencer sem brilho é uma competência de torneio, as grandes selecções vão moendo a fase de grupos e crescem na fase a eliminar, e quem não sofre está sempre a um lance de avançar. Ambas podem ser verdade. Mas quem analisa observa o mecanismo, e não o resultado, e o mecanismo do México aponta, por agora, numa só direcção — manter a porta fechada. Mais cedo ou mais tarde, um Mundial obriga a abrir uma. Pela evidência de dois jogos, é justamente a parte do projecto que Aguirre ainda não traçou.

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