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Espanha, Portugal e Suíça seguem em frente no Mundial 2026: na ronda dos 32, o relógio parou para Modrić e arrancou para Yamal

Jack T. Taylor

Há um ruído que nunca abandona quem esteve dentro do campo aos quarenta anos: o do próprio corpo a negociar com o tempo. Nesta ronda dos 32 do Mundial 2026, dois homens dessa idade partilharam o mesmo dia, em extremos opostos do arco de uma carreira. Um foi empurrado para diante pela própria equipa. O outro carregou a sua às costas até já não haver mais chão por onde caminhar.

Portugal venceu a Croácia em Toronto por um golo de diferença, e essa margem estreita conta a história com mais honestidade do que qualquer goleada alguma vez contaria. Do outro lado do continente, em Los Angeles, a Espanha soltou finalmente um rapaz de dezoito anos e viu aquilo que sempre desconfiou possuir. Em Vancouver, a Suíça fez o que a Suíça faz: controlou, organizou e mandou a Argélia para casa sem estardalhaço. Três jogos, três verdades, e por baixo de todas o mesmo tiquetaque.

Modrić despede-se, Ronaldo é conduzido em frente

Luka Modrić tem quarenta anos, continua a jogar no Milan e continuou a marcar o compasso do encontro em Toronto como quem lê o tempo por dentro. O problema não foi aquilo que fez — foi que a Croácia inteira dependia disso. A geração de ouro, a da final de 2018 e da meia-final de 2022, chegou a esta noite com um plano único: dar a bola a Modrić e esperar que os quarenta anos dele chegassem. Não chegaram, e a culpa não é sua. É de todos os outros que precisaram que ele fosse eterno.

Do lado português, Cristiano Ronaldo — também de quarenta — foi levado à fase seguinte por uma equipa que ainda o venera sem depender apenas dele. Portugal ganhou. Portugal avança. Mas a pergunta segue viagem na bagagem: até onde se pode ir apoiado nos momentos de um talismã, em vez de num plano que lhe sobreviva? Foi uma vitória por um golo, e as vitórias por um golo são exames. Portugal passou este. Virão provas mais exigentes.

Para Modrić, era o quinto Mundial, e o último. Não há continuação para escrever, não há ciclo seguinte. Fez o que sempre fez — viu o campo em câmara lenta enquanto todos corriam — e ainda assim o relógio apanhou-o. A saída da Croácia é a saída de uma era, e sai pela porta do seu capitão.

Yamal é libertado e a Espanha mostra o que tem

Lamine Yamal tem dezoito anos e uma lesão de abril na coxa que lhe roubou boa parte da fase de grupos. O comando técnico espanhol racionou-o, minuto a minuto, como quem guarda a última bala. Frente à Áustria, no SoFi Stadium, deixaram-no à solta — e ele desmontou, peça a peça, a pressão que Ralf Rangnick tinha desenhado especificamente para o travar. Há algo de cruel na cena: um treinador ergue um sistema inteiro para parar um adolescente, e o adolescente atravessa-o como se o sistema ali não estivesse.

A Espanha tinha tropeçado antes, num empate morno a um golo diante de Cabo Verde que acendeu dúvidas. Com Yamal inteiro, essas dúvidas parecem de outra equipa. Mikel Oyarzabal acrescentou o terceiro já perto do fim, o tipo de golo que transforma um jogo controlado numa declaração. A mensagem para o resto do torneio é simples e incómoda: o único problema real da Espanha era a saúde de um rapaz, e o rapaz regressou.

É o outro extremo do arco. Onde Modrić mede quanto ainda lhe resta, Yamal ainda nem começou a contar. O seu relógio acabou de ser ligado, e o Mundial é o palco em que ele descobre, em tempo real, até onde consegue ir antes que alguém — ou o próprio corpo — o obrigue a abrandar.

A Suíça chega por baixo do radar e não larga

Granit Xhaka é o jogador com mais internacionalizações pela Suíça e um antigo capitão, e em Vancouver executou o trabalho invisível de quem controla o pêndulo do jogo sem precisar de aparecer. Breel Embolo e Dan Ndoye marcaram. A Suíça venceu por dois a zero, mas o resultado quase não importa: importou a sensação de uma equipa que sabe sempre onde está a bola e onde ela deveria estar.

A Argélia disputava o primeiro Mundial desde 2014, tendo entrado como um dos melhores terceiros classificados, ao sabor dos momentos tardios de Riyad Mahrez na fase de grupos. Chegou a Vancouver a correr e embateu numa equipa mais bem organizada. As Raposas do Deserto encerram aqui um percurso que já era, por si só, um pequeno milagre — e nada disso apaga o mérito de terem regressado.

A Suíça, entretanto, faz o que melhor sabe: ser subestimada e difícil de bater. Não há estrela de quarenta anos para venerar nem prodígio de dezoito para soltar. Há um colectivo que respeita o relógio de outra maneira — poupando cada minuto, sem desperdiçar nenhum.

No fim da ronda, o que fica é uma única imagem. Um Mundial é um relógio. Parou para Modrić, continuou a andar para Ronaldo e arrancou para Yamal. Três equipas avançam; três histórias sobre o tempo. E o tempo, como sempre, não pede licença a ninguém.

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