Análise

O humorista Billy Crystal estreia 860 na Broadway sem Rob Reiner, o amigo que lhe deu nome

O espetáculo a solo de Billy Crystal na Broadway sobre a casa que perdeu em Palisades tem o nome escolhido por Rob Reiner, morto antes da estreia. Na CBS, Crystal disse que o riso cura e que já não confia em Deus. A MCM lê as duas frases como uma só resposta.
Molly Se-kyung
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Billy Crystal construiu uma comédia em torno de uma casa que já não existe. No palco do Imperial Theatre, na Broadway, ergue-se uma réplica do seu escritório, e todas as noites entra nele para contar ao público o que havia na divisão verdadeira antes de o fogo a levar. O título é o número da rua que estava na fachada daquela casa, e foi escolhido pelo seu grande amigo Rob Reiner, que teve uma morte violenta antes de o espetáculo chegar ao palco.

No CBS Sunday Morning, Crystal deu duas respostas que parecem pertencer a dois homens diferentes. Quando lhe perguntaram como encontra humor nos tempos mais negros, disse: «É o que eu faço! Tem de ser, homem.» Quando lhe perguntaram se ainda fala com Deus, respondeu: «Não, porque não confio n’Ele.» A leitura fácil vê na segunda frase a fissura da primeira, o momento em que a armadura do humorista cede. A MCM lê-a ao contrário. A desconfiança é a razão pela qual as piadas importam. Crystal deixou de esperar que alguma coisa acima dele dê sentido ao que aconteceu e ficou com o único instrumento que controla. É essa a aposta do novo espetáculo, e a noite de estreia vai pôr à prova se o instrumento aguenta uma perda que não tem remate.

Isto ultrapassa o outono de uma estrela na Broadway. A maior parte das pessoas perde uma casa, um pai ou um amigo sem um palco onde elaborar a perda, e a discussão sobre se rir dela é saudável ou uma forma de lhe fugir atravessa todas as famílias que já ouviram alguém contar a primeira piada num velório. Crystal, aos 78 anos, está prestes a ter essa discussão em público durante uma hora e quarenta minutos por noite, sem intervalo e sem maneira de mudar de assunto.

Um número de porta em vez de um título

O espetáculo chama-se 860, como o número da casa de Pacific Palisades onde Crystal e a mulher, Janice, viveram 46 anos. Quando a produção foi anunciada, em abril, Mark Kennedy, da Associated Press, noticiou que a família perdeu a casa no incêndio de Palisades que começou a 7 de janeiro de 2025, e que as filhas encontraram mais tarde, entre as ruínas, uma pedra com a palavra «Laughter» (riso) gravada. Crystal descreveu o regresso aos escombros sem floreados: «Não chorava assim desde os 15 anos, quando me disseram que o meu pai tinha acabado de morrer.»

A produção não é modesta. Segundo o BroadwayWorld, a encenação é de Scott Ellis, a música original de Marc Shaiman, a cenografia de Scott Pask, e Janice Crystal está entre os produtores. As antestreias começaram a 1 de outubro, a estreia oficial é a 21 de outubro e a temporada limitada termina a 3 de janeiro de 2027. Matt Levy, do New York Post, encontrou o bilhete mais barato a 124 dólares com taxas e contou apenas 15 das 93 sessões restantes com lugares abaixo dos 170 dólares.

O formato é familiar a quem viu o seu anterior espetáculo a solo. 700 Sundays foi buscar o título aos domingos que Crystal passou com o pai, Jack, que morreu quando Billy tinha 15 anos. Venceu em 2005 o Tony de Evento Teatral Especial, e a reposição de 2013 esteve em cena no mesmo Imperial Theatre onde agora decorre 860. Os dois títulos são números. Um conta o tempo que teve com uma pessoa; o outro assinala o lugar onde uma família o teve. O método de Crystal sempre foi dar um número ao luto e depois enchê-lo de piadas.

O amigo que escolheu o terceiro título

Crystal contou à correspondente da CBS Tracy Smith que não sabia ao certo que nome dar ao espetáculo. Como relatou Ryan Coleman, da Entertainment Weekly, tinha uma pequena lista de hipóteses: «Tinha estes outros títulos, e o terceiro era 860.» Reiner resolveu a questão. Crystal recorda a reação palavra por palavra: «É esse. Adoro. Gosto disso.»

Rob Reiner e a mulher, Michele Singer Reiner, foram encontrados mortos na sua casa de Brentwood a 14 de dezembro de 2025, como recordou Benjamin Lindsay, do TheWrap. A ABC7 noticiou em setembro que o filho do casal, Nick Reiner, enfrenta duas acusações de homicídio em primeiro grau e declarou-se inocente, que o procurador do condado de Los Angeles, Nathan Hochman, não vai pedir a pena de morte e que é pouco provável um julgamento antes de 2027. O relato do próprio Crystal sobre aquelas horas é a frase a que volta sempre: «É demasiado insano. Porque estivemos juntos na noite anterior.» Segundo conta, despediram-se por volta das 10:30 dessa noite, numa festa de Natal a que foram juntos.

Crystal já tinha feito um luto em público. Em abril, contou a Stephen Colbert, segundo o TheWrap, que fora ele a planear a homenagem alargada do In Memoriam nos Óscares, em que entrou em palco com Meg Ryan, Kathy Bates e Christopher Guest, dos filmes de Reiner. Chamou a Reiner «a pessoa mais humana que alguma vez conheci» e recordou o que o amigo lhe disse nessa última festa: «É ótimo ter êxitos, mas é às pessoas que nos agarramos.» Um espectador das antestreias escreveu no fórum do BroadwayWorld que o espetáculo inclui um elogio fúnebre a Reiner, e outro a Robin Williams. É o relato de um único espectador, e a crítica ainda não se pronunciou sobre o espetáculo.

Porque é que as duas respostas são uma só posição

A frase sobre Deus é mais concreta do que um título de jornal deixa perceber. Pressionado por Smith, Crystal explicou: «Sim. Aconteceram demasiadas coisas más.» Depois alargou o alcance: «A Terra está em mau estado, este é um tempo estranho, assustador.» Quem diz isto não está a anunciar uma teologia. Está a rescindir um contrato. Deixou de esperar que o mundo esteja ordenado de forma a redimir aquilo que tira.

A frase sobre a comédia está mesmo ao lado. «É algo que cura», disse à CBS, segundo o BroadwayWorld. «Sempre foi assim.» Quando lhe perguntaram se 860 já estava a ajudar, respondeu: «Já ajudou, porque estou a fazê-lo, e tenho estado a fazê-lo.» Shaiman, autor da música do espetáculo, descreveu-o como um reflexo e não uma escolha: «Ele não consegue deixar de encontrar o humor.»

Juntas, as duas respostas descrevem uma só disciplina. Uma piada é uma forma de escolher a ordem por que chegam as más notícias. Prepara-se, segura-se, decide-se quando a sala rebenta. Quem deixou de confiar no autor da história pode ainda reclamar o direito de a contar. É isso um espetáculo a solo: uma pessoa a controlar o tempo de cada revelação, numa réplica da divisão onde costumava escrever as piadas.

Os argumentos contra rir do luto

A objeção mais forte merece todo o seu peso. O luto que se torna número noturno é ensaiado, e o ensaio dá-lhe polimento. O riso chega na deixa, a pausa está medida, e esse polimento pode tornar-se uma maneira de não sentir aquilo que se descreve. Há uma segunda objeção, de escala. Milhares de famílias perderam a casa nos incêndios de Los Angeles de janeiro de 2025, e a maioria não tem teatro, nem compositor, nem preço de bilhete que absorva a perda; a casa de uma estrela na Broadway arrisca-se a tornar-se a história oficial do fogo. A terceira é ainda mais difícil. As mortes de Rob e Michele Reiner são um processo criminal em aberto, com um arguido que se declarou inocente, e tudo o que se disser sobre eles num palco chega enquanto os factos estão por apurar.

São posições sérias, e nenhuma foi ainda defendida por escrito a propósito deste espetáculo, porque as críticas ainda não saíram. Sairão depois de 21 de outubro. A MCM discorda das duas primeiras e entende que a terceira impõe um limite que o espetáculo deve respeitar.

Quanto ao ensaio: 700 Sundays esteve em cena durante quase uma década, do La Jolla Playhouse em 2004 à reposição na Broadway em 2013, e as piadas eram o caminho até Jack Crystal, não um muro à frente dele. A repetição não gastou o pai naquele espetáculo; tornou-o familiar para desconhecidos. Crystal apresentou 860 da mesma forma ao anunciá-lo: «Convido-vos a entrar em 860 e conto-vos todas as coisas engraçadas e comoventes que lá aconteceram.» Um convite para entrar é o contrário de uma fuga.

Quanto à escala: a objeção é justa, e o espetáculo não pretende responder-lhe. A escala é a de uma família, e é por isso que o título é uma única morada. O resumo do próprio Crystal não sai da sua vida: «Absorvi as maiores dores, aquelas por que as pessoas não conseguiriam passar, a perda da casa, dos amigos mais queridos. E estou bem.» Quanto ao processo: segundo o único relato disponível, o que está em palco é um elogio fúnebre, um amigo a lembrar um amigo. É aí que o espetáculo deve ficar, porque será o tribunal a decidir o que aconteceu em Brentwood, e uma comédia não tem de se antecipar.

Porque é que um número comporta as duas perdas

Todo o espetáculo assenta numa decisão de ofício. Reiner, um realizador que passou a vida a escolher o que o público vê primeiro, ficou com a opção que era apenas um número. Um número não diz o que sentir. Carrega uma casa e uma amizade por igual porque não explica nenhuma delas. Se Crystal tivesse dado ao espetáculo um título sobre o fogo, ou sobre sobreviver, a morte de Reiner ficaria fora do título, como um aditamento. Enquanto número de porta, absorve a segunda perda sem esforço: o amigo que deu nome à casa faz agora parte daquilo que a casa representa.

Crystal deixou de confiar no autor da sua história. Ficou com o direito de a contar.

O que está documentado e o que ainda é uma leitura

Documentado: a entrevista à CBS e as suas citações, a escolha do título por Reiner tal como Crystal a contou, os 46 anos na casa, as datas da temporada, a equipa criativa, os preços que o New York Post encontrou, e as acusações e a declaração de inocência no caso Reiner tal como a ABC7 as noticiou. Ainda por verificar: o que o espetáculo contém, além da réplica do escritório descrita pela CBS e pela Entertainment Weekly; o elogio fúnebre assenta na publicação de um único espectador das antestreias. A leitura da MCM, segundo a qual a desconfiança em Deus e a fé nas piadas são uma só posição, é uma interpretação das palavras de Crystal, não um relato da sua intenção.

Reiner ouviu três títulos e escolheu o que o levou a dizer «É esse». Escolheu um número de porta. Todas as noites, até janeiro, o amigo atravessa-a.

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