Análise

Os táxis sem condutor estrearam em Londres com um condutor. O paradoxo é a notícia

Molly Se-kyung

O mais revelador no lançamento dos táxis autónomos em Londres não é que funcionem. Funcionam: um Ford Mustang Mach-E equipado com o sistema de inteligência artificial da Wayve atravessou a cidade no início de Setembro, negociando rotundas, ciclistas e ruas que nenhum urbanista moderno teria desenhado assim, e entregou o passageiro no destino pedido. Mais de 140.000 londrinos já se tinham registado na aplicação do Uber antes do lançamento. O entusiasmo era genuíno.

O revelador é o que ocupa o banco dianteiro de cada veículo: um condutor habilitado pelo Transport for London, com obrigação legal de permanecer atento e pronto a intervir. O regulador britânico ainda não autorizou a operação completamente autónoma. O que a Wayve e o Uber lançaram é, em termos técnicos, autonomia supervisionada. Ambas as descrições são correctas. A tensão entre elas é o debate que merece ser conduzido.

A Wayve, empresa britânica de inteligência artificial por trás do sistema, adoptou uma abordagem arquitectónica distinta: a sua plataforma aprende com a experiência, como um condutor humano, sem recurso a cartografia de alta definição. A empresa captou 1,2 mil milhões de dólares numa ronda Série D em Fevereiro de 2026, com a Microsoft, a NVIDIA, o Uber, a Mercedes-Benz, a Nissan e a Stellantis entre os investidores. O argumento comercial é que um sistema capaz de se adaptar sem pré-programação pode expandir-se para novas cidades a um custo muito inferior ao dos concorrentes de primeira geração.

Se esse argumento se confirma depende do teste que se escolhe. A CBS News enviou um jornalista a um dos veículos pouco após o lançamento. O carro, inicialmente impressionante no tráfego citadino, ficou preso num beco estreito que qualquer taxista londrino experiente percorre por instinto. Um supervisor humano teve de assumir o controlo. Nem a Wayve nem o Uber contestam o episódio; descrevem-no como parte de um lançamento progressivo e responsável. A diferença entre cautela deliberada e limitação real é precisamente o que o debate sobre veículos autónomos não resolveu.

As estatísticas de segurança são o terreno mais disputado. A Waymo, subsidiária da Google que prepara o seu próprio lançamento no Reino Unido, publicou em 2026 dados que atribuem aos seus veículos 57% menos acidentes comunicados às autoridades do que os condutores humanos. Essa cifra acompanha quase todos os argumentos pró-autonomia. O que raramente a acompanha é o contexto metodológico: os veículos equipados com sistemas de condução autónoma estão sujeitos a requisitos de comunicação de incidentes muito mais exigentes do que os condutores humanos. Dados anteriores a 2021 mostravam veículos autónomos com o dobro dos acidentes por milhão de quilómetros. Em 2026, a agência americana NHTSA abriu uma investigação à Waymo e documentou a retirada de 3.871 veículos que entraram em obras interditadas.

A questão do emprego é a que menos aparece na cobertura do lançamento. O número de taxistas de cabine negra em Londres caiu de cerca de 25.000 em 2010 para aproximadamente 16.000 actualmente, um declínio que antecede os veículos autónomos e tem várias causas, incluindo a própria chegada do Uber. O sindicato GMB votou no seu congresso de 2026 para exigir protecções legais para os motoristas de táxi e TVDE face ao avanço dos veículos autónomos. A estimativa sindical aponta para 300.000 postos em risco no Reino Unido, cifra contestada e com horizonte temporal incerto. Ali Haydor, delegado do GMB e motorista de plataforma, colocou a questão mais directa de todo o debate: “Progresso para quem?”

O Uber respondeu que não há risco imediato de desemprego e que o mercado em crescimento pode absorber tanto veículos autónomos como condutores humanos. A ministra dos Transportes Heidi Alexander saudou o investimento, citando projecções de 38.000 novos empregos e uma indústria de 42 mil milhões de libras até 2035. O GMB questiona se essas projecções representam criação líquida ou substituição encoberta.

O argumento favorável aos veículos autónomos merece ser apresentado com rigor, porque não é cínico. Poderiam oferecer transporte acessível e fiável a pessoas com deficiência que o sistema actual serve de forma inconsistente. Poderiam reduzir os 1,35 milhões de mortes anuais nas estradas mundiais, causadas na grande maioria por erro humano. Poderiam acelerar a electrificação do transporte urbano que a frota actual, envelhecida e parcialmente a diesel, não consegue ao mesmo ritmo. São benefícios reais, não retórica de relações públicas.

A dificuldade é estrutural. A Wayve lançou com 15 carros numa cidade de nove milhões de habitantes. A distância entre esses números e a dimensão de frota que transformaria efectivamente a mobilidade urbana mede-se em anos e decisões regulatórias. A Waymo, que já mapeou Londres, deverá anunciar o seu calendário antes do fim de 2026. A pressão competitiva entre dois operadores bem capitalizados acelerará o lançamento a um ritmo que pode não coincidir com o das protecções laborais necessárias para gerir a transição.

O que está estabelecido — e onde a discussão ainda não terminou

O que está estabelecido: a Wayve e o Uber lançaram táxis autónomos supervisionados em Londres em Setembro de 2026, os primeiros no Reino Unido. A frota inicial é de 15 Ford Mustang Mach-E, cada um com um condutor habilitado TfL a bordo. O serviço funciona na aplicação Uber às tarifas padrão. A Wayve captou 1,2 mil milhões de dólares numa Série D em Fevereiro de 2026 com a Microsoft, a NVIDIA, o Uber e a Mercedes-Benz. O número de taxistas de cabine negra em Londres caiu de cerca de 25.000 em 2010 para 16.000 actualmente.

O que permanece por resolver: se os veículos autónomos são estatisticamente mais seguros do que os condutores humanos em condições equivalentes e a grande escala; quantos empregos a tecnologia deslocará e em que prazo; se as 38.000 novas vagas projectadas para 2035 representam criação líquida; e se a abordagem de IA incorporada da Wayve supera os sistemas baseados em cartografia nas condições que definem a viabilidade comercial real.

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