Críticas

A Cor do Dinheiro é uma sequela mais solta do que O Vigarista, e Newman justifica-a

Em 1986, Martin Scorsese devolve o velho Eddie Felson à estrada, agora como mentor de Tom Cruise.
Martha O'Hara
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Eddie Felson só volta a pegar num taco depois de passar semanas a ensinar outro homem a jogar por ele. Essa troca de lugares está no centro de A Cor do Dinheiro (1986), continuação tardia de The Hustler, realizada por Martin Scorsese e, tal como o original, baseada num romance de Walter Tevis. Paul Newman regressa como “Fast Eddie”, agora um bem-sucedido vendedor de bebidas alcoólicas em Chicago, afastado do jogo até reparar em Vincent Lauria (Tom Cruise), um jovem talentoso e ainda por lapidar. Vê-o derrotar Julian (John Turturro) no nine-ball e percebe logo o que tem à frente. Encontra-o depois a trabalhar na Child World e propõe-lhe uma sociedade: seis semanas de estrada, salões de bilhar pelo caminho e, no fim, um torneio de nine-ball em Atlantic City.

Para convencer Vincent, Eddie recorre à manipulação. Explora as inseguranças do rapaz em relação a Carmen e oferece-lhe um taco Balabushka de grande valor. É um começo pouco simpático para um mentor, e o filme não o disfarça. O parceiro que ali nasce é também um investimento, e Eddie nunca deixa de o tratar assim.

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O melhor do filme está na relação entre Newman e Cruise. Eddie tenta ensinar ao pupilo a arte de fingir ser pior do que é, levar o adversário a acreditar que pode ganhar e só depois cobrar. Vincent, que gosta de ser visto, não suporta jogar abaixo do seu nível. Na estrada, no Cadillac de Eddie, com Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio) a acompanhá-los, o mentor fica com a maior parte dos ganhos e absorve as perdas. No salão de Orvis (Bill Cobbs), velho conhecido seu, a paciência acaba. Deixa Vincent para trás, e quando regressa encontra-o em plena exibição, a derrotar o melhor jogador da casa e a afugentar um cliente bem mais rico. A conversa franca que se segue não resolve o problema. Adia-o.

Scorsese conduz esta viagem sem floreados. Eddie ensina, Vincent aprende (ou não) e o conflito volta sempre. Newman interpreta um homem que perdeu a fome mas ainda a reconhece nos outros, e o Óscar de Melhor Ator que recebeu por este papel soa a reconhecimento de uma carreira inteira, mais do que a prémio de consolação. Cruise tem a energia certa para o rapaz convencido de que já sabe tudo, sobretudo no jogo com o lendário Grady Seasons (Keith McCready), em que Vincent devia perder de propósito mas, provocado, quase não consegue conter-se. É esse quase que faz Eddie querer jogar outra vez.

O filme tem defeitos. Carmen fica subdesenvolvida, servindo mais de pretexto para atritos do que de personagem com vontade própria, e Janelle (Helen Shaver), a namorada de Eddie que se zanga com a sua partida abrupta, pouco pesa na história. Na segunda metade, a tensão entre mentor e aluno estica-se para além do necessário, e o mesmo conflito volta a aparecer, apenas noutro salão.

O desfecho é a parte mais interessante. Depois de ser derrotado por Amos (Forest Whitaker), um hustler que o humilha, Eddie deixa a Vincent e a Carmen dinheiro suficiente para chegarem a Atlantic City. Entra no torneio e vence Vincent, sem saber que o rapaz apostou nele e deixou o jogo escapar de propósito. Vincent e Carmen entregam-lhe ainda 8000 dólares, a parte que lhe cabia. Na meia-final, Eddie desiste, devolve o dinheiro e desafia Vincent para um jogo particular, declarando: “I’m back!”. Quer ganhar sem batota, e fá-lo contra o rapaz que ele próprio ensinou.

O filme chegou às salas em outubro de 1986, pela Buena Vista, e foi bem recebido pela crítica, embora houvesse quem o achasse inferior a The Hustler. É um juízo compreensível. O original era um estudo sombrio dos demónios de Eddie Felson, e esta continuação prefere ser um drama desportivo mais convencional, com menos profundidade emocional e moral. Mesmo assim, a química entre Newman e Cruise e a direção segura de Scorsese chegam para justificar a viagem.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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