Críticas

Nas Redes do Crime transforma o deepfake em motor de perseguição, mas fica a meio da sua melhor ideia

Thriller de hackers neerlandês de Annemarie van de Mond, de 2022, com Holly Mae Brood.
Martha O'Hara
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Uma hacker que se define como ética trava uma intrusão de dados num autocarro autónomo e, sem querer, deita abaixo uma rede criminosa internacional. O prémio é ficar na mira. É deste ponto de partida que Nas Redes do Crime (2022), thriller de ação e crime realizado por Annemarie van de Mond, tira a sua energia, e não é um mau ponto de partida. Um autocarro de alta tecnologia, sem condutor, no centro de um ataque informático é um cenário que qualquer pessoa que apanhe transportes públicos ou traga um telemóvel no bolso percebe de imediato.

Mel Bandison, interpretada por Holly Mae Brood, vê a vida virada do avesso. A armadilha que se fecha sobre ela é um vídeo deepfake que a “mostra” a cometer um homicídio. Quem vive de sistemas é desmentida por uma imagem fabricada, e o vídeo que nunca gravou passa a ser a prova contra si. O rótulo de hacker ética é, além disso, uma autoproclamação, o que dá à acusação uma fresta por onde entrar: quem vê o vídeo não precisa de grande esforço para desconfiar da palavra dela.

YouTube video

Um vídeo falso é fácil de perceber e trabalhoso de desmentir. Quem o vê assiste a um facto; quem o contesta tem de apresentar uma perícia técnica, e nesse confronto a confiança do público tende a ficar do lado da acusação. Depois de uma imagem falsa circular, até as verdadeiras perdem valor. O género está à vista no cartaz: ação, crime, thriller. Só que cada um desses rótulos puxa o filme para seu lado, e o argumento nem sempre consegue servir todos ao mesmo tempo.

As minhas reservas dizem respeito à quantidade de matéria que o filme despeja em cima da mesa. Uma intrusão informática, uma rede criminosa internacional, uma mulher incriminada por uma falsificação: três histórias a disputar o mesmo tempo, e cada uma exige bastante dele. A que mais se esperava ver aprofundada é a última, isto é, o que significa ser acusada de um homicídio por um rosto que parece o nosso e não é. Se a ação e a rede criminosa ocuparem o centro, o deepfake fica reduzido a pretexto da intriga, quando podia ser o seu assunto. É aí que o argumento devia ter demorado mais. O tom também pede atenção: um thriller que mistura ação, crime e um dilema de identidade tem de decidir quando acelerar e quando respirar, e é na hora de respirar que parece menos seguro.

Holly Mae Brood é a principal razão para a premissa se aguentar de pé. Mel precisa de inteligência e sangue-frio, e o papel pede à atriz que sustente uma mulher competente com a tecnologia e indefesa perante a sua própria imagem pública. É um equilíbrio difícil, porque a personagem não pode parecer nem invencível nem vítima, e a atriz segura-o melhor do que o texto à sua volta. Géza Weisz, no papel de Thomas Deen, tem presença firme, mas a personagem fica mais esboçada do que construída. À volta deles, Susan Radder (Roos), Frank Lammers (Buddy), Noortje Herlaar (Linde van Erp), Walid Benmbarek (Idriss) e Lawrence Sheldon (Rogers) têm papéis que o filme mal chega a explorar. O argumento usa estes intérpretes como funções, levados para onde a intriga precisa, e o elenco fica com pouco espaço para criar algo além disso.

A originalidade não é o forte. O filme de hackers é um género saturado, e Nas Redes do Crime percorre terreno conhecido: a protagonista brilhante e encurralada, a organização criminosa poderosa, a identidade em risco. O que o distingue são dois elementos, o autocarro autónomo e o deepfake, a que se junta uma heroína cuja palavra pesa pouco perante um vídeo forjado. É nesses pontos que o filme tem algo de seu; quando recorre aos mecanismos gastos do género, lembra muitos outros.

A privacidade digital e o uso ético da tecnologia são temas que a história toca quase por obrigação, dado o ofício da protagonista. Ficam à margem, e as consequências morais do que as personagens fazem parecem mais pretexto do que matéria a explorar. O filme não pretende ser um ensaio, e ninguém lho exige. Mas uma premissa que gira em torno da confiança nas imagens traz consigo uma pergunta, e apetece ver pelo menos que seja enfrentada, nem que seja numa única cena bem escrita.

É um filme para quem gosta de thrillers tecnológicos e não exige novidade a todo o custo. Quem vem à procura de uma reflexão sobre a era do deepfake sai com a premissa e pouco mais. Uma protagonista assim merecia um argumento mais enxuto, com menos minutos gastos na engrenagem e mais no que acontece a Mel quando um vídeo diz o contrário dela.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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