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O ‘segredo capilar’ de Matthew McConaughey é um sérum que a sua família ajuda a financiar

Jun Satō

Um homem mantém os caracóis muito depois da idade em que lhe dizem para esperar o contrário, e a internet chama-lhe segredo. Matthew McConaughey passou grande parte da vida pública a deixar o cabelo falar por si — as ondas castanhas e soltas são uma assinatura tão sua como o arrastar do sotaque —, por isso uma revelação sobre como as mantém chega como puro jornalismo de serviço. A notícia escreve-se sozinha: o ator, ainda com uma cabeleira improvável, atribui o mérito a um soro para o couro cabeludo. O que fica de fora é quem lucra quando ele o diz.

O produto é o OS-01 Hair da OneSkin, um soro de péptidos que a marca vende na linguagem da longevidade — uma promessa de abrandar o envelhecimento do próprio folículo. McConaughey, segundo o Page Six, tem aplicado o soro no couro cabeludo e acha o cabelo mais cheio. Apresentado como uma confissão de cuidados, lê-se como uma dica passada entre amigos. Não é.

O indício está na casa ao lado. A mulher dele, a modelo e designer Camila Alves McConaughey, está identificada como investidora da OneSkin, integrando a ronda que angariou o financiamento mais recente da marca, noticiou a Cosmetics Business. A empresa foi fundada por quatro cientistas brasileiros em torno de uma molécula a que chama OS-01, comercializada para travar a acumulação de células “senescentes” — a biologia do envelhecimento reembalada como cosmético. Quando o ator elogia o soro, está a elogiar um negócio em que a família tem uma participação. O endosso não é uma descoberta. É um ativo a falar.

Este é um terreno que lhe é familiar. Há mais de duas décadas que McConaughey é a cara pública da Regenix, um tratamento para o couro cabeludo que usa desde finais dos anos noventa e que ainda menciona — em parte, como ele próprio disse, para contrariar a sugestão de que já teve implantes capilares. A linha do cabelo é, talvez, o papel mais duradouro da sua carreira. O segredo, nessa perspetiva, é uma atuação recorrente: uma garrafa nova, a mesma história tranquilizadora de que o afinamento é opcional desde que se compre a coisa certa.

Se alguma disto funciona é a pergunta que a cobertura ignora. Os números de densidade e espessura da OneSkin vêm de um único estudo conduzido pela própria empresa com algumas dezenas de pessoas — o tipo de prova interna que lisonjeia um lançamento e não resolve nada. Dermatologistas independentes têm sido mais diretos sobre a categoria em geral. Ao analisar a Regenix de McConaughey, um cirurgião de restauração capilar observou que “não é aprovada pela FDA e atualmente carece de investigação ou de aplicações medicinais comprovadas”, e a Medical News Today não encontrou “provas sólidas” de que funcione. Os soros de péptidos são cosméticos, não medicamentos; a barreira regulamentar que têm de ultrapassar é baixa, e o vocabulário da longevidade e da senescência faz a persuasão que os dados não conseguem fazer.

Nada disto é barato. O soro capilar da OneSkin custa cerca de sessenta e nove dólares por um mês e algumas centenas por um tratamento mais longo; a Regenix rondava os duzentos dólares por mês. A rotina, deliberadamente, é indefinida, porque o que se promete é manutenção, nunca cura. Está a comprar uma assinatura do seu próprio reflexo, renovável para toda a vida.

Os caracóis, no fim, são a coisa menos interessante do que está à venda. O que McConaughey está realmente a vender é a ideia cosmética mais antiga que existe — que o declínio é uma falha pessoal com remédio à venda —, desta vez embrulhada na nova e lisonjeira gramática da ciência. O segredo nunca foi o soro. Era a fatura.

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