Críticas

The Exorcism: uma experiência de terror ousada, mas imperfeita

Martin Cid
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No momento em que Anthony Miller, a personagem de Russell Crowe, bate com a cabeça numa mesa durante as filmagens de The Exorcism, percebe-se que vem aí algo inquietante. O filme de terror e suspense de Joshua John Miller não se limita a mergulhar os pés no terror psicológico: atira-se de cabeça, usando a descida à loucura do ator atormentado como combustível narrativo e temático. É uma aposta ousada na redefinição do terror sobrenatural através do prisma do trauma pessoal, mas, como acontece com muitos projetos ambiciosos, tropeça sob o peso das próprias aspirações.

Miller, que realiza a partir de um argumento coescrito com M.A. Fortin, constrói uma história que esbate a fronteira entre doença mental e possessão demoníaca. Anthony Miller (Crowe), um ator envelhecido com um passado de dependências e abuso sexual, é escolhido para um filme de terror que faz lembrar The Exorcist. Com o início das filmagens, o seu comportamento torna-se cada vez mais errático: corta-se, anda a dormir e age como se estivesse possuído no plateau. A filha afastada, Lee (Ryan Simpkins), assiste impotente, sem saber se o pai recaiu nas antigas dependências ou se está em causa algo muito mais sinistro. A pergunta central do filme — Anthony sofre de uma doença mental ou está mesmo assombrado? — alimenta a tensão, embora nem sempre com eficácia.

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Crowe, conhecido pelos seus papéis de grande transformação, entrega-se por completo à personagem de Anthony Miller. A sua interpretação explora uma masculinidade em desagregação, oscilando entre a vulnerabilidade e a instabilidade. Nos momentos mais serenos, como quando confessa a Lee o trauma do passado ou quando se ajoelha num confessionário no final do filme, Crowe dá a Anthony uma humanidade crua que torna convincente o seu percurso. Ainda assim, por vezes a interpretação resvala para o melodrama, sobretudo nas cenas de possessão durante as filmagens, em que as contorções e os gritos parecem mais caricaturais do que arrepiantes.

Simpkins, no papel de Lee, serve de contraponto sólido à intensidade de Crowe. A sua personagem é o ponto de apoio emocional do filme, e Simpkins percorre com subtileza as complexidades do luto, do medo e da preocupação filial. A relação entre pai e filha é o coração de The Exorcism, e é nas cenas que partilham que o filme encontra os seus momentos mais genuínos. Chlöe Bailey, como Blake Holloway — uma popular atriz de televisão que interpreta uma rapariga possuída no filme de Anthony —, acrescenta uma camada de intriga, embora o percurso da sua personagem não seja tão desenvolvido como a relação entre Crowe e Simpkins.

A realização de Miller tem um forte impacto visual, sobretudo em sequências como a morte de Joe, provocada por estilhaços de vidro, ou a inquietante e distorcida cinematografia no plateau. As imagens criativas do filme procuram criar uma nova forma de terror, combinando drama psicológico e horror sobrenatural. No entanto, o ritmo perde força a meio, atolado em diálogos expositivos sobre o trauma passado de Anthony e em cenas repetitivas da sua espiral descendente durante as filmagens.

O argumento tem dificuldade em equilibrar os temas pesados — dependências, abuso sexual e luto — com os elementos sobrenaturais, sacrificando muitas vezes o suspense em favor do melodrama. O clímax do filme — uma frenética cena de exorcismo em que Lee queima Miller com um crucifixo — é visualmente envolvente, mas fica comprometido por reviravoltas previsíveis e por um desfecho que encerra de forma demasiado certinha a redenção de Anthony.

The Exorcism é uma tentativa meritória de reinventar o género de terror, mas tropeça na execução. Os pontos fortes do filme estão nas interpretações e na criatividade visual, mas as ambições narrativas acabam por exceder a capacidade de oferecer uma experiência coesa e aterradora.

A interpretação de Crowe é o grande destaque do filme, mas nem o seu talento consegue compensar por completo as fragilidades do argumento. A sua representação de Anthony Miller é uma aula de interpretação física, sobretudo nas cenas em que contorce o corpo e bate com a cabeça em mesas, dando corpo tanto à fisicalidade como ao tormento psicológico da possessão. Ainda assim, por vezes a interpretação de Crowe sobrepõe-se à dos outros atores, que acabam relegados para papéis secundários numa obra que deveria funcionar como um trabalho de conjunto.

Simpkins não se deixa ofuscar por Crowe e oferece uma interpretação simultaneamente comovente e visualmente cativante. As cenas que partilha com Crowe constituem o núcleo emocional do filme, ancorando os elementos sobrenaturais numa relação entre pai e filha com a qual é fácil identificar-se. No entanto, o percurso da personagem de Simpkins é algo previsível e segue a fórmula conhecida da filha preocupada que acaba por salvar o dia.

O papel de Bailey como Blake Holloway é intrigante, mas pouco aproveitado. A personagem serve de contraponto a Lee, representando o mundo glamoroso de Hollywood que Anthony e Lee deixaram para trás. No entanto, a interpretação de Bailey não tem a profundidade nem a subtileza das de Crowe e Simpkins, e a sua personagem acaba por parecer unidimensional.

O elenco secundário do filme, que inclui Sam Worthington como Joe, Adam Goldberg como Peter, Adrian Pasdar como Tom, David Hyde Pierce como Father Conor e Tracey Bonner como Regina, tem boas prestações, mas é frequentemente ofuscado pela intensidade de Crowe. As personagens desempenham funções narrativas importantes, mas faltam-lhes profundidade e desenvolvimento para envolverem plenamente o público.

A realização de Miller é, ao mesmo tempo, o maior trunfo do filme e o seu calcanhar de Aquiles. As imagens criativas e a cinematografia atmosférica criam uma sensação de inquietação que atravessa todo o filme. O ritmo, porém, é irregular, e o segundo ato arrasta-se à medida que explora o trauma passado de Anthony. As cenas repetidas em que este se descontrola durante as filmagens começam a tornar-se cansativas, enfraquecendo a tensão que Miller constrói com tanto cuidado no primeiro ato.

O clímax do filme é um espetáculo visual, com Miller a recorrer a ângulos de câmara e iluminação criativos para criar uma sensação de caos e desespero. No entanto, o desfecho parece apressado e pouco satisfatório, encerrando de forma demasiado certinha o percurso de redenção de Anthony. A cena final, em que Anthony se ajoelha num confessionário e declara ter recuperado a fé, soa artificial e deslocada em relação ao resto do filme.

The Exorcism é uma tentativa ambiciosa de redefinir o terror sobrenatural, mas acaba por não alcançar as suas elevadas aspirações. Os pontos fortes do filme estão nas interpretações e na criatividade visual, mas as ambições narrativas excedem a capacidade de oferecer uma experiência coesa e aterradora. Embora Crowe e Simpkins tenham interpretações de destaque, o elenco secundário é frequentemente ofuscado pela intensidade de ambos.

A realização de Miller é visualmente impactante e atmosférica, mas o ritmo é irregular e o desfecho do filme parece apressado e pouco satisfatório. The Exorcism é uma aposta ousada na reinvenção do género de terror, mas tropeça na execução.

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