Críticas

Troca em Família é uma comédia de troca de corpos previsível, mas com coração q.b. para o Natal

A comédia natalícia de McG (2023) para a Netflix recicla a fórmula de Sexta-Feira Passada a Limpo.
Martha O'Hara
Adicione-nos no Google

A família Walker amontoa-se no Griffith Observatory para assistir a um alinhamento planetário raro, e um clarão súbito muda tudo. Na manhã seguinte, ninguém está no corpo com que adormeceu. É este o ponto de partida de “Troca em Família”, comédia fantástica realizada por McG, com argumento de Adam Sztykiel e Victoria Strouse, a partir do livro infantil “Bedtime for Mommy”, de Amy Krouse Rosenthal. A Netflix estreou-a a 30 de novembro de 2023.

A premissa é conhecida. Jess (Jennifer Garner) e Bill (Ed Helms) vivem em Los Angeles com CC (Emma Myers), Wyatt (Brady Noon) e o mais novo, Miles. O Natal aproxima-se e pais e filhos continuam sem se entender: os adultos querem reunir a casa em torno de programas em família, os adolescentes preferem ficar longe. Na noite do alinhamento, mãe e filha desejam, cada uma, saber como é estar no lugar da outra, e pai e filho fazem o mesmo pedido. Quando a família tira uma fotografia com Angelica, a astróloga do observatório, o clarão atinge o telescópio e o desejo é atendido à letra. Jess acorda no corpo de CC e CC no de Jess, e Bill e Wyatt trocam também de lugar. Até Miles e o cão Pickles entram na troca.

YouTube video

Segue-se a fila de desastres. CC, no corpo da mãe, tenta apresentar um trabalho a um cliente importante, devora um gelado que a intolerância à lactose de Jess não perdoa, e a reunião transforma-se num embaraço sonoro. Jess, no corpo da filha, compromete um jogo de futebol decisivo ao parar para ajudar uma adversária lesionada, precisamente com um olheiro nacional na bancada. Bill, no corpo do filho, chega à entrevista para uma bolsa em Yale com a descontração de quem não percebe o que está em causa. Wyatt, no corpo do pai, recebe um convite para a festa de Ariana, a rapariga de quem gosta, e tem de decidir como se comportar. Quem já viu uma comédia de trocas de corpos reconhece estas situações à distância. O que conta é a maneira como o elenco as atravessa.

É aqui que o filme tem o seu melhor trunfo. Garner e Helms têm sentido de timing, e as cenas familiares aguentam-se mesmo quando o argumento recorre a piadas gastas. Emma Myers é o rosto mais memorável: a arrogância adolescente de CC convive bem com os momentos de fragilidade, e a atriz faz a mãe vista por dentro soar credível, sem cair na caricatura. Brady Noon cumpre como Wyatt. A sequência do jogo, em que Jess, presa no corpo da filha, toma uma decisão que CC nunca tomaria, é das poucas em que a troca de corpos rende mais do que a piada.

O filme perde fôlego quando quer ser mais do que ligeiro. Cada personagem vai percebendo o que os outros enfrentam no dia a dia, e a lição sobre empatia chega à hora marcada. A busca da lente especial que falta ao telescópio, para devolver todos aos corpos de origem, serve de pretexto, mais conveniente do que orgânico. O alinhamento seguinte só acontece em 2162, o que dá urgência à trama, mas o desfecho encaminha-se para onde se esperava desde o primeiro ato.

No elenco secundário, Matthias Schweighöfer interpreta Rolf, o vizinho chamado para tomar conta de Miles enquanto os outros procuram uma solução, e arranca alguns sorrisos. Rita Moreno surge como Angelica, num papel curto que o argumento mal aproveita. Para uma atriz desta dimensão, é pouco.

A realização de McG é competente e nunca foge ao previsível. Não há plano nem ideia visual que fique na memória, e o filme parece contente em ser simpático sem esticar os limites do género. A banda sonora recorre a clássicos natalícios como “Santa Claus Is Comin’ to Town” e a êxitos pop como “Moves Like Jagger”, escolhas que condizem com o espírito de sessão de fim de ano. A classificação é PG, com humor pensado para toda a família e poucas ousadias.

A crítica ficou dividida. O site de Roger Ebert descreveu o filme como uma “piada de pai”, algo pirosa, mas tão satisfeita com a própria pirosice que convida o espectador a rir também. O Cinema Crazed foi mais seco: para o site, é mais uma comédia familiar de troca de corpos com temas natalícios colados por cima. Há razão nos dois lados. “Troca em Família” não reinventa o género e mal disfarça para onde vai, mas Garner, Helms e Myers seguram o tom, e quem gosta de comédia familiar de fim de ano sai da sessão com poucas queixas.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Etiquetas: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.