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Arda Güler, o pé esquerdo que o Real Madrid demorou três anos a aproveitar

Penelope H. Fritz
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Arda Güler
Arda Güler
Photo: LawEnthusiast / CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Nascimento25 de fevereiro de 2005
Altındağ, Ankara, Turkey
OcupaçãoFutebolista profissional
TítulosTaça de Portugal? No, Taça da Turquia · Liga dos Campeões ×2
Prémios individuaisPrémios de Futebol da UEFA para Clubes

Durante a maior parte do tempo que leva no Real Madrid, a grande questão em torno de Arda Güler foi saber que lugar podia ocupar. É um organizador de jogo canhoto que parte da direita para o meio, mais feliz com a bola nos pés e um defesa pela frente, e chegou a um plantel construído à volta de jogadores velozes. Passou longos períodos a vê-los jogar. Cada treinador deu uma resposta diferente. O quarto, José Mourinho, fez dele o jogador a quem o Madrid recorre quando precisa de uma ideia para desbloquear um jogo, e o clube prepara-se para o manter durante vários anos.

O rótulo chegou antes das provas dadas. Na Turquia, chamavam-lhe a próxima grande esperança de uma seleção que esperava há uma geração por um jogador assim e, já com duas épocas no Madrid, a BBC ainda o apresentava como o «Messi turco», herdeiro de Luka Modrić. Güler passou o início dos seus vinte anos a tentar tornar a comparação irrelevante.

De Ancara a Kadıköy

Güler cresceu em Altındağ, um bairro de Ancara, onde nasceu a 25 de fevereiro de 2005. Entrou ainda criança, em 2014, nas camadas jovens do Gençlerbirliği, e os olheiros do Fenerbahçe levaram-no para Istambul em fevereiro de 2019, poucos dias antes de completar 14 anos. Assinou o primeiro contrato profissional em janeiro de 2021 e estreou-se pela equipa principal em agosto desse ano, como suplente num play-off da Liga Europa frente ao HJK. Três dias depois, na primeira partida pela Süper Lig, fez a assistência para um golo de Miha Zajc contra o Antalyaspor.

Em março de 2022, três semanas depois de completar 17 anos, tornou-se o jogador mais jovem a marcar pelo Fenerbahçe na Süper Lig. Quando Mesut Özil saiu nesse verão, o clube entregou-lhe o número 10, que já tinha sido usado por Alex de Souza — uma camisola de grande peso em Kadıköy. Marcou e fez uma assistência na vitória por 2-0 sobre o Dynamo Kyiv, o seu primeiro golo europeu, e, em junho de 2023, foi o melhor jogador em campo quando o Fenerbahçe venceu o İstanbul Başakşehir por 2-0 na final da Taça da Turquia.

A cláusula e a sala de espera

O Real Madrid contratou-o em julho de 2023, com um vínculo de seis anos. A cláusula de rescisão era de 17,5 milhões de euros; o Madrid pagou cerca de 20 milhões, e o valor adicional foi para o Fenerbahçe a pedido do próprio jogador. Depois, lesionou-se. Uma série de lesões afastou-o dos relvados até janeiro de 2024, quando se estreou numa eliminatória da Copa del Rey frente ao Arandina. O primeiro golo na Liga chegou em março, já nos descontos contra o Celta de Vigo, quando contornou Vicente Guaita com a bola controlada. Também marcou na primeira titularidade na Liga, frente à Real Sociedad, e os dois golos contra o Villarreal, em maio, elevaram o total para seis em 330 minutos — o mais rápido que alguém alguma vez chegou a esse número na história do clube. O Madrid venceu a Liga e a Liga dos Campeões; Güler não jogou na campanha europeia, mas o título fez dele o primeiro jogador turco a receber uma medalha de campeão.

Nesse verão, transformou a promessa num acontecimento nacional. No jogo de abertura da Turquia no Euro 2024, marcou um golo em arco contra a Geórgia, tornando-se o jogador mais jovem a marcar na estreia num Campeonato da Europa — um recorde que pertencia a Cristiano Ronaldo desde 2004. Depois, fez uma assistência na vitória sobre a Áustria nos oitavos de final, e a Turquia chegou aos quartos de final, onde perdeu com os Países Baixos.

De regresso a Madrid, pouco mudou. Com Carlo Ancelotti, em 2024-25, jogou sobretudo na Copa del Rey e só ocasionalmente na Liga, mas continuou a corresponder sempre que era chamado: marcou o golo da vitória contra o Getafe em abril de 2025 e fez um golo e uma assistência contra o Celta, semana e meia depois.

O que os melhores momentos não mostram

A compilação dos melhores momentos de Güler é extensa e tanto o tem favorecido como prejudicado. Os seus momentos mais brilhantes surgem em forma de golos isolados e irrepetíveis, alimentando a ideia de um jogador de luxo para as grandes noites, em vez de um médio em quem um treinador possa confiar durante 90 minutos. Os números sustentam ambas as leituras. Os dois golos que marcou em Munique, em abril de 2026, não impediram a derrota por 4-3 e a eliminação; terminou essa noite a ver o cartão vermelho, mostrado depois do apito final, por protestar contra a expulsão de Eduardo Camavinga. No Mundial, a sua melhor exibição foi contra uma seleção dos Estados Unidos que já tinha garantido o apuramento e poupou a maioria dos titulares, depois de a Turquia ter perdido os dois jogos decisivos para a classificação no grupo. O talento não está em causa. A consistência e o trabalho que faz quando o Madrid não tem a bola são as questões que o acompanham em cada ficha de jogo.

Três treinadores num ano

A chegada de Xabi Alonso, em 2025, mudou o seu papel. Alonso colocou-o no meio-campo e passou a apostar nele como titular; Güler marcou e foi eleito o melhor em campo contra o Mallorca, em agosto, e foi distinguido como melhor jogador sub-23 da Liga espanhola em setembro. Alonso saiu em janeiro de 2026, despedido depois de perder a final da Supercopa contra o Barcelona, e Álvaro Arbeloa assumiu uma equipa que terminaria a época sem conquistar qualquer troféu. A época de Güler continuou a ganhar força. Em março, contra o Elche, marcou da própria metade do campo: um remate de 68 metros que igualou o golo mais longo da história da Liga espanhola e foi eleito golo da época. Nos quartos de final da Liga dos Campeões, em Munique, marcou ao fim de 34 segundos, o golo mais rápido do Madrid na história da competição, e depois apontou também um livre direto. A UEFA elegeu-o melhor jovem jogador da Liga dos Campeões.

Ao serviço da Turquia, ajudou a vencer em Pristina, frente ao Kosovo, a final do play-off de apuramento para o Mundial de 2026, garantindo o regresso do país à prova após 24 anos. A equipa de Vincenzo Montella perdeu com a Austrália e o Paraguai e já estava eliminada do Grupo D quando Güler marcou na vitória por 3-2 sobre os Estados Unidos, que lhe valeu o prémio de melhor em campo.

Com Mourinho

Mourinho regressou ao Bernabéu em junho de 2026 e tem utilizado Güler na direita e pelo meio. O jogador marcou o primeiro golo da época em agosto, contra o Málaga, depois de entrar aos 86 minutos; no final de outubro, somava três golos e quatro assistências nas primeiras onze partidas, tendo marcado mais recentemente na vitória por 2-0 sobre o RB Leipzig, na Liga dos Campeões. «Somos o Real Madrid e temos de ganhar todos os jogos», afirmou depois. Nos dias seguintes, órgãos de comunicação social espanhóis e internacionais noticiaram que tinha chegado a acordo para prolongar o contrato para além de 2029; o clube ainda não o tinha anunciado.

Güler tem 21 anos. Os próximos meses mostrarão se um clube que já trocou de treinador três vezes desde a sua chegada vai agora construir o meio-campo à volta do seu pé esquerdo ou se continuará a tratá-lo como o jogador capaz de decidir sozinho um jogo de vez em quando.

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