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Daniel Radcliffe, um cadáver, um Tony e uma carta ao novo Harry Potter

Penelope H. Fritz
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Daniel Radcliffe
Daniel Radcliffe
Photo: Gage Skidmore from Peoria, AZ, United States of America / CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons
Nascimento23 de julho de 1989
Hammersmith, London, England
OcupaçãoAtor
Conhecido porHarry Potter e a Pedra Filosofal, Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
PrémiosTony · Emmy (indicação) · WhatsOnStage Award for Best Actor in a Play · Critics Choice · Outer Critics Circle Award for Outstanding Solo Performance · MTV Movie & TV Award for Best Villain · The Trevor Project Hero

Durante a meia hora que antecedia cada representação de Every Brilliant Thing, Daniel Radcliffe percorria pessoalmente os corredores de um teatro da Broadway e abordava desconhecidos para lhes perguntar se aceitariam ler em voz alta uma das pequenas alegrias de uma lista quando ele chamasse o respetivo número durante o espetáculo. É uma forma invulgar de passar a noite para um homem cujo rosto chegou a vender milhares de milhões de dólares em bilhetes de cinema — e é precisamente o tipo de trabalho que tem escolhido desde que o jovem feiticeiro foi arrumado. Visto de longe, o percurso que construiu desde Hogwarts parece uma sucessão de escolhas ao lado: um cadáver com problemas de flatulência, o assistente corcunda de um Frankenstein que ninguém viu, um vilão milionário mimado numa aventura de Sandra Bullock, um letrista num musical de Sondheim que, na sua primeira encenação, foi um célebre fracasso. De perto, parece um método. Continua a escolher o papel que mais o obriga a trabalhar e menos espaço deixa para a vaidade — e o trabalho continua a recompensá-lo.

Cresceu em Fulham, no oeste de Londres, filho único de Alan Radcliffe, agente literário de Banbridge, na Irlanda do Norte, e de Marcia Gresham, agente de casting nascida na África do Sul. Representar fazia parte do quotidiano familiar; não foi uma descoberta. A sua primeira participação no ecrã aconteceu aos dez anos, como o jovem protagonista de David Copperfield, da BBC, e foi essa interpretação que o pôs no radar do produtor David Heyman. Tinha onze anos quando foi escolhido para Harry Potter e a Pedra Filosofal, e passaria a década seguinte no centro de um rito de passagem industrial: oito filmes, receitas de bilheteira mundiais na casa dos milhares de milhões e um público que viu a sua voz mudar à escala do cinema.

Quando a série terminou, os filmes tinham arrecadado cerca de 7,7 mil milhões de dólares em todo o mundo e rendido a Radcliffe, segundo estimativas, 75 milhões de libras. O preço dessa década tornou-se parte da forma como fala dela. Contou que, durante os últimos filmes, por volta de Harry Potter e o Príncipe Misterioso, se apoiava no álcool para lidar com a atenção que recebia, e que deixou de beber por completo em agosto de 2010, antes mesmo da estreia do último filme. Também falou abertamente sobre a dispraxia, uma perturbação da coordenação que tornou difíceis alguns anos da sua vida escolar. São poucas as pessoas que cresceram sob um grau tão intenso de escrutínio público e conseguem descrevê-lo sem autocomiseração nem o verniz de um assessor de imprensa; e essa franqueza não é um aparte na sua carreira. Ajuda a explicar o rumo que ela tomou.

Enquanto a franquia ainda estava em curso, já experimentava saídas. Aos dezassete anos, assumiu o papel principal na reposição de Equus, de Peter Shaffer, no West End, interpretando um tratador de cavalos que cega seis animais — um papel que exigia que aparecesse nu em palco. Os tablóides falaram da nudez; os críticos, da interpretação, e o espetáculo chegou à Broadway em 2008. Em 2011, o mesmo ano em que o último filme chegou às salas, cantava e dançava oito vezes por semana na reposição da Broadway de How to Succeed in Business Without Really Trying. Nenhuma das escolhas foi pensada para proteger a sua imagem. Ambas serviram para provar que conseguia fazer o trabalho sem ela.

Com a franquia encerrada, avançou depressa, mas por caminhos laterais. The Woman in Black (2012), uma história de fantasmas da Hammer Films, mostrou que conseguia protagonizar sozinho um filme de género e que uma parte considerável do público de Potter o acompanharia até um lugar mais sombrio. Kill Your Darlings (2013) deu-lhe o papel do jovem Allen Ginsberg, numa história de homicídio passada entre os primeiros escritores beat; foi durante as filmagens que conheceu a atriz Erin Darke, sua companheira desde 2012. Seguiram-se Horns e a comédia romântica What If. Em palco, a peça The Cripple of Inishmaan, de Martin McDonagh, valeu-lhe o WhatsOnStage Award de Melhor Ator numa Peça no West End e chegou à Broadway em 2014.

Seguiu-se Swiss Army Man (2016), ainda hoje a expressão mais clara daquilo que procurava. Realizado por Daniel Kwan e Daniel Scheinert, a dupla conhecida como Daniels, o filme deu-lhe o papel de Manny, um cadáver que dá à costa junto de um homem isolado, interpretado por Paul Dano, e acaba por ser útil como ferramenta, meio de transporte e, por fim, amigo. A estreia em Sundance levou alguns espectadores a abandonar a sala por causa das piadas sobre flatulência. Mas, por baixo da premissa, o filme é sobre solidão e vergonha; Radcliffe interpreta-o com absoluta seriedade, e é por isso que resulta. Sete anos mais tarde, os Daniels ganharam o Óscar de Melhor Realização com Everything Everywhere All at Once, e a aposta precoce de Radcliffe neles parece menos uma excentricidade e mais uma questão de gosto. Nesse mesmo ano, rapou o cabelo para Imperium, onde interpreta um agente do FBI infiltrado entre supremacistas brancos norte-americanos, contracenando com Toni Collette.

Um retrato honesto tem de incluir as escolhas que não resultaram — e foram várias. Victor Frankenstein (2015), em que interpretou Igor ao lado de James McAvoy, fracassou nas bilheteiras e junto da crítica. O vilão que interpretou em Now You See Me 2 foi apenas um papel pago numa franquia que não precisava da sua ajuda. Jungle, Beast of Burden, Guns Akimbo e Escape from Pretoria, uma série de histórias de sobrevivência e exercícios de género, passaram quase sem deixar marca. Entretanto, o percurso dos dramas de prestígio que levou os seus contemporâneos britânicos às temporadas de prémios nunca se abriu para ele no ecrã. Em parte, foi deliberado: um ator que escolhe sempre o papel insólito em vez do respeitável ensina a indústria a classificá-lo como insólito. Em parte, deveu-se à força gravitacional do papel com que começou, que fazia com que, para alguns espectadores, qualquer interpretação dramática mais convencional parecesse Harry com outra camisola. O palco tornou-se o lugar onde esse problema não existia.

Na televisão, encontrou outra saída para o gosto pelo insólito. Miracle Workers, a comédia antológica da TBS que esteve no ar entre 2019 e 2023, transportava-o para um mundo diferente em cada temporada, mantendo o mesmo elenco, e conquistou um público fiel sem o transformar num protagonista televisivo convencional. Em 2020, apareceu como um príncipe britânico no especial interativo de Unbreakable Kimmy Schmidt; e, como Abigail Fairfax, o mimado milionário que rapta pessoas em The Lost City (2022), roubou cenas a Sandra Bullock e Channing Tatum e ganhou um prémio da MTV para melhor vilão. Weird: The Al Yankovic Story (2022), uma paródia deliberadamente tresloucada dos biopics musicais produzida pela Roku, valeu-lhe o Critics’ Choice Television Award de melhor ator numa série limitada ou filme, além de nomeações para os Emmys e os prémios televisivos BAFTA. A paródia a esse nível é uma disciplina técnica: é preciso acreditar plenamente na personagem sem acreditar em nada do que o filme diz sobre ela.

A mudança que alterou a conversa foi Merrily We Roll Along. O musical de Stephen Sondheim e George Furth, contado em cronologia inversa, esteve em cena apenas dezasseis vezes na sua produção original da Broadway, em 1981, e passou décadas como objeto de culto. A reposição de Maria Friedman estreou fora da Broadway, no New York Theatre Workshop, no final de 2022, e chegou depois à Broadway em 2023, com Radcliffe no papel do letrista Charley Kringas, ao lado de Jonathan Groff e Lindsay Mendez. Os três ganharam Tony Awards em 2024; Radcliffe recebeu o prémio de Melhor Ator Secundário num Musical. A gravação do elenco foi nomeada para um Grammy, e uma versão filmada do espetáculo chegou aos cinemas através da Sony Pictures Classics em dezembro de 2025. Pareceu menos uma surpresa do que uma correção. Já era bom naquilo há muito tempo.

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Regressou ao mesmo teatro da Broadway, o Hudson Theatre, para Every Brilliant Thing, a peça a solo de Duncan Macmillan, escrita com o comediante Jonny Donahoe, sobre um homem que começa a fazer uma lista de tudo o que vale a pena viver depois da primeira tentativa de suicídio da mãe. As sessões de pré-estreia começaram em fevereiro de 2026 e a produção estreou a 12 de março. Recuperou os 5,75 milhões de dólares investidos na produção em dez semanas, um resultado raro para uma peça a solo, e Radcliffe fez a última representação a 24 de maio. Os Tony Awards nomearam-no para Melhor Ator numa Peça, categoria vencida por John Lithgow com Giant; o Outer Critics Circle atribuiu-lhe o prémio de Melhor Interpretação a Solo. Questionado sobre o espetáculo durante a temporada de prémios, atribuiu o mérito ao filho, nascido em abril de 2023: «o meu filho é uma verdadeira inspiração para querer dizer isso». É o trabalho mais exposto que fez desde Equus e, desta vez, ninguém falava da nudez.

Entretanto, o seu trabalho no ecrã passou para a comédia de televisão. Em The Fall and Rise of Reggie Dinkins, produzida por Tina Fey para a NBC, interpreta Arthur Tobin, um realizador de documentários sério contratado por uma antiga estrela do futebol americano caída em desgraça, interpretada por Tracy Morgan, para recuperar a sua imagem. Há uma piada escondida na escolha do elenco que a série nunca precisa de explicitar: um homem que quer fazer arte, preso num projeto concebido para gerir uma reputação. A série estreou em janeiro de 2026, depois de um jogo dos play-offs da NFL, reuniu mais de 14 milhões de espectadores em várias plataformas e registou a melhor audiência entre os adultos dos 18 aos 49 anos de todas as novas comédias da temporada. A NBC renovou-a em maio, e a segunda temporada estreia a 2 de novembro de 2026.

O próximo filme em que o veremos é Trust the Man, um thriller sobre a Guerra do Vietname, escrito e realizado por Will Graham, sobre um ambicioso oficial dos serviços de informações do Exército encarregado de investigar um militar condecorado com um passado misterioso — uma relação que passa da vigilância à obsessão. O filme volta a juntá-lo a Groff, num elenco que inclui Kate Mara, Finn Wittrock, Justice Smith e Victor Garber. As filmagens decorreram em Nova Jérsia durante o verão de 2026; ainda não foram anunciados uma data de estreia nem um distribuidor.

Longe do trabalho, tem mantido um compromisso público consistente. Apoia o The Trevor Project, uma organização de apoio em situações de crise para jovens LGBTQ, desde 2009 e recebeu o Hero Award da organização em 2011. Em junho de 2020, na sequência das declarações de J.K. Rowling sobre identidade de género, publicou um ensaio através da organização em que afirmou que as mulheres trans são mulheres e disse lamentar a dor que aqueles comentários tinham causado aos fãs. Foi uma atitude invulgar para um ator cuja fama está inseparavelmente ligada aos livros dessa autora; e tomou posição pelas suas próprias palavras, em vez de recorrer a um comunicado de um representante. Vive entre Londres e Nova Iorque com Darke e o filho.

O que nos traz de volta à franquia. A adaptação televisiva dos livros pela HBO estreia no dia de Natal de 2026, com Dominic McLaughlin no papel do novo Harry. Radcliffe escreveu-lhe uma carta. «Não quero ser uma espécie de fantasma na vida destas crianças», explicou, mas queria dizer ao rapaz que esperava que se divertisse imenso, «e ainda mais do que eu». Quando o novo Harry chegar aos ecrãs, em dezembro, o antigo já estará a algumas semanas de começar uma segunda temporada de comédia televisiva, com um thriller de guerra à espera na montagem. É assim que o plano resulta: o papel por que todos se lembram dele tornou-se aquele que menos o define.

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