Cineastas

David Fincher, o realizador que recusou perder o controlo uma segunda vez

Penelope H. Fritz

Os seus thrillers colocam sempre a mesma questão: o que faz o sistema quando falha? Não o criminoso, não a vítima — o sistema. O detective que sabe quem é o assassino do Zodíaco mas não consegue prová-lo. A rede social que destrói o seu próprio criador. O matador cujo contrato termina antes que o seu sentido de identidade profissional faça o mesmo. A mecânica do poder e o momento exacto em que essa mecânica encrava.

Tinha dezoito anos quando chegou à Industrial Light & Magic como carregador, o grau mais baixo de qualquer equipa de câmara, enquanto sequelas de Star Wars se montavam à sua volta. Não estudou em nenhuma escola de cinema. Cresceu em San Anselmo, na Califórnia, onde George Lucas era seu vizinho. No início dos anos 1980 já dirigia anúncios e videoclips: «Express Yourself» e «Vogue» para Madonna valeram-lhe dois MTV Video Music Awards consecutivos.

Depois chegou Alien 3. A Fox contratou-o para dirigir o terceiro filme da franquia e passou toda a pré-produção a desmontar o que ele havia planeado filmar. Os cenários foram construídos antes de existir um guião definitivo. O estúdio ficou com a montagem final. O filme que chegou às salas em 1992 não era, segundo o próprio Fincher, um filme seu. Nunca mais o viu. Questionado sobre se existia um director’s cut, respondeu: «É um pouco como perguntar a alguém se quer voltar a contemplar um acidente de viação». Alien 3 é o filme mais revelador da sua filmografia precisamente porque é o único que se recusa a reivindicar.

Tudo o que se seguiu é uma negociação. Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995) estabeleceu a gramática visual que usa desde então: subexposta, deliberadamente pausada, molhada. Clube da Luta (1999) foi uma aposta mais arriscada. A 20th Century Fox estreou-o enquanto se distanciava dele simultaneamente. O filme recuperou menos de metade do orçamento nas bilheteiras americanas. Depois chegou o mercado doméstico e o filme converteu-se numa referência cultural. A Rede Social (2010) — sobre a fundação do Facebook, com guião de Aaron Sorkin — é a obra em que a sua reputação se apoiará por mais tempo. Nos Óscares de 2011, O Discurso do Rei ganhou a realização. A Rede Social ganhou montagem, banda sonora e guião adaptado.

O erro crítico mais persistente sobre Fincher é dizer que os seus filmes são frios. Não são frios. São precisos. A frieza implica ausência emocional; a precisão implica controlo emocional — o oposto da ausência. O que Fincher suprime é o sentimentalismo, não o sentimento. Gone Girl (2014) é um filme sobre a performance das emoções como estratégia de sobrevivência; The Killer (2023) é um filme sobre um homem que se treinou para não sentir e não consegue manter esse treino quando o contrato corre mal.

Mank (2020) foi o projecto mais pessoal da sua carreira por razões que nada tinham a ver com Citizen Kane. O guião — sobre a autoria de Herman J. Mankiewicz no debut de Orson Welles — tinha sido escrito pelo seu pai, Jack Fincher, jornalista da Life e da Time, que morreu em 2003. David Fincher filmou-o dezassete anos depois, a preto e branco, porque foi assim que o seu pai o escreveu. Dez nomeações para os Óscares, duas vitórias. A sua terceira nomeação como melhor realizador.

The Adventures of Cliff Booth, uma sequela independente de Era Uma Vez em… Hollywood com argumento de Quentin Tarantino, estreia exclusivamente em IMAX a 25 de novembro de 2026, antes da sua estreia na Netflix a 23 de dezembro. Brad Pitt regressa como o duplo reconvertido em fixer; o orçamento é de 200 milhões de dólares. Trent Reznor e Atticus Ross compõem a banda sonora — a sua sexta colaboração com Fincher. Treze filmes em trinta anos. O método continua.

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