Desporto

Jorge Jesus deu um título a Cristiano Ronaldo e depois sentou-o no banco da Seleção

Penelope H. Fritz
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Jorge Jesus
Jorge Jesus
Photo: Palácio do Planalto / CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
Nascimento24 de julho de 1954
Amadora
OcupaçãoTreinador de futebol
TítulosCopa Libertadores 2019 · Primeira Liga ×3 · Saudi Pro League ×2 · Turkish Cup 2022-23 · Saudi league · Intertoto Cup 2008-09 · league ×3 · League Cups ×5 · Portuguese Cup · Super Cup ×2 · Copa Libertadores final 2019 · Brazilian champions 2019
Prémios individuaisTreinador do Ano da Primeira Liga · Treinador da Época da Saudi Pro League · Ordem de D. Henrique, Comendador · Campeonato Brasileiro Série A

Quatro meses antes, Jorge Jesus era o treinador que finalmente tinha conquistado para Cristiano Ronaldo um título da liga saudita. Depois, no seu segundo jogo à frente de Portugal, mandou Ronaldo aquecer junto à linha lateral durante quase meia hora e deixou-o por lá. Gonçalo Ramos, escolhido em detrimento do capitão, marcou o golo da vitória em Oslo. Três dias depois, Jesus afirmou numa conferência de imprensa que não tinha havido «incidente algum» e que Ronaldo não jogaria no encontro seguinte. Em poucas horas, Ronaldo anunciou no Instagram que estava de saída do estágio.

O episódio diz muito sobre o cargo que Jesus assumiu já numa fase tardia da sua carreira. Sempre foi um treinador de clube muito próximo do trabalho diário: sessões longas, movimentos posicionais repetidos até se tornarem reflexos e treinos interrompidos vezes sem conta para corrigir o posicionamento de um jogador. Uma seleção dá-lhe apenas alguns dias entre jogos dos clubes. A sua nomeação levanta a questão de saber se um método assente na repetição diária resiste a esse calendário — e se um treinador que insiste em controlar tudo pode dar-se ao luxo de entrar em conflito com o único futebolista português maior do que qualquer treinador.

O futebol já era o ofício da família antes de ser o seu. O pai, Virgolino António de Jesus, jogou no Sporting na década de 1940, e o filho passou pela formação do mesmo clube depois de crescer na Amadora, na periferia noroeste de Lisboa, onde nasceu a 24 de julho de 1954. A avó materna nasceu em Recife, no Brasil. Como médio, fez uma dúzia de jogos pela equipa principal do Sporting; passou depois o resto de uma longa e itinerante carreira de jogador pelo Belenenses, União de Leiria, Vitória de Setúbal, Farense e pelo clube da sua terra natal, o Estrela da Amadora, entre outros, antes de pendurar as botas aos 36 anos.

Começou a treinar em 1990, no Amora, nas divisões inferiores, e passou quase duas décadas na metade menos glamorosa do futebol português. Subiu de divisão com o Felgueiras, o Vitória de Setúbal e o Estrela da Amadora, desceu com o Moreirense e levou o Belenenses ao quinto lugar e à final da Taça em 2007. No Braga, em 2008-09, venceu a última edição da Taça Intertoto, um troféu que nenhum outro clube português conquistou. Tinha 54 anos e nunca tinha orientado um grande clube.

O Benfica contratou-o em junho de 2009, e a sua primeira época pôs fim a uma espera de cinco anos pelo título da liga: a equipa jogava em 4-1-3-2 e marcou 78 golos no campeonato. Em seis épocas, conquistou dez troféus, um recorde do clube para um só treinador: três campeonatos, cinco Taças da Liga, uma Taça de Portugal e uma Supertaça. Em 2013-14, a equipa venceu o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça da Liga na mesma época, alcançando a primeira tripla nacional do futebol português. Esse mesmo Benfica chegou a duas finais consecutivas da Liga Europa, perdendo por 2-1 com o Chelsea em 2013 e, um ano depois, com o Sevilha, no desempate por penáltis, em Turim.

Em junho de 2015, atravessou a cidade para treinar o Sporting, o rival mais antigo do Benfica. Na sua primeira época, a equipa somou 86 pontos, um recorde do clube, mas terminou ainda assim a dois pontos do Benfica. Três anos renderam uma Supertaça e uma Taça da Liga, e acabaram em violência: em maio de 2018, cerca de cinquenta adeptos entraram à força no centro de treinos do clube e agrediram os jogadores; Jesus foi um dos feridos. Cinco dias depois, o Sporting perdeu a final da Taça de Portugal para o Aves — o terceiro clube com que Jesus perdia essa final.

No estrangeiro, a sua reputação ganhou outra dimensão. Depois de uma primeira passagem pelo Al-Hilal, interrompida antes do tempo, o Flamengo contratou-o em 2019, sendo recebido com hostilidade no Brasil, onde comentadores e antigos jogadores o consideravam velho demais e treinadores rivais atribuíam as vitórias do Flamengo aos jogadores e ao dinheiro do clube. A 23 de novembro de 2019, em Lima, o Flamengo deu a volta ao resultado nos minutos finais e venceu o River Plate por 2-1 na final da Copa Libertadores; em menos de 24 horas, a equipa sagrou-se também campeã brasileira. Foi o primeiro treinador estrangeiro a conquistar um troféu internacional ao serviço de um clube brasileiro. Em dezembro desse ano, o Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou-o como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

O seu currículo também revela um padrão que os admiradores tendem a ignorar. Quase todos os seus títulos de liga foram conquistados em clubes com maior poder financeiro do que os rivais, e o seu projeto mais dispendioso foi o menos produtivo. De regresso ao Benfica em 2020, depois de um investimento de cerca de 105 milhões de euros no plantel — o maior de sempre no futebol português —, a equipa foi eliminada na fase de qualificação para a Liga dos Campeões, não ganhou qualquer troféu nessa época e perdeu a final da Taça. Jesus saiu por mútuo acordo em dezembro de 2021. Essa derrota foi a quarta final da Taça de Portugal que perdeu, um recorde partilhado. O seu temperamento também já lhe custou caro: em 2013, foi suspenso por 30 dias depois de se envolver fisicamente quando a polícia tentou retirar do relvado adeptos do Benfica, em Guimarães.

A Arábia Saudita deu-lhe os resultados mais completos. Depois de vencer a Taça da Turquia com o Fenerbahçe em 2023, regressou ao Al-Hilal, cuja equipa conquistou 34 vitórias consecutivas em todas as competições — uma série certificada pelo Guinness World Records — e venceu a liga de 2023-24 com um recorde de 96 pontos. Saiu em maio de 2025 e, dois meses depois, assinou um contrato de um ano com o Al-Nassr, dizendo que vinha ajudar Ronaldo a conquistar o campeonato. A 21 de maio de 2026, na última jornada, o Al-Nassr venceu o Damac por 4-1, com dois golos de Ronaldo, e terminou à frente do Al-Hilal, a equipa que Jesus tinha construído. O treinador classificou-o como o projeto mais difícil da sua carreira.

O percurso de Portugal no Mundial terminou nos oitavos de final, em Dallas, com uma derrota por 1-0 frente a Espanha, decidida por um golo nos descontos; Roberto Martínez anunciou a saída nessa mesma noite. A Federação apresentou Jesus a 10 de julho de 2026, com um contrato de quatro anos, válido até ao Mundial de 2030, que Portugal coorganiza. Prometeu que não faria mudanças drásticas e disse sobre Ronaldo: «O Cris é um jogador como qualquer outro.» Até agora, os resultados são irrepreensíveis: vitória por 1-0 sobre o País de Gales, em Lisboa, por 2-1 na Noruega, com Ronaldo sem sair do banco, e por 4-2 sobre a Dinamarca, em Copenhaga, sem Ronaldo e com quatro marcadores diferentes.

É casado com Ivone, de quem tem um filho, Mauro, e tem uma filha, Tânia, e um filho, Gonçalo, de um casamento anterior.

Portugal encerra esta janela internacional em casa, frente à Noruega, a 4 de outubro, no primeiro lugar do seu grupo da Liga das Nações, com três vitórias em três jogos. A questão mais difícil está para lá dos resultados. Ronaldo tem 41 anos, já sugeriu que esta será provavelmente a sua última época e prometeu contar ao público português a sua versão dos motivos que o levaram a abandonar o estágio. A forma como Jesus lidar com essa conversa determinará se as primeiras semanas do seu mandato serão recordadas pelo futebol ou pela saída de Ronaldo.

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