Desporto

Tom Brady quer ser o vilão: “É uma sensação incrível … mandar o público para casa mais cedo”

Jack T. Taylor

Tom Brady passou a maior parte da carreira como o visitante mais odiado do desporto americano, e afinal estava a gostar ainda mais do que alguma vez deixou transparecer. Questionado na Fanatics Fest sobre se se imaginava a entrar num ringue da WWE, o quarterback reformado saltou a resposta diplomática e foi direto ao papel que lhe assentava: o vilão. Ao explicar porque é que o papel de mau da fita lhe fica bem, abriu uma janela para o apetite que alimentou tudo aquilo.

“Quando jogas fora e tens algum sucesso na NFL, não gostam de ti. É uma sensação incrível quando trabalhas o dia inteiro para basicamente tentar mandar o público para casa mais cedo.”

Disse-o à Variety em palco, em Nova Iorque, no meio de uma troca de farpas com Logan Paul que tinha acabado de transbordar para uma bofetada. Não havia falsa modéstia no preâmbulo. “É uma escolha tão fácil”, disse Brady sobre interpretar o mau da fita. “Sou um mau da fita. Sempre fui um mau da fita.” Pela primeira vez, um dos maiores de sempre não estava a agradecer aos fãs.

O que faz a frase funcionar é que ela inverte aquilo que os atletas são treinados para dizer. A versão institucional da hostilidade fora de casa é estoica: bloqueias o ruído, usas-no como combustível, não ouves os assobios. Brady diz o oposto. Ouviu cada um deles, e o prazer não foi apenas ganhar o jogo mas esvaziar o estádio — transformar milhares de estranhos pagantes, vestidos com as cores da equipa adversária, numa multidão silenciosa que sai mais cedo. A recompensa não foi o resultado. Foi o silêncio que deixou para trás.

Não é uma admissão pequena vinda desta boca em particular. Nenhum quarterback entrou em mais estádios furiosos e saiu de lá com a noite estragada, e nenhum o fez durante tanto tempo. O currículo imaculado — os títulos, a longevidade, a mitologia da dieta e disciplina — sempre sugeriu uma espécie de serenidade por baixo. A frase na Fanatics Fest diz que havia algo mais faminto lá no fundo: um homem que precisava da multidão contra si, e se alimentava do momento em que ela ia para casa infeliz. O vilão nunca foi uma fantasia que está a experimentar na reforma. É uma confissão sobre como competiu realmente.

Explica também porque é que a rixa com Logan Paul tem pernas. O motor de Brady funcionou sempre com uma afronta, real ou fabricada — alguém no estádio que queria que ele falhasse. Paul, a provocá-lo por uma derrota no flag football e a gabar-se de que o wrestling profissional o tinha tornado atleta, é um antagonista perfeito de baixo risco: um vilão precisa de uma multidão que o assobie e de um rival para apontar, e Paul oferece-se para ambos. A bofetada, os “palerma” e “nerd” que lhe devolveu no X — nada disto é realmente sobre Logan Paul. É Brady à procura da única coisa que a reforma não lhe pode dar: uma sala que o queira ver perder.

Quer a aproximação à WWE seja a sério ou uma brincadeira de circuito de convenções, quase não interessa. A pista está na frase. O wrestling é o único palco que resta onde ser odiado é a missão, onde os assobios são os aplausos, onde o trabalho de uma noite se mede pelo silêncio que se consegue impor na sala. Brady acabou de descrever toda a sua carreira na NFL exatamente nesses termos. Não precisou de ser convencido a assumir o papel de vilão. Andou a ensaiá-lo durante vinte anos — e, pelo seu próprio relato, a adorar cada lugar silenciado.

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