Análise

Extremo do Bayern Michael Olise: sem proposta, o Real Madrid fixa o preço do contrato

O Bayern de Munique estará a preparar-se para fazer de Michael Olise o jogador mais bem pago do plantel, com o Real Madrid no papel de ameaça. O Madrid diz que nunca telefonou. O salário é a parte fácil; a verdadeira negociação é a cláusula de rescisão que o círculo do jogador quer.
Molly Se-kyung
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Michael Olise tornou-se o rumor mais caro do futebol europeu sem que um único euro tenha mudado de mãos. Esta semana, em Espanha e na Alemanha, os títulos liam-se como um leilão: uma «oferta galáctica», um contrato recorde, o Real Madrid à espreita. Lidos com atenção, porém, mostram outra coisa: a oferta parte do Bayern de Munique, o clube onde ele já joga, e o licitador ao fundo é um clube que afirmou por escrito nunca o ter contactado.

É essa a verdadeira história do outono do extremo francês. O Bayern estará a preparar-se, segundo várias notícias, para fazer de Olise o jogador mais bem pago do plantel, e o dinheiro é o menos interessante. A negociação que conta é sobre uma porta: o círculo do jogador, de acordo com vários órgãos alemães e espanhóis, quer uma cláusula de rescisão em qualquer contrato novo, e o atual não a tem. A leitura da MCM é que o Bayern deve inscrevê-la. Um muro sem preço não segurou, no passado, grandes jogadores em Munique. Uma porta com um preço altíssimo talvez segure.

Isto importa para lá de Munique porque é assim que hoje se fabricam as novelas de transferências. Um jogador brilha num Mundial, um gigante surge associado a ele e o clube atual paga a fatura dessa associação. O adepto lê «oferta» e imagina o presidente do Madrid de livro de cheques na mão; na prática, a primeira proposta, e talvez a única, é a renovação. Saber quem está de facto a licitar é a diferença entre acompanhar uma novela e deixar que no-la vendam.

O que o Bayern estará a oferecer

Segundo a Sky Alemanha, cuja notícia foi retomada pelo AS, pelo SPORT e pela Goal, o Bayern quer prolongar até 2032 o contrato de Olise, válido até 2029, e subir-lhe o salário acima dos cerca de 25 milhões de euros anuais que Harry Kane e Jamal Musiala alegadamente auferem. Olise ganha atualmente cerca de 14 milhões de euros por ano, segundo as mesmas notícias. O novo valor varia de órgão para órgão: a Sport Bild apontou 25 milhões de euros anuais, ao passo que o SPORT, de Barcelona, escreveu que poderá aproximar-se dos 30 milhões. O clube não confirmou nenhum destes números.

Fabrizio Romano acrescentou um pormenor que mostra até onde o Bayern está disposto a ir: um prémio caso Olise vença a Bola de Ouro, a somar aos prémios ligados a golos, exibições individuais e títulos. É uma cláusula invulgar, e com um calendário invulgar. Olise é um dos 30 nomeados para o galardão deste ano, que será entregue no London Palladium a 26 de outubro.

Os argumentos para lhe pagar não são difíceis de reunir. O Transfermarkt subiu o seu valor de mercado para 180 milhões de euros na mais recente atualização da Bundesliga, o mais alto do campeonato e o dobro do do colega Aleksander Pavlović, enquanto Musiala desceu para 80 milhões depois de uma lesão grave. Nas contas do Transfermarkt, Olise soma 50 golos e 58 assistências em 114 jogos desde que chegou do Crystal Palace, e abriu esta época com oito golos e quatro assistências em sete partidas. No Mundial fez sete assistências pela França, batendo o recorde de seis num só torneio que Pelé detinha desde 1970, como assinalou o próprio site da Bundesliga.

O clube que diz nunca ter telefonado

O papel do Real Madrid nisto tudo é mais estranho do que os títulos sugerem. Em junho, em pleno Mundial, o clube publicou um comunicado oficial em que garantia não ter mantido «nenhum contacto direto ou indireto» com Olise, com os seus representantes ou com qualquer pessoa do seu círculo. Foi mais longe: elogiou a sua «excelente relação institucional» com o Bayern e afirmou que qualquer interesse num jogador do outro clube deveria ser tratado primeiro entre os dois clubes.

A ligação continuou, ainda assim, a funcionar. Em julho, o L’Équipe noticiou, segundo o Maxifoot, que Olise dissera a pessoas próximas e a colegas da seleção francesa que queria jogar no Madrid, e que perguntara a Kylian Mbappé e a Aurélien Tchouaméni como funciona o clube por dentro. A Sky noticia agora que o Madrid continua a observá-lo; a Goal, citando a mesma estação, diz que os observadores do Madrid esperam que renove em Munique. O AS, que apresentou a sua peça como a «reação milionária» do Bayern ao Madrid, escreveu que em Madrid se dá por adquirido que o interesse em Olise encareceu consideravelmente a renovação.

Lidas em conjunto, estas notícias descrevem um clube que moldou uma negociação sem nela participar. Não é uma crítica ao Madrid. É a forma de poder mais barata do futebol: um nome num título não custa nada, e a fatura cai na massa salarial de outro.

A cláusula é a verdadeira negociação

O salário é a parte da história que o Bayern consegue resolver com dinheiro. A cláusula de rescisão é a que não consegue. O AS e o SPORT noticiam que o representante de Olise, Glen Tweneboah, considera indispensável uma cláusula de rescisão, tal como acontecia no Crystal Palace. Foi essa cláusula anterior que levou Olise a Munique: o Bayern acionou-a em 2024 por cerca de 53 milhões de euros, segundo foi noticiado. Olise já viu por dentro como um preço fixo transforma o futuro de um jogador numa decisão sua.

O contrato atual não tem essa cláusula. Disse-o há um ano Max Eberl, administrador do Bayern responsável pelo desporto, numa entrevista à 11 Freunde, como noticiou na altura Fabrizio Romano, e a Goal nota que essa ausência é precisamente o que agora dá margem ao Bayern. O AS e o SPORT situam acima dos 200 milhões de euros o valor em discussão para um novo contrato.

Esse número não é aleatório. A transferência mais cara da história do futebol continua a ser a de Neymar, os 222 milhões de euros que o Paris Saint-Germain pagou ao Barcelona em 2017. Uma cláusula ligeiramente acima dos 200 milhões é um preço que só um punhado de clubes poderia sequer ponderar, e o mais citado diz, publicamente, que não telefonou. Inscrevê-la num contrato não poria Olise à venda. Poria um preço numa porta que já existe.

Os argumentos do Bayern para manter a porta fechada

A posição do Bayern merece ser apresentada na sua versão mais forte, porque não é descabida. Olise tem contrato até 2029, quase mais três épocas de controlo num clube que prefere vender as suas estrelas nos seus próprios termos ou não as vender de todo. Do ponto de vista do clube, uma cláusula de rescisão é uma etiqueta de preço pública: diz a cada rival exatamente quanto juntar, tira o Bayern da negociação no momento em que o dinheiro chega e convida a um verão de especulação todos os anos. Eberl escolheu as palavras com cuidado antes do jogo com o Augsburgo. «Gostaríamos de continuar a trabalhar com o Michael durante muito tempo, para lá de 2029, idealmente com uma renovação», disse à DAZN, acrescentando que «ainda não houve conversa nenhuma» e que «há também uma terceira parte».

Christoph Freund, diretor desportivo, foi no mesmo sentido em declarações citadas pelo AS: Olise «evoluiu de forma incrível» no Bayern, «é neste momento um dos melhores jogadores do mundo» e, com contrato até 2029, «não há pressão» nem «pressa nenhuma». Karl-Heinz Rummenigge, antigo presidente executivo do Bayern, disse ao ran que está «muito confiante» de que Kane renovará em breve «e de que o Michael será o próximo». Visto deste ângulo, o salário recorde é o preço de evitar a cláusula: pagar-lhe como ao melhor jogador do clube, manter o controlo e deixar o calendário fazer o resto.

Porque é que uma porta com preço vale mais do que um muro

O problema é que o calendário não trabalha para o Bayern. Trabalha para Olise. Como sublinha o AS, cada época sem renovação baixa, em teoria, o valor que se poderia exigir por ele. Um contrato até 2029 parece longo hoje; no próximo verão restar-lhe-ão três anos, e no verão seguinte, dois. Foi o próprio Eberl a fixar o prazo, ao dizer à Sport Bild em setembro que o Bayern quer saber «até ao próximo verão» se Olise está inclinado a renovar. É nesse momento que um contrato sem cláusula deixa de ser proteção e passa a ser uma contagem decrescente.

O Bayern tem, além disso, memória recente a que recorrer. Robert Lewandowski passou a primavera de 2022 a dizer publicamente que queria sair, com um ano de contrato pela frente, e o Bayern vendeu-o ao Barcelona nesse mesmo verão. O controlo sobre um jogador que quer partir tende a durar até se tornar demasiado caro mantê-lo.

Uma cláusula acima dos 200 milhões de euros inverte essa lógica. Dá a Olise aquilo que o seu círculo pede, a certeza de que o seu futuro não depende do humor de um clube, e dá ao Bayern algo melhor do que um controlo nominal: um preço próximo do recorde mundial, fixado quando o seu valor está no auge, em vez de uma negociação que amolece todos os anos. Se o Madrid alguma vez o quiser, terá de pagar esse valor. Se não quiser, o Bayern fica com um jogador que assinou de livre vontade e não com um que foi retido.

Há ainda o que cada resposta transmite ao jogador. Olise terá perguntado a Mbappé e a Tchouaméni pelo Madrid durante o verão. Um clube que responde com um contrato e uma porta com preço está a dizer-lhe que confia que ele fica. Um clube que responde com um salário maior e sem porta está a dizer-lhe o contrário, só que mais caro.

Os próximos sinais concretos são fáceis de seguir. O Bayern quer fechar primeiro a renovação de Kane, e depois do empate a 2-2 com o Augsburgo Eberl afirmou: «Ainda temos algum tempo, mas vamos começar as conversas em breve». Até essas conversas arrancarem, cada «oferta» dos títulos é do próprio Bayern.

O que está confirmado e o que é apenas noticiado

Confirmado oficialmente: o contrato de Olise vai até 2029 e não tem cláusula de rescisão, como Eberl disse publicamente; o Bayern contratou-o ao Crystal Palace em 2024 pagando a cláusula anterior; o comunicado do Real Madrid de junho negou qualquer contacto com ele ou com o seu círculo; é nomeado para a Bola de Ouro; e Eberl, Freund e Rummenigge disseram todos que querem que renove.

Noticiado, mas não confirmado: o prolongamento até 2032, salários entre 25 e 30 milhões de euros, o prémio pela Bola de Ouro, uma cláusula acima dos 200 milhões, o alegado desejo de Olise de jogar no Madrid e o interesse continuado do Madrid. Cada um destes pontos vem da Sky, da Sport Bild, do SPORT, do AS, do L’Équipe ou de Fabrizio Romano, e nenhum foi confirmado pelo Bayern, pelo jogador ou pelos seus representantes. A posição da MCM de que o Bayern deve aceitar uma cláusula é uma interpretação desse registo, não uma notícia.

O Real Madrid não fez nenhuma proposta por Michael Olise. O Bayern está prestes a fazer-lhe a maior da carreira, e o único termo que vale mesmo a pena negociar é o preço da porta.

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