Análise

La bola negra converteu Boyero. O Óscar decide-se sem ele

Molly Se-kyung
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Carlos Boyero é o crítico de cinema mais polémico de Espanha. Trinta anos a chamar Pedro Almodóvar de sobrestimado. Uma autodefinição — sem ironia aparente — como «o tipo mais preconceituoso do mundo». E agora confessa à Cadena SER, dias antes da estreia espanhola, que vai acabar por sonhar com La bola negra. As palavras exactas: voy a acabar soñando con ella.

Seria irrelevante se o filme fosse um thriller de época ou um drama rural austero — os géneros que Boyero habitualmente defende. La bola negra não é nenhum dos dois. Realizado por Javier Calvo e Javier Ambrossi, o duo conhecido como Los Javis, que construiu a reputação com a série queer La Veneno, é uma épica de três gerações de homens gays em Espanha: 1932, 1937 e 2017. O argumento inspira-se no romance inacabado de Federico García Lorca e na peça La piedra oscura de Alberto Conejero. No elenco: Penélope Cruz, Glenn Close e Guitarricadelafuente na sua estreia no cinema.

Se La bola negra é um grande filme permanece em aberto — os críticos que já o viram estão profundamente divididos. O que a reacção de Boyero revela é algo desconfortável sobre a forma como falamos de cinema e sobre as bases reais da candidatura espanhola ao Óscar.

O crítico mais couraçado de Espanha

Boyero, nascido em Salamanca em 1953, é a voz crítica mais divisiva do cinema espanhol desde meados dos anos 1980. Escreve para El País desde 2007. Um documentário de 2022, El crítico, exibido no Festival de San Sebastián, ofereceu o retrato mais completo do seu método: brilhante, exasperante, ocasionalmente generoso, e constitucionalmente desconfiado das emoções que considera imerecidas.

O seu nome é sinónimo de uma postura cultural precisa: a defesa do cinema europeu clássico contra o que descreve como a invasão da correcção política e do espectáculo comercial. Na prática, décadas de descredenciamento de Almodóvar e um desconforto documentado com qualquer cinema que coloque vidas LGBTQ+ no centro.

O filme

La bola negra estreou na competição principal no Festival de Cannes 2026, onde recebeu entre 16 e 20 minutos de ovação de pé — a segunda mais longa na história do festival. Partilhou o Prémio de Melhor Realização com Fatherland, de Paweł Pawlikowski. Rotten Tomatoes coloca-o em 90% de aprovação; Metacritic em 86, na faixa de «aclamação universal». A Netflix adquiriu os direitos de distribuição nos EUA com uma janela teatral de 47 dias — a mais longa da história da plataforma. A Academia de Cinema Espanhola seleccionou-o como candidato ao Óscar de Melhor Filme Internacional na 99.ª cerimónia.

A ovação e os seus críticos

O que está fortemente em disputa é se o filme é efectivamente bom no sentido que sobrevive ao entusiasmo cannois.

Ariel Schweitzer, na imprensa francesa após Cannes, chamou-lhe «pornografía de la memoria» — pornografia da memória. A acusação: La bola negra instrumentalizaria o trauma da era franquista para efeito emocional sem a disciplina que o justifique. Carlos Heredero, fundador de Caimán Cuadernos de Cine, foi mais directo: «Uma absurdidade segue outra.» A Loud and Clear Reviews elogiou realização e interpretações, mas observou que as personagens funcionam como «marcadores num exercício académico».

O que a conversão de Boyero não prova

O argumento mais sólido dos cépticos: um filme que opera com escala emocional suficiente pode superar a faculdade analítica sem a convencer. Uma ovação de 20 minutos não prova qualidade; prova que o filme captou uma necessidade colectiva. A capitulação de Boyero não demonstra que La bola negra transcendeu os seus preconceitos — demonstra que o filme golpeou forte o suficiente para os contornar.

O contra-argumento é menos arrumado mas mais difícil de rejeitar. A arte que verdadeiramente alcança as pessoas opera abaixo do limiar da argumentação formal. Para Boyero, esses momentos aterraram apesar de tudo o que trouxe à sala contra eles. O preconceito não foi protecção suficiente.

Os votantes da Academia, em Los Angeles, receberão os 122 minutos do filme em frio — sem a ovação, sem o peso do que significa em Espanha que este filme tenha alcançado este crítico em particular.

O que se sabe — e o que permanece em disputa

Os factos: Prémio de Melhor Realização em Cannes partilhado com Pawlikowski; 90% no Rotten Tomatoes, 86 no Metacritic; janela teatral mais longa da história da Netflix. Carlos Boyero declarou, em antena, que vai sonhar com o filme.

O que permanece em aberto: se a ambição emocional do filme é correspondida pela sua disciplina histórica; se a resposta de Boyero diz algo sobre a qualidade do filme ou apenas sobre a sua capacidade de arrasamento; se a divisão crítica internacional resultará numa campanha sólida o suficiente para a Academia.

La bola negra alcançou um homem feito para a rejeitar. Isso diz algo real. O que não diz nada é sobre o que vai acontecer em Janeiro, numa sala em Beverly Hills onde o nome de Boyero não chega.

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