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Steven Quale fecha Tom Brittney numa cabine condenada em Black Box

Liv Altman

A premissa é velha o suficiente para soar a folclore e específica o suficiente para magoar. Um homem regressa a casa com um caixão no porão de carga. Lá dentro está a namorada, morta numa caminhada que os dois tinham feito juntos. Algures sobre o país, a cabina à sua volta deixa de se comportar como uma cabina. Os instrumentos leem mal. Os estranhos dos lugares vizinhos tornam-se atentos e depois tornam-se errados. Algo a bordo não comprou bilhete. É quase toda a arquitetura de «Black Box», um filme de terror que quase nunca solta o cinto de segurança.

O que faz a ideia resultar é o mais antigo dos pactos do pavor aéreo. Um avião já é um lugar onde entregamos o controlo e torcemos. Aperte o cinto e a história escreve-se em torno do seu desamparo, sem saída, sem chão, sem ninguém a quem ligar. O filme de Steven Quale pega nessa rendição quotidiana e deixa-a azedar, até as avarias parecerem menos mecânicas do que intencionais e os passageiros já não merecerem confiança para continuarem passageiros. Pertence a uma longa prateleira de histórias sobre gente comum fechada numa máquina no céu, do gremlin entrevisto na asa aos muitos thrillers de cabina fechada que se lhe seguiram, e sabe exatamente que ansiedades está a pedir emprestado.

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Tom Brittney sustenta o filme, e a escolha do elenco diz o que ele quer ser. Brittney faz de Jeremy, o enlutado cujo luto é o único facto humano estável enquanto tudo o que é tecnológico e metafísico à sua volta se desfaz. O resto do manifesto, entre eles Holly White, Betsy-Blue English, Georgina Leonidas, Boadicea Ricketts e Cel Spellman, lê-se menos como um conjunto de personagens desenhadas do que como um recorte de estranhos que se encontrariam em qualquer voo nocturno, e é esse justamente o ponto. Este tipo de terror só resulta quando as vítimas são comuns o suficiente para nos representarem e intermutáveis o suficiente para que qualquer uma possa ser a próxima.

Quale é uma escolha curiosa para um material tão contido, e é parte do que o torna interessante. Construiu o nome no espetáculo, nas sequências de catástrofe em massa elaboradamente engendradas dos seus filmes de desastre, as tempestades, as autoestradas, as coisas que caem do céu. Aqui encolhe a tela para um único cenário de fuselagem e mantém as mãos em quase tudo. Realiza, opera a câmara e monta o filme ele próprio. Este trio costuma assinalar um obsessivo do controlo, um orçamento pequeno, ou ambos, e o filme veste a restrição abertamente. Um realizador habituado a arrasar cidades tenta agora assustar-nos no espaço de algumas filas de lugares.

A linhagem importa porque «Black Box» não finge reinventar seja o que for, e é mais forte quando o admite. Herda a claustrofobia do thriller de quarto fechado e enxerta-a em algo mais estranho, a história de possessão, a história de invasão, a suspeita de que o defeito não está na cablagem. Enquanto o filme retém a sua resposta, a tensão aguenta-se, porque o não saber é o motor inteiro. Os passageiros vigiam-se uns aos outros à espera do primeiro sinal de mudança, e o ar reciclado da cabina começa a parecer uma única respiração presa e partilhada.

O problema é que o filme acaba por decidir qual é a ameaça, e a decisão é onde a boa vontade se esgota. Aposta forte num registo paranóico de chapéu de papel de alumínio que resulta muito melhor como sugestão do que como explicação, e uma vez fechada a contabilidade sobrenatural, sobra pouco pavor para gastar. A crítica que o viu numa sala ficou em geral pouco convencida, concedendo que o suspense é razoavelmente eficaz e a mitologia bem menos, e o público mal chegou a vê-lo, dada uma bilheteira de cinema que nunca subiu além da casa baixa dos seis dígitos. O «Guardian» deu-lhe duas estrelas em cinco. Um único cenário pode concentrar o medo ou expor as costuras, e este consegue um pouco de cada.

Tom Brittney in the Steven Quale horror film Black Box Flight 298
Tom Brittney in Black Box: Flight 298 (2026)

O argumento é de Stephen Susco, expandido a partir de um conceito de curta-metragem, e a produção vem da Capstone Studios com a Hammerstone Studios e a Inzide Media, num orçamento estimado em cerca de dez milhões de dólares. É dinheiro modesto, gasto quase todo numa única cabina fechada, construída para prender a câmara com tanto rigor quanto os passageiros. O filme dura uns enxutos oitenta e cinco minutos, classificado como terror e thriller, e não defende ser um minuto mais longo. Tirando Brittney, o elenco é feito de actores de composição em actividade e não de nomes de cartaz, o que assenta a uma história que precisa mais de uma multidão credível do que de uma estrela.

«Black Box» ainda não tem estreia portuguesa confirmada até ao momento. Está disponível em digital nos Estados Unidos desde 7 de julho, depois de uma passagem discreta pelas salas americanas no início do verão do hemisfério norte. A Espanha é a excepção: recebe uma estreia completa nos cinemas a 4 de setembro, um dos poucos mercados a dar a este voo uma corrida no grande ecrã em vez do pequeno. Se uma cabina selada resulta melhor com estranhos a respirar à nossa volta no escuro é, apropriadamente, uma questão de coragem.

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