Críticas

Carter tem uma luta de balneário inesquecível e um argumento que se desfaz

O thriller de ação de Jung Byung-gil (2022) para a Netflix, com Joo Won.
Martha O'Hara
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Carter abre com um homem a acordar numa cama encharcada de sangue, num quarto de motel em Seul. Não sabe quem é. Tem um dispositivo misterioso na cabeça, uma bomba na boca e dois meses de pandemia por trás: uma epidemia mortal que nasceu na DMZ e que já devastou os Estados Unidos e a Coreia do Norte. Uma voz ao ouvido dá-lhe ordens para não morrer, enquanto a CIA e os golpistas norte-coreanos lhe vão no encalço. O filme de Jung Byung-gil estreou na Netflix a 5 de agosto de 2022, e Joo Won, no papel de Carter Lee, é o seu único apoio sólido.

As sequências de ação são o que o filme tem de melhor. A luta nos banhos públicos, onde Carter enfrenta quase cem gangsters, é o exemplo óbvio. Um homem sem memória, que nem o próprio nome conhece, sobrevive a uma multidão graças a uma perícia de combate que não sabe de onde lhe veio. A cena é exagerada e tem, na desproporção, um humor quase involuntário. Funciona por isso mesmo. Jung Byung-gil encena-a com uma convicção que arrasta o espectador e dispensa justificações. A fotografia, muito elogiada na altura da estreia, ajuda a manter o caos legível.

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Joo Won segura o filme quase sozinho. Carter é um homem sem passado, e o ator tem de o construir com o que sobra: o corpo, o olhar desorientado, o cansaço de quem cumpre ordens que não entende. Mesmo quando o argumento o deixa a meio caminho entre vítima e arma, mantém o centro da cena e dá à violência um peso físico que o resto do filme nem sempre merece. É um daqueles casos em que o protagonista vale mais do que a história que lhe deram.

A ideia de partida é eficaz. Uma voz ao ouvido dá instruções, uma bomba na boca garante a obediência, um dispositivo na cabeça esconde a verdade. O protagonista é um executante que age antes de perceber, e o espectador fica com ele nessa mesma ignorância. O mecanismo faz lembrar um videojogo: um objetivo, uma ordem, e depois a seguinte. Durante algum tempo basta. Depois, começa a faltar ao filme alguma coisa que diga mais sobre o homem que está dentro daquele corpo.

O problema é o argumento, que carrega peso a mais. A missão gira em torno de Ha-na (Do Yeong-seo), filha do doutor Jung Byeong-ho (Jung Jae-young), desaparecida a caminho de um laboratório norte-coreano onde se trabalha numa cura. À volta dela acumulam-se a CIA, que afirma que Carter é um ex-espião dado como morto na Síria, um golpe de Estado em preparação na Coreia do Norte e uma ligação pessoal a Han Jung-hee (Jeong So-ri), que trabalha para o Partido do Trabalho norte-coreano. Cada fio tem as suas reviravoltas, mas nenhum é desenvolvido o suficiente para deixar marca. Fica a impressão de que Jung Byung-gil e Jung Byeong-sik, que assinam o argumento, foram juntando em vez de escolher.

O tom ressente-se. O filme salta do thriller político para a aventura de sobrevivência num mundo contagiado, e a costura entre as duas metades nota-se a cada passo. Quando a revelação sobre o passado de Carter chega, vem com a pressa de quem precisa de fechar contas, e a reviravolta pesa menos do que devia. É pena, porque um homem que descobre que foi outra pessoa podia sustentar um filme inteiro.

No elenco secundário há mais ofício do que as personagens deixam aproveitar. Lee Sung-jae empresta a Kim Jong-hyeok uma segurança que torna o antagonista credível mesmo quando os seus movimentos são previsíveis. Jeong So-ri dá a Han Jung-hee uma compostura que segura cenas que de outro modo ficariam entregues à explicação. Camilla Belle (Agnes) e Mike Colter (Smith) aparecem na vertente americana da intriga, mas as personagens ficam à margem e pouco lhes é pedido.

Uma pandemia nascida na DMZ e alastrada aos Estados Unidos e à Coreia do Norte era, em 2022, um pano de fundo difícil de ver sem uma sensação de familiaridade. O filme usa-a como cenário. Os infetados são mais uma ameaça a esquivar, e nenhuma cena pára para perguntar o que acontece a uma sociedade quando o contágio a atravessa. Fica a ideia de duas Coreias a cooperar numa cura, com um potencial político evidente, mas o argumento trata-a como pretexto para levar as personagens de um sítio para outro.

Sobre a identidade, o filme fica à superfície. Carter não sabe quem é, e as versões que lhe chegam excluem-se umas às outras: para quem o guia, é um cidadão norte-coreano naturalizado, nascido na Coreia do Sul, que aceitou a missão para salvar a filha doente; para a CIA, é um antigo agente dado como morto. O filme deixa-as desfilar como dados a registar, sem nunca as transformar numa dúvida que o espectador sinta na pele. É a parte mais interessante, e de cada vez que se insinua é coberta pela cena seguinte. Quem procure um filme sobre a memória fica com a sensação de uma pista abandonada.

A receção crítica acompanhou este desequilíbrio: as críticas oscilaram entre o misto e o negativo. Os elogios foram para as sequências de ação, a fotografia e o desempenho de Joo Won; as censuras, para a trama e a escrita. Concordo com ambas, e não vejo contradição entre elas.

Eu veria o filme pelos banhos públicos e por Joo Won, não pela história. Como espetáculo de ação, Carter oferece algumas sequências e um protagonista que bastam para justificar a noite; como história, é um filme que acumula sem decidir o que importa. Depois dos créditos, ficam umas quantas cenas de pancadaria que se recordam e a sensação de que a premissa pedia um argumento mais atento ao que tinha entre mãos.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

  • 도영서 — Ha-na

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