Críticas

O Cisne faz da simetria de Wes Anderson um retrato frio e exato da crueldade

A curta de 17 minutos de Wes Anderson a partir de Roald Dahl, 2023, é mais sombria e compacta do que Henry Sugar.
Martha O'Hara
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O Cisne abre com a perseguição e não perde tempo a disfarçá-la: dois brutamontes, grandes e broncos, andam atrás de um rapaz pequeno e brilhante. É a premissa do conto de Roald Dahl, e Wes Anderson não a suaviza. A voz de Rupert Friend, o Peter adulto, conta tudo a partir de uma distância que não alivia nada. Sabemos que quem fala sobreviveu, e isso não torna o aperto do rapaz menos duro.

A curta chegou à Netflix a 28 de setembro de 2023, integrada num conjunto de quatro filmes baseados em contos de Dahl. Prolonga a abordagem narrativa de The Wonderful Story of Henry Sugar: personagens que contam a sua própria história e um narrador que não deixa ninguém esquecer que está a ouvir um relato. Em O Cisne o dispositivo pesa mais do que na curta anterior, porque aqui o que se conta é uma perseguição feita de crueldade. Ouvir um adulto recordar o que lhe fizeram em criança dá ao filme um tom grave, quase de confissão, que contrasta com a arrumação de cada plano.

Com cerca de 17 minutos, a curta não tem espaço para rodeios, e é nessa economia que Anderson se sente à vontade. A teatralidade é assumida. O elenco inclui quatro intérpretes creditados apenas como Stagehand (Eliel Ford, Truman Hanks, Benoît Herlin e Octavio Tapia), e a simples existência desses créditos sugere um filme que prefere mostrar os seus mecanismos a escondê-los. Percebe-se a ideia, que é contar a violência como quem monta um espetáculo, e percebe-se também o risco. Quando tudo está tão bem arrumado, o perigo pode parecer encenado demais.

Asa Jennings, no papel do jovem Peter Watson, é quem segura o filme quando a estilização ameaça afastar-nos. Tem de parecer pequeno, esperto e assustado ao mesmo tempo, e consegue-o sem grandes gestos. Rupert Friend, como narrador e Peter adulto, mantém um registo contido que impede a história de resvalar para o melodrama. Ralph Fiennes surge como o próprio Roald Dahl, numa aparição breve que serve sobretudo para lembrar a quem pertence a história. Num papel tão curto, apetece vê-lo durante mais tempo.

Os temas que o conto trabalha, a liberdade, a resistência e a fé, estão todos presentes, mas apenas esboçados. A liberdade e a resistência lêem-se na própria situação do rapaz acossado. A fé fica mais discreta, e quem for à curta à procura de uma reflexão desenvolvida sobre ela vai achá-la escassa. Em contrapartida, a classificação do BBFC, que aponta referências a violência, a bullying e a comportamento perigoso, mostra que o filme não brinca com o assunto. Há ali uma crueldade real, e a história de Dahl nunca a usa como pretexto para a graça.

A objeção mais séria é de ritmo e de distância. Anderson compõe os planos com um rigor tal que, por vezes, a urgência de Peter se dilui na pose. Quem conhece o estilo do realizador reconhecerá a simetria, a cor e a composição cuidada, mas reconhecê-las é uma coisa e sentir o medo da personagem é outra. Nos melhores momentos, as duas coisas coincidem. Nos outros, o espectador admira o enquadramento enquanto o rapaz foge.

Ainda assim, O Cisne é das curtas mais sérias que Anderson assinou, e isso conta. Respeita a dureza do conto, confia na voz do narrador e dá a Jennings o centro do quadro. Em pouco mais de um quarto de hora, põe duas figuras grandes e broncas contra uma criança pequena e brilhante e não finge que o desfecho é leve. Quem sai da sessão a admirar a imagem e a pensar no rapaz, as duas coisas ao mesmo tempo, viu o filme que Anderson quis fazer.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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